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Abaixo, crítica minha do filme infame. Saiu em O Imparcial, edição impressa de 22.10.

TARANTINO, UM BASTARDO

Por Ronald Robson

Quentin Tarantino é entretenimento. Não mais, embora alguns tendam a acentuar que não menos. É espécie de “Se Vira Nos Trinta” em caleidoscópio de referências cinéfilas para nerds que muito apreciam – e fazem de suas vidas exemplos disto – um dos mais malditos imperativos de nossa época, aquele segundo o qual a ironia deva preceder à afirmação. Daí chegamos à conclusão de que podemos não gostar de uma bela porcaria; porém, em paradoxo apenas aparente, é-nos imperioso idolatrar outra bela porcaria, desde que metalingüística. Podemos não gostar da televisão brasileira que nada nos diz; devemos, no entanto, adorar Tarantino, que nada nos diz mas o faz com charminho. Coisa de geração que jamais reconheceu em si o significado da palavra “apedeutismo”. Continuar a ler »

Retorno para vos pedir meditais o texto que se seguirá. Contém-no o volume Meu encontro com Deus (La Seconda Nascita), de Giovanni Papini, págs. 136-139. É de largo proveito que o façais. Nas “tebaidas da cultura pátria” – alguém diria, e com necessária gravidade – cai-me à mente que pouca coisa parece de somenos importância a nossos homens de estudo que a força do gesto exortativo, que o desvario são de leituras que nos insuflem a combatividade, o permanecer de pé. Leituras que nos lembrem que “os trezentos espartanos que morreram em Termópilas, estejamos certos, cantaram as grandes odes de Tirteu durante a batalha”, como nos assegurou Rosenstock-Huessy numa passagem. À leitura.

O ANTROPÓFAGO

Giovanni Papini

Pedi amor aos contemporâneos? O amor não se pede, mas se ganha, às vezes sem merecimento e, quando não se ganha, metade da culpa é de quem não é amado. Os pouquíssimos que me amaram, amaram-me até demais, em todo caso muito mais do que merecia a minha soturnidade. Portanto não me queixo. E não se queixam também aquêles temerários que souberam encontrar – milagres da ousadia! – um pouco de doçura sob a casca espinhenta.

E nem pedi justiça, pois na terra pertence ao tempo e em todo o lugar a Deus sòmente. Não conheço a estratégia dos astutos que sabem rogar e captar benevolências úteis e as indulgências. Não pratico a engenhosíssima contabilidade de certos emprestadores espirituais, habilíssimos em administrar a própria fama como um patrão avaro administra suas magras terras. Não sei tirar lucro de minhas afeições naturais, ignoro a arte dos feitores infiéis e cultivo, pelo contrário, com sorte inaudita, as inimizades dos califas do dia. Se de vez em quando fizeram-me um pouco de justiça é bondade exclusiva dos bons: o meu consôlo foi tanto maior quanto mais raro.

Não gemo e não grito, portanto, se os meus contemporâneos me grudaram nas costas, como asas de morcêgo, duas lendas paralelas que me ofendem. Disse que não gemo; não posso dizer que goste. Aceito êsses malignos apêndices como castigo antecipado de outras culpas de que não me acusam e talvez mais graves; aceito-as quase de boa vontade se pensar que são, normalmente, o acompanhamento e a pena da fama. O homem de gênio é aquêle inteiramente consciente do seu não-ser gênio; e só as injúrias, os escárnios, as calúnias, a sanha dos inimigos (e também dos amigos) o consolam, no seu desespêro, assegurando-lhe que, mesmo não chegando àquela grandeza que sente, está pelo menos um pouco acima daqueles que o rodeiam. E isso, para mim, é soberba, mas seria ainda mais soberbo se fingisse parecer mais humilde do que eu realmente sou. Quando me comparo aos grandes e especialmente àquela alta e total perfeição que às vêzes fulgura diante de mim, jogo-me ao chão e sinto não ser mais do que um farrapo enlameado. Quando me comparo aos outros, especialmente a certos insetos que cospem no prato onde comeram, então um demônio pior do que o pesadelo me instiga assim: “Deixe que façam e digam, pois você não é nem o último nem o penúltimo e com tôdas as pedras que lhe arremessam êsses tais inocentes você poderá sempre erguer um belo túmulo.” Neste caso leio um capítulo da Imitação ou um canto da Comédia e salvo-me da melhor maneira possível, até outra ofensiva.

O homem, por natureza indolente, e tendo que, em nossos tempos, cuidar de inúmeras coisas, tem o mau costume – absolutamente não filosófico – de reduzir tôdas as pessoas a uma ou duas características fixas, que nem sempre são as mais marcantes. Para êles o leão é maxilar, o burro orelhas, a águia bico e assim por diante. Dêste modo, para só falar dos modernos, Carducci era um bêbado que rugia, Pascoli um lagrimatório para tentilhões, Oriani uma tempestade de retórica, Fogazzaro um carola de alcova e um D. João de sacristia. Continuar a ler »

Não ao debate

“O que digo é: o conservadorismo precisa aprender a jogar também dentro das regras da academia de esquerda, sob o risco de enclausurar-se em discursos meramente laudatórios sobre este ou aquele autor. Seguir o caminho que proponho evitaria parte da radicalização e ainda permitiria aos conservadores trabalhar com o campo semântico da maioria dos leitores de literatura e de crítica literária.”

Retirado daqui. Abaixo, comentário que lá fiz.

