Ler Nietzsche traz-me à mente uma imagem poderosa, que condensa quase tudo que penso a seu respeito: a de um pintor exímio, um verdadeiro maestro dotado de pleno domínio das técnicas de sua arte, que tomasse o pincel com o propósito de pintar um arco-íris quando, na outra mão, sustenta uma aquarela que não dispõe de outras cores senão o preto e o branco. Posso, ainda, fazer outra analogia. Sei que anteriormente me utilizei desta imagem em referência a escritor bem diverso, mas tal impressão aqui também se aplica: as obras de Nietzsche sugerem os movimentos de um bailarino habilíssimo que só dispusesse do espaço de um banheiro para executar seus passos impossíveis.
Mas, para que me entendam, exemplifico. Em “Últimas ressonâncias do cristianismo na moral”, aforismo de número 132 de Aurora, o grande escritor e moralista – porque filósofo é a mãe – observa a progressiva violência perpetrada contra a consciência individual que a democracia moderna representa, e ainda em razão do impulso natural dos “cidadãos” de buscarem sua realização pessoal em qualquer tipo de projeto que quede bem abaixo – senão claramente contra – tal aspiração. Escreve Nietzsche:
Agora parece que faz bem a todos ouvir dizer que a sociedade está em vias de adequar o indivíduo às necessidades gerais e que a felicidade e ao mesmo tempo o sacrifício do indivíduo está em sentir-se um membro útil e um instrumento do todo: mas ocorre que no presente hesita-se muito em relação a onde buscar esse todo, se num Estado existente ou a ser fundado, na nação, numa fraternidade de povos ou em novas e pequenas comunidades econômicas.
Impecável, a constatação em si. No entanto, para chegar até ela – pelo menos é o que Nietzsche quer nos fazer crer -, ele teve de primeiro perceber uma coisa cuja nebulosidade hoje nos é menor, ainda que intensa: a dissolução da religião em vaga religiosidade. No caso, o cristianismo a perder todos os dogmas elaborados através de séculos de Igreja, de modo que se adeqüe facilmente ao apaziguamento da consciência daqueles que são medrosos demais para serem ateus e sinceros de menos para serem religiosos. Vemos, aqui, o arranjo da aquarela em preto e branco:
Que o indivíduo de ações simpáticas, desinteressadas, sociais, de utilidade geral, seja visto agora como o homem moral – é talvez o efeito e a mudança mais amplos que o cristianismo produziu na Europa: embora não tenham constituído sua intenção nem sua doutrina. Mas foram o resíduo de disposições de espírito cristãs, quando gradualmente retrocedia a crença fundamental, bastante oposta, estritamente egoísta, no “uma só coisa é necessária”, na absoluta importância da eterna salvação pessoal, juntamente com os dogmas em que se baseava, e assim foi empurrada para primeiro plano a crença secundária no “amor”, no “amor ao próximo”, em sintonia com a enorme prática da misericórdia eclesiástica.
Passagens como Marcos 12, 28-34 e Lucas 19, 25-28 dão alguma razão a Nietzsche no que diz respeito à óbvia precedência de um mandamento ao outro. Mas – ora p. – é necessário cerrar os olhos com um esforço insano para não perceber que o primeiro mandamento, necessariamente, só se concretiza através do segundo, e vice-versa. A leitura em preto e branco empreendida por Nietzsche é a de quem busca julgar uma determinada doutrina de fora, sem se pôr sob ela para então buscar ver seu sentido. A tentativa nietzschiana de ler o plebeísmo coletivista moderno à luz de uma suposta continuidade com o que havia de “menos altivo” no cristianismo não é caso de embuste ou de equívoco: é produto de um escotoma e, enquanto tal, está aquém de discussão. Isso, no que se refere à “genealogia” do problema, problema esse perfeitamente constatado, não obstante mal situado. Porque, aliás, como pôde Nietzsche não perceber que o “altruísta moderno” é uma criatura profundamente anti-cristã? Só encontro uma explicação razoável: o germanismo arraigado, fatal, provinciano, da Alemanha crescentemente nacionalista de seu tempo, a qual mesclava puritanismo, nacionalismo e anti-intelectualismo. Mas, mesmo assim, nem só na Alemanha pisou Nietzsche…
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A mescla íntima de méritos e deméritos em toda a obra de Nietzsche – que exemplifiquei acima em escala reduzida – é coisa que nem os leitores que o divinizam em atitude rasteira poperô (tipo uma Letícia Sabatella a lê-lo serelepe nas horas vagas) nem os conservadores bibelôs que afetam ficar chocados ao simplesmente ouvir o nome do santo podem perceber. Pois Nietzsche era um aristocrata que sofria de um nobre escotoma. Capítulo didático, nesse sentido, é “O que é nobre?”, de Além do bem e do mal.
