De minhas descobertas literárias em 2008, a obra do ensaísta Franklin de Oliveira talvez tenha sido a mais grata – e uma dúzia de motivos concorrem para tanto. Dos “externos”, talvez seja o caso de citar ser ele maranhense. Para mim, que cresci entorpecido pelo desprazer continuado e de progressão exponencial de viver em uma cidade cuja prístina história – o “prístina” é boutade que tomei de empréstimo a um desconhecido – foi aviltada pelo bumba-meu-boi de butique, pelo “artesanato quilombola”, pelo tambor-de-crioula-patrimônio-cultural, pela Jamaica Brasileira, pelos “blocos tradicionais da Madre Deus”, pela “genuinidade do músico maranhense”, pela superpromoção do Minhoca (“artista da terra”) etc., Franklin de Oliveira surgiu como um autêntico espécime daquilo que em São Luís, no século XIX, se chamava “humanista” (qualquer dia escrevo sobre os significados muito peculiares e discrepantes que o termo foi tomando durante um século nestas paragens).
Enfim, como estou com preguiça de lhes apresentar longamente o Franklin de Oliveira (só farei breves comentários), transcreverei um trecho de uma matéria – simples como todas as que tenho de escrever – que publiquei no jornal O Imparcial, do dia 09 de novembro, em que desencovo tanto a obra do Franklin quanto a de outro jornalista notável, o Lago Burnett (aliás, menos esquecido que o outro, sobretudo no Rio de Janeiro). Eis o trecho:
Residindo no Rio de Janeiro, ao pedir licença para que viesse visitar sua mãe que, aqui, em São Luís, sofrera derrame cerebral, Franklin de Oliveira (1916-2000) apenas reagiu, naturalmente, ao “não” grosso e desinteressado do diretor do jornal em que então trabalhava: “Vá à p… que o pariu, seu filho da p…!” Depois vestiu o paletó e veio visitar a mãe. Era só mais um emprego que perdia – normal. Pois Franklin de Oliveira nunca teve descanso, tanto na virtude quanto no erro. Polemista brilhante, seu marxismo, ferrenhamente empenhado em passar por cima dos mais de 100 milhões de vítimas dos regimes comunistas, era compensado por sua estatura evidente de humanista. Assim como sua não rara pouca afabilidade pessoal era compensada pela sinceridade que a acompanhava.
Germanófilo, com domínio monumental da língua e literatura alemãs, era ainda assim visto com algum despeito pelos colegas de redação do Correio da Manhã, segundo o jornalista maranhense Joaquim Campelo, que, à época, também labutava nas redações cariocas. “Diziam que seu alemão era só de sovaco”, conta Campelo, em referência aos volumes em alemão que Franklin sempre levava sob o braço. Mas, nada disso. Quando o gênio da crítica literária Otto Maria Carpeaux, seu amigo, não escrevia a coluna de literatura do Correio da Manhã da década de 60, só uma pessoa poderia fazê-lo sem que o nível descesse: Franklin de Oliveira.
“Franklin de Oliveira era um ensaísta extremamente original. O ensaio é geralmente visto como um gênero paraliterário. Mas, com ele, o ensaio foi elevado à categoria de obra literária”, afirma o historiador e crítico Jomar Moraes. Não era por causa infundada que o crítico José Guilherme Merquior – por sinal, outra grande inteligência – apontava três grandes ensaístas no ocidente: o mexicano Octávio Paz; o português Eduardo Lourenço; e este maranhense, Franklin de Oliveira.
Franklin iniciou carreira ainda em São Luís, passando, inclusive, pela redação deste O IMPARCIAL. Em 1938, foi para o Rio, onde trabalhou em A Notícia e Correio da Manhã. Assinou por doze anos a crônica cultural da revista O Cruzeiro: a famosa coluna “Sete Dias” (depois tornada livro). Publicou, entre outros títulos, “Literatura e Civilização” (1978) e “Morte da memória nacional” (1967).
Confesso que, passados uns meses de leitura de Erich Auerbach, só em Franklin fui encontrar novamente aquela capacidade – tão característica do gênio crítico – de fazer longos cortes transversais e enxergar, com limpidez, como uma idéia ou sugestão se torna um dado permanente, ou pelo menos reincidente, em determinadas tradições culturais. Não creio que eu tão cedo vá deixar de refletir sobre esta afirmação, registrada em passagem sobre Adrian Leverkühn e sua jornada em Doutor Fausto, em ensaio sobre o monumento Thomas Mann (segundo Franklin, não só um dos pontos altos da literatura ocidental, mas também nome insigne na história da correção moral):
O nazismo foi uma forma secularizada de luteranismo.