Isso, a meu ver, deve ser coisa estritamente abominável. Tomar o mesmo “campo semântico” e aceitar “jogar também dentro das regras da academia de esquerda” inviabiliza, na base, todo o debate. Por exemplo: à diferença do que defende o Emmanuel em seu comentário acima, a suposta pretensão “universalista” e “neutra” da crítica estruturalista é – e o percebemos ao assentar a discussão em seu terreno concreto – só mais um passo no eclipse da linguagem quanto a qualquer realidade extra-língüística, eclipse esse que permitiu as maiores perversões ideológicas, vez que deu via ao “liqüidificar” (para usar um jargão dessas hienas) dos significados, destruindo hierarquias e inviabilizando tradições. Mesmo filósofos hábeis e sui generis como Vilém Flusser, que tentou rejuntar fenomenologia e “analítica” (Wittgenstein), chegou a buscar reduzir todo o ser ao conhecer ao afirmar que, no fim das contas, o que interessa é o simbolismo lógico que fundamenta toda nossa maneira ocidental de “conceber” o mundo.

O que fazer, então, nesse caso? Tentar dialogar com intelectuais cujo ofício não é nada mais do que “ter idéias”, e idéias cujas premissas são em todo equivocadas? Claro que não. Eu acho, sim, que é necessário desde logo – aos que já possuem uma formação de certa solidez, i.e., uma meia dúzia na qual não me incluo – abrir caminho na academia. Esse desbravar, no entanto, se intelectualmente sério, não resultará em menos que implosão das “regras do jogo” atuais. Se alguém vem me dizer que a estrutura do romance machadiano é feita à analogia do movimento das classes sociais brasileiras do século XIX, como faz o Sr. Schwarz, eu simplesmente me recusarei a “demonstrar” a esse fulano que ele incorrera em equívoco. É como tentar provar a um homem que acabou de sentir dor na perna que sua perna simplesmente não existe. Uma pessoa normal não pode consentir em dialogar com um esquizofrênico sem partilhar algo de sua esquizofrenia. Jamais pedirei licença em um debate de acadêmicos com o “profile ok” de hoje. No fim das contas, costumava escrever Nikolai Berdyaev, “the sole criterion of truth is truth itself, the light which streams out of it”.

Entendo, por outro lado, sua preocupação acerca da difusão social do que pensam e produzem os conservadores brasileiros hoje. É, de fato, difícil a quem já se habitou a ler coisas como “este romance traça uma crítica dos limites epistemológicos do consumista” entender o que se passa na cabeça de quem admira – sei lá – a crítica de um Augusto Meyer. Explique-me: como demonstrarei a uma pessoa que estuda aquela besteira de “aspectos metafísicos” da obra de Guimarães Rosa que o grande mestre do romance brasileiro do século XX é José Geraldo Vieira, o único que suporta uma comparação direta com aquela rica prole de escritores de língua alemã (Mann, Von Doderer, Wasserman, Broch etc.), sem minguar o debate com meu interlocutor? Acerca dessa matéria, temo que, até este momento, o mais prudente seja deixar que o tempo passe. À exceção da obra de Olavo de Carvalho, de uma observação pontual ou outra de Luiz Felipe Pondé, nada há de realmente maduro para ser difundido atualmente no Brasil. Quanto aos dois ou três poetas realmente bons de que dispomos, melhor que se dediquem apenas a escrever seus livros. A ocupação de espaços há de vir naturalmente.

Até

Este blog – muito provavelmente – acaba aqui. Um abraço a cada um de vocês.

P.S.: “muito provavelmente”, eu disse. Nada lhes custa me fazer uma visita mensal.

Há quase um ano, lancei sobre um opúsculo sem brio algum do José Miguel Wisnik a crítica de que o que ali se pratica é uma subespécie da já muito reducionista abordagem sociológica dos documentos literários artísticos. Se olharmos para certa porção – ancha porção – da crítica literária praticada nas últimas décadas, perceberemos que se trata de variados graus de “sociologismo” e de formalismo, quase sempre praticados ao modo de panfletários – camuflados, refinados até – que cavalgam escritores e obras para alcançar determinadas conclusões pré-concluídas e já há algumas décadas inviabilizadas em debates de natureza mais ampla. No que se refere ao tique sociologizante, o fato é que, no entanto, desconsiderar o fundo histórico a que se verga uma obra é também ignorância – ao passo que é igualmente verdadeiro que não dedicar atenção suficiente à “obra em si” faz o crítico patinar em solo dúbio. A compreensão dos momentos históricos – dos “espíritos de época” com a ciência que lhes é própria, como a tradição alemã nos ensinou – é pré-requisito da crítica, embora não o seja da leitura tout court. Franklin de Oliveira, que me é muito prezado, é exemplo de crítico que sabe ler um livro à luz de sua gênese – o que conota dizer que domina ele a arte dificílima de imaginar verossimilmente quais as notas culturais mais representativas da formação espiritual do escritor. Seria uma via de leitura que pretende tomar as disposições de caráter de um homem concreto em uma época concreta como clave para as “concreções” que são as obras – da potência da imaginação criativa às suas atualizações nos escritos, pois.