Em tais páginas, resta bem clara a aspiração central da obra do alemão, a divisa a partir da qual ele tudo aborda e diante da qual todo o resto do que postulou – vontade de poder, amor fati, genealogia de idéias – deriva: o páthos da distância. Tal “paixão” é a mais própria ao aristocrata, ao homem que tem a certeza (totalmente razoável, creio) de que toda e qualquer sociedade não se justifica pelo conjunto de seus homens, mas apenas por uns poucos altivos cuja elevação é resguardada e admirada pelos demais. Em suma, é a idéia de que o distanciamento social se deve fazer acompanhar de um sentimento de rarefação, de aceitação fatal do destino que lhe cabe e que cabe aos outros: tal nobre olha para baixo quando tem de se dirigir às gentes não por prepotência, porém porque sabe que essa é sua função.
O homem que sente a distância é, sobretudo, alguém que tem reverência por si. Dirige seu olhar para si e se regozija virilmente (sem sentimentalismo autocomplacente) com aquilo que é – e, ao achar boa a sua elevação, funda a moral dos senhores. Já o “oprimido”, ao conceber a moral nobre como o motivo de sua pequenez, e não como algo digno de ser aspirado (mesmo que com a consciência de que se trata de coisa inalcançável), funda a moral de escravos ao identificar o elevado, nobre e natural com o mau, o rico e o fácil. Seria essa a má consciência, a qual teria encontrado ampla expressão histórica com o advento do judaísmo. E há, ainda, esta observação curiosa sobre a moral dos senhores:
O que faz uma moral dos dominantes parecer mais estranha e penosa para o gosto atual, no entanto, é o rigor do seu princípio básico de que apenas frente aos iguais existem deveres; de que frente aos seres de categoria inferior, a tudo estranho-alheio, pode-se agir ao bel-prazer ou “como quiser o coração”, e em todo caso “além do bem e do mal” – : aqui pode entrar a compaixão, e coisas do gênero.
É necessário admitir que toda essa argumentação faz um grande sentido. No entanto, é “geométrica” demais, pois Nietzsche jamais teve a coragem necessária para se propor a sério uma pergunta óbvia: não será a moral dos senhores mais um adorno, uma incandescência vital do homem que não necessita da vaidade – pois sabe quem ele é – do que propriamente um vigor e rigor moral? Como pôde um moralista não investigar tal questão? Se é para restaurar o páthos da distância sobre o qual o servilismo democrático baixou sombra, por que não inquirir também em que medida um cristão, ao pôr-se diante de Cristo e olhar os próximos como seus iguais, não está se impondo um fardo cuja leveza mal se faz sentir? Se um nobre nietzscheano é tímido a ponto de ter altos deveres para com uns poucos apenas, um cristão é audaz o suficiente para fazer-se cheio de deveres para com todos. No entanto, dirá Nietzsche, um cristão é um ser cheio de compaixão – e o “carregar as dores dos outros” enegrece a vida. Aqui, mais uma vez, o escotoma: a idéia de compaixão parece conotar um peso amargo, enquanto quem de fato a sente sabe, ao contrário, quão revigorante ela é. Incrível como por vezes este duro alemão conseguia ser mais cego que os mais nauseabundos racionalistas.