Observações de mesma natureza podem ser encontradas quando ele fala sobre a história dos conceitos de civilização no Ocidente, tomando por partida a curiosa constatação de que a idéia inexpressa de civilização nasceu séculos antes de seu conceito, o que, não sem porquê, fez proliferar aquela gama de especulações sobre o tema nos séculos XVIII e XIX como se o assunto só fosse nos preocupar quando avistássemos o fim daquilo que mal conseguimos definir (in Literatura e Civilização). É do Franklin um dos melhores ensaios que li ever, e justamente sobre um escritor a que não dou muita bola – Josué Montello. É uma aula de crítica literária que não descuida da interpretação romanesca tomando por modelo o romance histórico de Lukács, e que tampouco deixa de apontar aquelas particularidades irredutíveis de cada obra no quadro maior da Geistesgeschichte. Há percepções inacreditavelmente sutis. Por exemplo, ao dizer que, tendo Os Tambores de São Luís cerca de 400 personagens, só seria possível lidar com tantas personae tornando-as inteiramente secundárias sem que, no entanto, se façam dispensáveis, para que não fragilizem a estrutura do romance. E isso só poderia ser feito por meio da construção do que Franklin denomina “personagens circunstanciais”, que seriam tão importantes em um romance quanto em nossa vida, e cujo modelo estaria no Niels Lyhne de Jens Peter Jacobsen: você vai atravessar a avenida e não percebe que o sinal está vermelho; você certamente morrerá, mas, de súbito, um estranho o toma pelo braço, o puxa para a calçada e por milagre você continua vivo; ele prosseguirá seu caminho, você nunca mais o verá e, no entanto, lhe deve tudo: lhe deve sua vida. Isso é um personagem circunstancial. São personagens definidores de grandes momentos da literatura: é como aquele tuberculoso moribundo cujas tosses são citadas em apenas um parágrafo de A Montanha Mágica quando chega ao sanatório Hans Castorp; aquelas tosses são os primeiros indícios a sugerir a Castorp o que lhe aguarda. E todavia só são ouvidas uma única vez, e através das paredes.
Esses exemplos que dei têm suas característica brevemente resumidas por Ivan Junqueira. Eis outro trecho de minha matéria supracitada:
O poeta, tradutor e crítico literário carioca Ivan Junqueira, que esteve em São Luís na última sexta-feira para proferir palestra sobre Gonçalves Dias na Academia Maranhense de Letras (AML), foi o organizador de A dança das letras (Topbooks, 1991), antologia crítica de ensaios de Franklin de Oliveira. Abaixo, transcrevo o que Ivan Junqueira disse, em entrevista, sobre Franklin:
Franklin de Oliveira foi, acima de tudo, um crítico ligado à tradição humanística. Bastaria ler o seu monumental ensaio sobre Francisco de Assis para que se compreenda essa filiação. Como crítico, ele é herdeiro da lição dos fundadores do pensamento ocidental: os gregos, para os quais a crítica era um exame das idéias e das formas e, ao mesmo tempo, uma investigação da técnica de pensar. Para Franklin de Oliveira, como esclareço nas orelhas de A Dança das Letras, a crítica constitui uma estética da leitura, o que nos leva à conclusão de que ler é também um ato de criação, pois quem se debruça sobre um livro também o está escrevendo, embora sob perspectiva distinta de quem o escreveu. Nesse sentido, ele está mais próximo do universalismo de Otto Maria Carpeaux do que da análise das ideologias a que se dedicou José Guilherme Merquior. Em suma, eu diria que ler Franklin de Oliveira é ler e reler desde as entranhas a nossa própria história cultural, essa história que, queiram ou não, nos remete à antiguidade clássica, a Virgílio e ao advento do mundo cristão.
Tem-se de lembrar que Franklin foi também crítico musical de valor, pouco sistemático, naquele estilo que alguns chamariam “impressionista”, mas poderoso, vasto e culto em todo o repertório clássico, o que se pode aferir por seus ensaios em A Fantasia Exata (1959) e Viola D’amore (1965). A propósito – quero dizer, finalmente indo ao propósito, já que este post só pretendia justificar o nome do blog –, é em uma nota de rodapé do ensaio “Renascença Italiana” que Franklin, a partir do conceito de fantasia exata cunhado pelo escritor Leonardo da Vinci (ele adorava o escritor Leonardo), dá nota resumida de uma idéia tipicamente clássica sobre arte que acabou se degenerando em cerebralismo ou cousa que o valha – e que é quase tudo que penso sobre o que deva ser isto que chamamamos arte. Eis a nota:
Para Leonardo, o valor imanente de verdade que a arte contem não é inferior ao da ciência. Leonardo, diz Cassirer (Individuum und Kosmos in der Philosophie Renaissance, Leipzig, 1927), não admitia na arte o menor momento de arbitrariedade subjetiva. Os que o acusavam de incapacidade para permanecer na abstração, ou porque partissem de um idealismo especulativo, ou porque tomassem como norma o modelo do positivismo, esqueciam, no seu equívoco – acentua Cassirer – a expressão de Goethe, segundo a qual “existe também uma fantasia sensível exata, que tem as suas próprias leis e as suas próprias medidas imanentes. A fantasia exata do artista Leonardo está tão longe das flutuações e indecisas ondas do sentimento puramente subjetivo como das meras distinções abstratas e conceituais às quais ele se opunha tenazmente com toda a força que possuía do real intuído.” Talvez encontremos em Leonardo (1452-1519) a fonte remota da distinção que, na Biografia literária, capítulo IV, Coleridge (1772-1834) estabeleceu entre fancy e imagination. Em Leonardo talvez mais do que em Kant, Schelling – em Leonardo, ainda, através de Goethe e do idealismo alemão, criador do conceito da facultas imaginandi ou Einbildungskaft.
(Nota: Aqui, você pode comprar a ótima antologia A dança das letras. E este e todos os demais livros do Franklin podem ser achados na Estante Virtual.)
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