Perceba o leitor que uma técnica crítica como esta – que, à ausência de melhor termo, eu chamaria aristotelicamente de “genética cultural” – não é refinamento da abordagem sociológica dita “ortodoxa” (para não dizer coisa pior, vez que esse tipo de crítica só se prolifera com a bibliografia marxista). Em verdade, é a absorção da leitura sociológica em um panorama mais largo e ventilado, poder-se-ia dizer quase que antropológico. Assim como a dimensão sócio-histórica é introjetada à altura que lhe cabe numa hierarquia compacta, a irredutibilidade formal da obra é também equalizada desde cima, dela se extraindo o que possa servir de pista à recuperação das experiências reais de que falam os autores em suas obras, embora o possam fazer muito veladamente. Vista dessa forma, a dualidade arquetípica – e por isso improcedente, pois obras literárias submetem-se rigorosamente a gradações de espaço, tempo e número (Os Gêneros Literários – Seus Fundamentos Metafísicos) – de sociologismo e formalismo representa tão só um acanhamento intelectual do crítico – seja por incultura, seja mesmo por lhe faltar talento para a coisa. Pois, se literatura é literatura, mas é também conjunto de obras sinceras de homens reais para homens reais, o que em última instância importará é a dimensão humana que nela se “informa”, com a sugestão que o verbo comporta de “forma que se interioriza”. Só a partir daí é que poderemos avaliar quão rica é a cobertura de certo conteúdo histórico-social perpetrada na obra e quão criativa é a técnica aí empregada. O mais será beletrismo.

Por isso, acho muito aceitável que alguém, ao ler um poema, diga: “este autor está errado“. Como assim – “errado”? Ora, estará errado tanto quanto equivocada estiver a cosmovisão que o gerou. A tão fácil observação – quase açodam os lábios por ela, parece – de que ainda assim pode ser exemplo de bom poema parece nos estrepitar rumo à pustulenta antinomia conteúdo-forma: “é bom enquanto obra artística, mas seu ‘conteúdo’ é falso”. Não bastassem os argumentos dos parágrafos precedentes, seria de proveito perguntar: “e se a obra fosse ruim, poderia o ‘conteúdo’ mesmo assim ser bom?” Certa vez, Carpeaux arrolou em artigo de jornal (“O romance e a sociologia”, de 1947, se bem recordo) algumas refutações dessa perspectiva, entre as quais tem destaque a observação de que, entre tantos romancistas empenhados em retratar a sociedade francesa oitocentista, apenas um nos deu de fato o romance da ascensão da burguesia ao primeiro plano social: Balzac. E por quê? Apenas, por ser sua obra grande, o que nos força a dizer que tem ela vida, lastro na realidade – e que é de uma obra, por mais bem documentada e teorizada social e historicamente que seja, caso se apresente desprovida do lume criador que aciona sua ordem, sua harmonia, sua beleza?

Perfiladas essas proposições, afigura-se-me evidente – espero que ao leitor também – que, no fundo, as componentes ética, pedagógica, política etc. de uma obra literária são sempre contemporâneas. Logo vemos, então, haver algo de estranho quando se fala em coisa como “estética política” ou “estética politizada” (a estetização da vida também acometeu fortemente a literatura, mas não é assunto de que cabe falar aqui). O que a expressão nos pede que dela compreendamos? Que a componente política possui nas obras de certos autores uma proeminência invulgar? Provavelmente. Mas, como expus, não seria possível falar em verdade política apartada da verdade de um romance ou poema ou o que seja. Só mesmo existe a “verdade da obra”, esse organismo vivo. A componente política todavia guarda uma singularidade, porque, nela, é necessário distinguir aquilo que é conhecimento daquilo que é chamado à ação, desde que se pondere que o primeiro elemento jamais estará totalmente isento do segundo.

A Máscara do Mal

Em minha parede há uma escultura de madeira japonesa

Máscara de um demônio mau, coberta de esmalte dourado.

Compreensivo observo

As veias dilatadas da fronte, indicando

Como é cansativo ser mau

Bertolt Brecht (1898-1956)

O último enigma

O último enigma que possivelmente iremos experimentar é a constatação de que o mundo, com toda sua secreta geometria, revelou-se-nos afinal por inteiro, em pleno poente da verdade, e todavia, sem compreendermos  bem por que, o rechaçamos feito fosse ele companhia maçante mas benquista – daquele tipo que muito nos agrada, desde que fique calada e em repouso. Veja: és jovem e queres compreender, embora pouco te ocorra perguntar com  seriedade o que diabos afinal é isso que muito queres saber. Suspeitas que algo há que valha a pena das agruras do estudo mais rotineiro, mais denso, amiúde desesperador. Não suspeitas no entanto que, chegado o peso dos 60, 70 anos, tudo te afigure suficiente. Não te ocorre que Ítaca possa tornar-se próxima. E não perguntas: a “busca da transcendência” pode levar-nos à  recusa indiferente de movermos ainda mais esforços em sua busca? Com “A Máquina do Mundo”, Drummond respondeu que sim. E assim respondeu por ter percebido que não existe “busca da transcendência”. É este mundo que se abre para o outro – e tal abertura não se promove com um pé-de-cabra.

É poema de velhice. Poema de alguém que após ter dedicado toda uma vida a uma atividade que não tem outro sentido que não a busca de um sentido maior, a poesia; poema de quem não precisa mais correr em sangria rumo à mansão almejada porque já se encontra sentado em calma na sua sala. Não é, como costumam dizer, poema em que Drummond nega ao mundo a necessidade de um sentido não imanente. Um poema, por ser um poema, já não poderia ser ferramenta para tal engenho. A reação do poeta à maravilha é também maravilhosa, e devemos compreender por quê.

Cada vez mais, noto-me desgraçadamente ridículo quando adoto condutas, ou modos de me expressar, que suponham uma espécie de empenho abnegado de pesquisa, de procura, de caça àquilo que constitui a substância da realidade e de minha vida. Claro que a todo instante, se possível, devemos ter em vista tal propósito. O que é tosco, quero dizer, é a artificialidade da coisa, a indignada recusa de ver-se na situação de quem desse as costas ao mistério e dele se afastasse de “mãos pensas”. Pena que em tantas outras pessoas noto modo de portar-se similar. O mistério, afinal, só pode se nos oferecer para que vivenciemos esse último enigma, que talvez só não seja maior que os de Deus e da morte. Temos de aceitar que a máquina do mundo só se abrirá, afinal e alegoricamente, se já tivermos fixado o cerne de nossas existências com força suficiente para tolerarmos a possibilidade – digamos logo: o fato – de que ela nunca se abrirá.

Se não conhecem o poema, leiam-no já.

Erich Auerbach investiu alguns anos de sua vida no estudo do sermo humilis. A esse tom de discurso – pois é mais que estilo mas menos que gênero – atribui a fundação intelectual da cultura européia, coisa que espanta por fazer-nos ver que a “cultura ocidental” assenta-se sobre uma fé, uma perspectiva, uma compreensão segundo a qual as verdades mais altas devem ser universalmente compreensíveis, porque expressas em estilo “realista” (o mais baixo da poética clássica – oposto ao sublime, ao idealizado), com simplicidade e paciente submissão a um mistério mais insondável que todos os demais. A sagração do sermo humilis deu-se com Santo Agostinho, tal como exemplifica fartamente Auerbach em Sacrae scripturae sermo humilis. Uma passagem:

O sermo humilis, que permanece humilde mesmo quando é figurado, sempre esteve intimamente ligado às origens e à doutrina do cristianismo, mas foi apenas o grande espírito de Santo Agostinho, onde se cruzavam e por vezes se chocavam o mundo antigo e a fé cristã, que tomou consciência do fato. Talvez não seja exagerado dizer que foi ele que deu à Europa o sermo humilis, dessa maneira fundando, nesse domínio como em outros, a cultura medieval, lançando as bases desse realismo trágico, dessa mistura de estilos que, a bem dizer, só viria a se desenvolver muitos séculos mais tarde. O realismo popular na arte e na literatura floresce a partir do século XII, e é só então que se reencontra, experimentada a fundo e por vezes maravilhosamente formulada, a grande antítese cristã do sublime e do humilde. Mas alguns dos frutos mais belos do espírito humano só amadurecem lentamente.

Há incontáveis páginas de Agostinho sobre “a grande antítese cristã do sublime e do humilde”, e Auerbach, claro, antologia algumas no ensaio supracitado. No entanto, gostaria de lhes apontar uma breve passagem das Confissões (I,30) que não apenas ilustra de maneira muito pessoal a tensão entre uma alta verdade e sua humilde elocução, como ainda permite especular que só a desconfiança quanto ao estilo corrente da época engendra condições de dizermos algo verdadeiramente:

Minha educação era dada de tal modo que temia mais cometer uma impropriedade de linguagem do que acautelar-me da inveja que eu sentiria daqueles que a evitavam, se eu a cometesse.

Temer um vício de estilo mais que o pecado da inveja (e inveja ainda em razão de bem baixa vaidade) é, aí, obstáculo intransponível à elocução de algo que diga respeito a sua experiência real, ao amoldamento do discurso ao que  em realidade se passou em seu espírito. Se mais tarde Agostinho perceberia a vaidade, a futilidade, a impermanência ridícula daquele anseio de fazer-se bem posto em um meio que prima mais pela elevação impostada da expressão do que pela elevação verdadeira do espírito, foi porque só no “estilo humilde” encontrou lugar de onde opor sua voz à algaravia do mundo. Agostinho descobriu que o cristianismo requeria a consciência muito clara de que uma verdade sublime poderia e deveria ser expressa humildemente – mas mais importante é ter ele tornado-nos claro que tal humildade é também uma conquista da própria voz.

Até a Ars Poetica de Horácio conhecíamos este segundo ponto, porém não o primeiro e, ainda menos, a conjunção de ambos. Mesmo Sócrates, já no início de sua defesa perante seus acusadores, nos pede que não esperemos dele, um homem já entrado em idade, um “discurso preparado”, pois não era hábito seu freqüentar tribunas ou locais que tais, onde se falasse “belamente”. Pede-nos, então, que, enquanto juízes, atinemos apenas para o juízo de seu discurso. Que muitas vezes o filósofo venha a utilizar-se de ironias só mostra que seu desprezo pelo estilo correntemente apreciado, socialmente válido, devia-se à certeza de que a verdade, para ser comunicada, necessita que o locutor fale com sua própria voz, embora essa não necessite ser inteiramente “nova”, “original”. É portanto coisa injustificada que ao longo da História tantos homens tenham se preocupado em nos dizer “a verdade”, quando não conseguiam sequer falar, enfim, como alguém – como aquele alguém.

Ao historiador Jomar Moraes, com gratidão

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Lago Burnett (1929-1995), se mais lembrado um dia for, o será ainda como cronista. Eu mesmo, em matéria em sua homenagem que fiz publicar ano passado, só citei sua produção em versos ligeiramente, preferindo correr parágrafos a respeito do homem de jornal (imenso, hilário). Ignorância minha. Pois se ao maranhense – para lá do notável jornalista que fez escola (no papel de mestre) no Jornal do Brasil das décadas de 60 e 70 – fosse dirigida a paciente atenção que seus livros de poesia lhe fazem merecer, teríamos sonetos seus em qualquer – repito: em qualquer – antologia do gênero em língua portuguesa. Poucos tiveram tão pleno, sutil, desafiador domínio da forma em quatorze versos.

Publicou Estrela do Céu Perdido (1949), O Ballet das Palavras (1951), Os Elementos do Mito (1953), 50 poemas de Lago Burnett (1959) e O Amor e seus Derivados (1984), além de outros títulos em prosa. Uma vaga afinidade estilística, aliada à conveniência cronológica, fez com que o nome de Lago Burnett fosse arrolado entre os demais da “geração 45”.

Mas o que quero fazer não é meramente lhes “apresentar” o sr. Burnett. Quero é tratar de um aspecto de sua poesia que considero dos mais interessantes, instigante mais ainda se contraposto à escassez de “ouriços” (os homens de uma idéia só de que fala Isaiah Berlin), de “flores de obsessão” entre nossos poetas, não obstante – é óbvio – sejam grandes. Explico-me: digam que Drummond e Bandeira foram poetas de primeira linha, ao que irei aquiescer, mas não sem antes observar que, bom, nada me vem de imediato à cabeça como aquilo que “informa” suas produções quando nelas penso. Explico-me ainda: é que não acredito que artista de verdade, artista mesmo, possa sê-lo sem que ceda a idéias fixas.

Os gênios, invariavelmente, são filhos espúrios de idéias fixas. Eles as aceitam, as levam para passear, põem-nas a dormir, mas ao fim do dia vão à mesa escrever só porque nunca as docilizam inteiramente. Borges jamais conseguiu solucionar a incógnita de por que era ele Borges e não você ou eu – e, ainda, por que o é em um dado tempo (e não noutro), ocupando um certo espaço (e não outro), tendo tal proporção (e não outra). E, porque nunca compreendeu nada disso, escreveu sua obra. François Villon tinha a “paixão pelas ruínas”, como gosta de escrever Marco Lucchesi – e se o topos latino do ubi sunt? (“onde estão?”) a Villon fosse mero expediente retórico, e não real surpresa frente à irrevogabilidade do tempo (surpresa que a ele, um assassino, um proscrito, deveria ser especialmente dolorosa), não teria escrito a “Ballade des Dames du Temps Jadis”.

Enfim, quero tratar de uma “idéia fixa” que norteou muitos dos poemas de Lago Burnett. Ei-la: todas as coisas possuem uma forma perceptível, e a experiência, senão sempre, ao menos amiúde o comprova; no entanto, o movimento existe, as coisas se deslocam, envelhecem, embora permaneçam sendo o que são; ora, mas o que, aí, nos permite discernir tão claramente que aquela coisa, já não sendo inteiramente a mesma, ainda o seja no essencial? Percebam que a questão tem extenso tratamento filosófico no Ocidente, mas Burnett não dá bola para tal coisa. Porque seu interesse no assunto não é, a princípio, de raiz gnosiológica, e menos ainda ontológica: tudo é, puerilmente, uma questão de visão, de perspectiva, embora às vezes salte para além disso. E daí que ora ele se comporte como um idealista solipsista, para quem só há mundo em sua mente, e daí que ora ele se comporte como um realista antisubjetivista, para quem o mundo só possui estrutura fora de sua mente. Etc., etc.

Para colher os escritos mais representativos dessa obsessão, tomo o volume O Amor e seus Derivados por ele conter poemas de todos os livros anteriores do autor, além de alguns inéditos, traçando um arco de 30 anos de vagarosa, bissexta produção poética. “Os objetos”, de 1952, é boa introdução ao tema: Continuar a ler »

Gran Torino

Abaixo, copio crítica que fiz do filme Gran Torino, publicada, na última terça-feira (21), em O Imparcial.

Difícil redenção

Por Ronald Robson

A respeito de “Gran Torino”, último filme do diretor norte-americano Clint Eastwood, muito se tem falado em despedida a uma velha e íntegra América hoje irrecuperável, em desespero de um homem velho cujo correr em direção à morte é sinal de redenção histérica, em senso de justiça a ser lavado em sangue sacrificial e altruísta. É filme de tantas camadas de significado que, a princípio, é impossível desautorizar completamente qualquer uma dessas três ou outras razoáveis interpretações. A delicadeza maior, a nobreza de mais alta linha, no entanto, com que dota Eastwood o seu personagem Walt Kowalski, tem débito mais com a sutileza – melhor dito: a larga e delicada franja de ambigüidades – que caracteriza o modo sóbrio através do qual o filme a todo momento imbrica, desmente, ratifica ou colige todos esses significados.

E, caso me fosse logo cobrado dizer onde eu situaria a mais genuína qualidade da obra-prima, especularia que habita na crueza com que a vida do protagonista resulta, ao fim, tão bem acabada e moralmente digna quanto a nós resta inversamente fragmentada e insolúvel a compreensão do que, afinal, está se passando diante de nossos olhos. É fácil perceber em que consiste a mesquinhez do meio onde vive Walt. Difícil é distinguir lógica e formalmente, e não apenas intuir, em que consiste a coragem desse homem que resiste. Continuar a ler »

Manual do Minotauro

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A série “Manual do Minotauro”, do Laerte, pode ser lida tira por tira aqui. Uma ótima série, não neguem.

Aliás, foi em coluna do J.P. Coutinho que li o mais rude e vero depoimento acerca do afrescalhamento que hoje nos caça a todos: disse o português conhecer homens que só “não cortam o próprio pénis porque a lima das unhas não permite”. Que é evidente haver gajos que em nada tonificam  a fama da espécie, eis cousa pra nenhum palerma deixar de notar. Até depiladores do próprio tórax implicitamente estão a admitir tal fato quando dizem “calma lá, é só uma cerinha pra deixar o peito liso, nada de mais, ô”. Admitamos, porém: efeminação da ralé é certamente das últimas cretinices em sua extensa lista de infâmias. É só o caso de dizer que o anabolismo gerou o boiolismo. Que o alternativismo ficou tão alternativo que tornou-se emo. Etc. Mas a defesa do tipo bárbaro – lancemos campanha, hombres! – deveria principiar por um saneamento do tipo intelectual. A partir de hoje – leia-se: a partir do momento de publicação deste post, pois sou macho e estou mandando – todo homem com mínimas aspirações intelectuais está proibido de: Continuar a ler »

treatise

“Still / I think of poetry as it was said / of Alanbrooke’s war diary: a work done / to gain, or regain, possession of himself, / as a means of survival and, in that sense, / a mode of moral life.”

*

mesurat

“Existe algo de horrível nessa vida provinciana, onde nada muda, tudo conserva o mesmo aspecto, sejam quais forem as profundas modificações da alma humana. A angústia, o desespero e o amor passam despercebidos, e o coração bate misteriosamente até a morte, sem que tenha ousado, uma vez que seja, colher os gerânios na sexta-feira e não na segunda, ou passear pela cidade às onze horas e não às cinco da tarde.”

*

avenida-paulista

“O Natal está próximo e eu, em gesto altruísta, tenciono falar com os meus leitores. Literalmente. Podem marcar o 91 736 327. Só existe um problema: o meu telemóvel está no fundo do Tejo desde o dia 1 de janeiro de 2007. Resolução anual que cumpri nas primeiras horas da madrugada: em estado etílico razoável, parei o carro na ponte de Lisboa e bati o recorde olímpico de lançamento do bicho. Ele voou como um pássaro ferido e desapareceu nas águas. Telefonem, leitores. Talvez uma sereia vos atenda.”

Lei antifumo

Dizem, em desvario, que aquecerá o movimento em bares e similares, vez que hoje os não fumantes, amoitados qual bichos a evitarem a intempérie do vendaval radioativo, passarão a esgueirar-se garbosamente por entre estabelecimentos antes a eles inacessíveis. Mas, desgraciosamente, o exemplo da Inglaterra mostra que tal “aquecimento econômico” é mentira – pois, como em quase tudo que diz respeito à economia, os efeitos desse tipo de medida são anárquicos, imprevisíveis. Dizem que minha cachorrinha morrerá por me acompanhar copiosamente em meus fumos diários. Mas os “riscos do fumo passivo” também não passam disso: gorda mentira construída com hábil retórica totalitária, nela imiscuídos até resíduos de propaganda nazista. E, como se descer lei como quem desce lenha sobre cocurutos não bastasse, vê-se ainda fumantes do bem a cobrar, por exemplo, que outros tipos de restrições civis sejam mais rigidamente implementadas: “‘Para não prejudicar ninguém, eu concordo que não pode fumar em ambientes fechados. Mas acho que antes de pegar no pé do fumante se deveria, por exemplo, fiscalizar melhor o trânsito. Um bêbado ao volante é mais perigoso do que um fumante’, afirma” fulaninho, quase a pedir que lhe tomem seu copo de cerveja. E seria útil saber quantos empresários, publicitários e trabalhadores braçais perdem o emprego ou deixam de empregar com um aumento de 30% no preço dos cigarros, elevação essa para manter o IPI mais baixo e fazer o país – como dizer? – deslanchar. Por favor: alguém fume o Temporão e o Zé Serra.

erico-nogueira

Foi publicada, na edição de O Imparcial de ontem, a entrevista  que o poeta Érico Nogueira me concedeu via e-mail e que abaixo reproduzo. Recomendo-lhes a leitura de seu O livro de Scardanelli, volume de estréia, com uma efusão bem além – punho em riste riscando o ar – daquela que os bons modos ajuízam de bom tom. Na matéria impressa, tive de suprimir, por questões de espaço editorial, a penúltima pergunta, a qual está agora devidamente restituída a seu lugar. Perdoem-me qualquer imprecisão, vagueza ou atropelamento no texto “crítico” de apresentação – estendesse-o por mais linhas, e talvez tivesse de amputar alguma outra parte da entrevista… Depois passem lá no blog do Érico para ler o bom ensaio que Jessé de Almeida Pinto dedicou ao título em questão. Continuar a ler »

Leiam este formidável post do Martim Vasques da Cunha e entendam, entre outras coisas, por que todo e qualquer político deveria ler a Areopagitica de Milton. Falar bem, por vezes, fortalece a liberdade bem mais que o falar a verdade de maneira porca.

E concordo com tudo que o Adriano Correia escreveu sobre o post do Julio Lemos. Quero apenas, entretanto, destacar um trecho final balofamente equivocado:

Sobre ter certeza em ser cristão, vale a pergunta de Obama que circula em um vídeo do YouTube, “people, have you been reading the Bible?”. É difícil pensar em uma colagem de homens mais viciosos do que os do Antigo Testamento, vários deles apresentados como heróis, dignificados na teologia cristã. E, no fim das contas, o que nos garante que Cristo não tenha sido o filho bastardo de um soldado romano? Não, não é preciso ver o odioso Life of Brian, ou ler os odiosos Voltaire e Spinoza.

Quantos homens já não se anunciaram enviados de Deus? E o que é que garante que o discurso de Jesus Cristo não tenha sido a antecipação de um discurso do tipo Flower Power? Basta estudar o mundo judaico antigo, sob o Império Romano, para se perceber em que precariedade moral aquela gente vivia.

Tais questões procedem? Sem dúvida. O desvio é que só são procedentes quando se quer tratar de qualquer coisa, menos sobre, concretamente, Cristo, sua religião ou qualquer fato bíblico. Por que o digo? Porque especulações dessa natureza não são nada que não se possa reduzir à querela moderna provocada pela cisão entre o Cristo histórico e o Cristo da fé. Já o expliquei, anteriormente, em um post de meu antigo blog, em que leio um conto da Flannery O’Connor à luz de uma observação seminal do então Cardeal Ratzinger. As simple as that: se você aborda a veracidade de um assunto que diz respeito ao sagrado com questionamentos próprios a serem feitos à materialidade de – seja o que for – uma batedeira elétrica, suas conclusões serão inequivocamente as de quem corre o risco tanto de adorar quanto de mover guerra santa contra a existência de um eletrodoméstico.

Uma última observação: que bom que a Bíblia tem tão poucos santos.

Um nobre escotoma

Ler Nietzsche traz-me à mente uma imagem poderosa, que condensa quase tudo que penso a seu respeito: a de um pintor exímio, um verdadeiro maestro dotado de pleno domínio das técnicas de sua arte, que tomasse o pincel com o propósito de pintar um arco-íris quando, na outra mão, sustenta uma aquarela que não dispõe de outras cores senão o preto e o branco. Posso, ainda, fazer outra analogia. Sei que anteriormente me utilizei desta imagem em referência a escritor bem diverso, mas tal impressão aqui também se aplica: as obras de Nietzsche sugerem os movimentos de um bailarino habilíssimo que só dispusesse do espaço de um banheiro para executar seus passos impossíveis.

Mas, para que me entendam, exemplifico. Em “Últimas ressonâncias do cristianismo na moral”, aforismo de número 132 de Aurora, o grande escritor e moralista – porque filósofo é a mãe – observa a progressiva violência perpetrada contra a consciência individual que a democracia moderna representa, e ainda em razão do impulso natural dos “cidadãos” de buscarem sua realização pessoal em qualquer tipo de projeto que quede bem abaixo – senão claramente contra – tal aspiração. Escreve Nietzsche:

Agora parece que faz bem a todos ouvir dizer que a sociedade está em vias de adequar o indivíduo às necessidades gerais e que a felicidade e ao mesmo tempo o sacrifício do indivíduo está em sentir-se um membro útil e um instrumento do todo: mas ocorre que no presente hesita-se muito em relação a onde buscar esse todo, se num Estado existente ou a ser fundado, na nação, numa fraternidade de povos ou em novas e pequenas comunidades econômicas.

Impecável, a constatação em si. No entanto, para chegar até ela – pelo menos é o que Nietzsche quer nos fazer crer -, ele teve de primeiro perceber uma coisa cuja nebulosidade hoje nos é menor, ainda que intensa: a dissolução da religião em vaga religiosidade. No caso, o cristianismo a perder todos os dogmas elaborados através de séculos de Igreja, de modo que se adeqüe facilmente ao apaziguamento da consciência daqueles que são medrosos demais para serem ateus e sinceros de menos para serem religiosos. Vemos, aqui, o arranjo da aquarela em preto e branco:

Que o indivíduo de ações simpáticas, desinteressadas, sociais, de utilidade geral, seja visto agora como o homem moral – é talvez o efeito e a mudança mais amplos que o cristianismo produziu na Europa: embora não tenham constituído sua intenção nem sua doutrina. Mas foram o resíduo de disposições de espírito cristãs, quando gradualmente retrocedia a crença fundamental, bastante oposta, estritamente egoísta, no “uma só coisa é necessária”, na absoluta importância da eterna salvação pessoal, juntamente com os dogmas em que se baseava, e assim foi empurrada para primeiro plano a crença secundária no “amor”, no “amor ao próximo”, em sintonia com a enorme prática da misericórdia eclesiástica.

Passagens como  Marcos 12, 28-34 e Lucas 19, 25-28 dão alguma razão a Nietzsche no que diz respeito à óbvia precedência de um mandamento ao outro. Mas – ora p. – é necessário cerrar os olhos com um esforço insano para não perceber que o primeiro mandamento, necessariamente, só se concretiza através do segundo, e vice-versa. A leitura em preto e branco empreendida por Nietzsche é a de quem busca julgar  uma determinada doutrina de fora, sem se pôr sob ela para então buscar ver seu sentido. A tentativa nietzschiana de ler o plebeísmo coletivista moderno à luz de uma suposta continuidade com o que havia de “menos altivo” no cristianismo não é caso de embuste ou de equívoco: é produto de um escotoma e, enquanto tal, está aquém de discussão. Isso, no que se refere à “genealogia” do problema, problema esse perfeitamente constatado, não obstante mal situado. Porque, aliás, como pôde Nietzsche não perceber que o “altruísta moderno” é uma criatura profundamente anti-cristã? Só encontro uma explicação razoável: o germanismo arraigado, fatal, provinciano, da Alemanha crescentemente nacionalista de seu tempo, a qual mesclava puritanismo, nacionalismo e anti-intelectualismo. Mas, mesmo assim, nem só na Alemanha pisou Nietzsche…

A mescla íntima de méritos e deméritos em toda a obra de Nietzsche – que exemplifiquei acima em escala reduzida – é coisa que nem os leitores que o divinizam em atitude rasteira poperô (tipo uma Letícia Sabatella a lê-lo serelepe nas horas vagas) nem os conservadores bibelôs que  afetam ficar chocados ao simplesmente ouvir o nome do santo podem perceber. Pois Nietzsche era um aristocrata que sofria de um nobre escotoma. Capítulo didático, nesse sentido, é “O que é nobre?”, de Além do bem e do mal.

Em tais páginas, resta bem clara a aspiração central da obra do alemão, a divisa a partir da qual ele tudo aborda e diante da qual todo o resto do que postulou – vontade de poder, amor fati, genealogia de idéias – deriva: o páthos da distância. Tal “paixão” é a mais própria ao aristocrata, ao homem que tem a certeza (totalmente razoável, creio) de que toda e qualquer sociedade não se justifica pelo conjunto de seus homens, mas apenas por uns poucos altivos cuja elevação é resguardada e admirada pelos demais. Em suma, é a idéia de que o distanciamento social se deve fazer acompanhar de um sentimento de rarefação, de aceitação fatal do destino que lhe cabe e que cabe aos outros: tal nobre olha para baixo quando tem de se dirigir às gentes não por prepotência, porém porque sabe que essa é sua função.

O homem que sente a distância é, sobretudo, alguém que tem reverência por si. Dirige seu olhar para si e se regozija virilmente (sem sentimentalismo autocomplacente) com aquilo que é – e, ao achar boa a sua elevação, funda a moral dos senhores. Já o “oprimido”, ao conceber a moral nobre como o motivo de sua pequenez, e não como algo digno de ser aspirado (mesmo que com a consciência de que se trata de coisa inalcançável), funda a moral de escravos ao identificar o elevado, nobre e natural com o mau, o rico e o fácil. Seria essa a má consciência, a qual teria encontrado ampla expressão histórica com o advento do judaísmo. E há, ainda, esta observação curiosa sobre a moral dos senhores:

O que faz uma moral dos dominantes parecer mais estranha e penosa para o gosto atual, no entanto, é o rigor do seu princípio básico de que apenas frente aos iguais existem deveres; de que frente aos seres de categoria inferior, a tudo estranho-alheio, pode-se agir ao bel-prazer ou “como quiser o coração”, e em todo caso “além do bem e do mal” – : aqui pode entrar a compaixão, e coisas do gênero.

É necessário admitir que toda essa argumentação faz um grande sentido. No entanto, é “geométrica” demais, pois Nietzsche jamais teve a coragem necessária para se propor a sério uma pergunta óbvia: não será a moral dos senhores mais um adorno, uma incandescência vital do homem que não necessita da vaidade – pois sabe quem ele é – do que propriamente um vigor e rigor moral? Como pôde um moralista não investigar tal questão? Se é para restaurar o páthos da distância sobre o qual o servilismo democrático baixou sombra, por que não inquirir também em que medida um cristão, ao pôr-se diante de Cristo e olhar os próximos como seus iguais, não está se impondo um fardo cuja leveza mal se faz sentir? Se um nobre nietzscheano é tímido a ponto de ter altos deveres para com uns poucos apenas, um cristão é audaz o suficiente para fazer-se cheio de deveres para com todos. No entanto, dirá Nietzsche, um cristão é um ser cheio de compaixão – e o “carregar as dores dos outros” enegrece a vida. Aqui, mais uma vez, o escotoma: a idéia de compaixão parece conotar um peso amargo, enquanto quem de fato a sente sabe, ao contrário, quão revigorante ela é. Incrível como por vezes este duro alemão conseguia ser mais cego que os mais nauseabundos racionalistas.

“Não gosto de Shakespeare. Ele nem era anticomunista, pô”.

Falta nobreza

O Nagel põe-me na fila dos que devem estampar em seus blogs a quinta frase da página 161 do livro pelo qual correm olhos no momento. Está lá, em Declínio e queda do Império Romano, do finíssimo Gibbon:

Os generais que assumiam o título de Augusto eram, ou respeitados por suas tropas graças a sua competente conduta e severa disciplina, ou admirados por sua bravura e êxito na guerra, ou então amados por sua franqueza e generosidade.

Em uma tentativa quimérica, imbuída da mais desesperançada esperança de que a Evelyn volte a atualizar sua página, devolvo-lhe este mesmo meme que ela me passara nos idos de um outubro de 2007. Aliás, haja o Fábio Lacerda me parecido bom leitor em proporção precisamente inversa à satisfação que me causa o lento ritmo de atualizações de seu blog, peço-lhe que também compartilhe uma leitura sua.

E aproveito para anotar que poucas são as impressões que a leitura de Gibbon me causa comparáveis à de que o correr dos séculos no Ocidente representou um progressivo abaitolamento espiritual do homem. O imperador Adriano, por exemplo, era “indiferente às mudanças de estação e clima” e “caminhava a pé e de cabeça descoberta pelas neves da Caledônia e pelas planícies escaldantes do Egito”. Para ser francamente grosseiro, um herói de guerra romano era alguém que teria de espargir sangue inimigo no próprio rosto como quem se perfuma para adentrar a glória. Após  o desenvolvimento de mil e uma tecnologias “humanizadas” de guerra, eis que não temos mais que uma variedade confusa de “armas inteligentes” através das quais os soldados podem mostrar sua peculiar bravura – e inclusive fazerem-se condecorados, honrados, nacionalmente estimados – com o covarde e energúmeno apertar botões. A guerra com armas de máxima precisão, surgical weapons, é uma guerra de fracos, sob certo aspecto. E é nesse sentido que a mera aspiração de inventar algo como uma bomba atômica é coisa bem mais burra que arremessar uma sobre cabeças nipônicas.

Talvez alguns se surpreendam, mas considero Nietzsche uma das máximas autoridades em matéria de crítica dos “modernos”, dos “intelectuais”, dessa “raça de leitores de jornal”. Os confortos gerados pela continuada e moderna extinção ou atenuamento dos perigos exteriores a que está sujeita uma determinada comunidade – fatores que dissolvem o impulso para o orgânico, para a ordem, para a união – é motivo tanto do extermínio do senso comum quanto da impossibilidade de que determinados homens – homens daquele tipo “que é talvez ele próprio um temporal, caminhando prenhe de novos raios” – mandem às favas aquilo que nele haja de abjeto. Diria Nietzsche, em suma, que falta nobreza. Mas falarei disso num próximo post.

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