Dizem, em desvario, que aquecerá o movimento em bares e similares, vez que hoje os não fumantes, amoitados qual bichos a evitarem a intempérie do vendaval radioativo, passarão a esgueirar-se garbosamente por entre estabelecimentos antes a eles inacessíveis. Mas, desgraciosamente, o exemplo da Inglaterra mostra que tal “aquecimento econômico” é mentira – pois, como em quase tudo que diz respeito à economia, os efeitos desse tipo de medida são anárquicos, imprevisíveis. Dizem que minha cachorrinha morrerá por me acompanhar copiosamente em meus fumos diários. Mas os “riscos do fumo passivo” também não passam disso: gorda mentira construída com hábil retórica totalitária, nela imiscuídos até resíduos de propaganda nazista. E, como se descer lei como quem desce lenha sobre cocurutos não bastasse, vê-se ainda fumantes do bem a cobrar, por exemplo, que outros tipos de restrições civis sejam mais rigidamente implementadas: “‘Para não prejudicar ninguém, eu concordo que não pode fumar em ambientes fechados. Mas acho que antes de pegar no pé do fumante se deveria, por exemplo, fiscalizar melhor o trânsito. Um bêbado ao volante é mais perigoso do que um fumante’, afirma” fulaninho, quase a pedir que lhe tomem seu copo de cerveja. E seria útil saber quantos empresários, publicitários e trabalhadores braçais perdem o emprego ou deixam de empregar com um aumento de 30% no preço dos cigarros, elevação essa para manter o IPI mais baixo e fazer o país – como dizer? – deslanchar. Por favor: alguém fume o Temporão e o Zé Serra.
Lei antifumo
Abril 8, 2009 por ronaldrobson
Publicado em Política | Tagged Fumo | 7 Comentários
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Caro Edson,
Eu me considero um liberal, mas não consigo deixar de apoiar essa lei antifumo. O meu argumento, que tem um quê de liberal, é o seguinte: eu não sou obrigado a fumaça de cigarro alheio, e o ponto não é se a fumaça faz mais mal para o fumante ativo ou passivo, porque mesmo que fumar aumentasse a expectativa de vida de fumantes, ativos e passivos, ou trouxesse qualquer outro tipo de benefício, eu, ainda sim, não seria obrigado a fumar a fumaça dos outros. E, bom, é IMPOSSÍVEL não fumar a fumaça dos outros em lugares fechados.
Logo, essa lei, ainda que sem querer, é a defesa da liberdade dos não fumantes, certo?
Discordando cordiamente,
Abraço.
Olá, Luiz Renato.
Seu argumento não tem pé nem cabeça, pelo óbvio fato de que, se é para falar no “direito” que umas tantas pessoas – não fumantes que não querem inalar fumaça – possuem de efetivamente não inalar, também teríamos, democraticamente (pqp), de falar no “direito” que umas tantas outras pessoas – não fumantes que gostam do cheiro do fumo – teriam de inalar. Você se diz liberal – não imagino como possa discordar disso.
No entanto, minha real objeção nem é essa – o buraco é mais embaixo e está a esta altura: o Estado não deve deliberar sobre esse tipo de matéria, sendo que “deliberar” é eufemismo meu. Assim como os não fumantes teriam o direito de não inalar a fumaça do cigarro dos outros, eu também teria o direito de não ouvir o forró desgraçado que neste momento está tocando no outro lado da avenida. Eu também teria o direito de mandar o juizado de menores bater na porta de meus vizinhos cujos filhos fazem barulho na rua a tarde inteira, impedindo assim que eu tenha um sono tranqüilo.
Vamos também dar aos cristão, muçulmanos e budistas brasileiros o direito de não verem mulheres seminuas nas ruas, vez que tal coisa ofende suas religiões frontalmente e, bom, está prevista alguma pena para isso na Constituição. Sugiro ainda que criemos uma lei que criminalize o uso de automóveis movidos a combustíveis derivados do petróleo – afinal, temos o direito de não lascarmos nossos pulmões apenas porque um pessoal desfila com seus carros por aí…
Etc. etc.
No fim das contas, Luiz, acho que quem deve se entender são pessoas, cada uma tratando com a outra, a fim de saber se fumo aqui, se ali etc. Enfiar um terceiro elemento só impede que as pessoas se comuniquem e se entendam. Tira até a liberdade de nos matarmos por conta de uma fumacinha de cigarro, coisa a mim ofensiva.
Abrç.,
R.
Feliz Páscoa, Ronald!
Uma Vida Nova, se tornar uma pessoa pelo menos um pouquinho só melhor, fumante ou não, é sim possível.
Um bom momento para se pensar numa reforma íntima.
Abraços.
Ronald,
Não é que eu não concorde com você. Apenas acho que você deveria considerar com mais atenção o argumento do Luis Renato – não porque ele seja muito bom, mas porque, a julgar pelo que tenho ouvido, ele é o principal argumento dos fumantes defensores da lei. Então, sei lá, acho que ele deve (e pode) ser rebatido com mais “seriedade”.
Não é muito convincente invocar o “direito” dos não fumantes que gostam do cheiro do cigarro porque, bem, ninguém gosta do cheiro do cigarro. Ninguém. Se o governo baixasse uma lei proibindo os cidadãos de comer cocô, e você invocasse os direitos da “expressiva parcela da população que come cocô”, désolé, mas não convence. Eu sei, você só quis dar um exemplo, mas o argumento do Luis deve ser objetado com seriedade. E acho que você o faz no último parágrafo do seu comentário.
Abraço
Eu sei, você só quis dar um exemplo, mas o argumento do Luis deve ser objetado com seriedade. E acho que você o faz no último parágrafo do seu comentário.
Fabio, esta parte final de minha resposta, a que você se refere, seria até matéria de um próximo post, mas resolvi apenas deixar aqui na caixa de comentários de maneira mais breve e simples. Esse exemplo que dei, que muitos poderão considerar absurdo (embora eu não ache), é só para fazer ver que o equívoco do argumento está em patamar anterior.
E direi de forma mais direta ainda: eu não quero que ninguém transforme minhas idiossincrasias em leis.
Abração,
R.
Caro R.R.,
Você diz que Estado não deve deliberar sobre este tipo de assunto e que as pessoas deviam procurar um entendimento por si próprias de onde se deveria ou não fumar.
Bom, você, melhor do que eu, pois não sou fumante e você é, sabe que esse entendimento é IMPOSSÍVEL, que sempre que se acende um cigarro neguinho olha feio pra você, diz que faz mal, que não é obrigado a inalar a fumaça do cigarro dos outros, discursinho, etc. etc. Você também sabe que área de fumantes normalmente são banquinhos na calçada do estabelecimento. Se você mora com não-fumantes, provavelmete tem que fumar na janela ou fora de casa. Enfim, não creio em solução “amigável” para a questão, acho mais fácil a coisa acabar em discussão, até em porrada.
Quanto ao Estado, creio que ele deva, sim, dar garantia e resguardo aos direitos individuais, à chamada liberdade negativa. Numa sociedade anárquica, todos invadiriam a liberdade dos outros. O Estado deve impedir que outros, inclusive o próprio Estado e o interesse comum, violem nossos direitos. E, como eu já disse no primeiro post, não fumar, ativa ou passivamente, é um direito meu. A meu ver, a lei garante o direito de fumantes, que podem fumar em suas casas, onde mandam, e na rua e espaços abertos, onde não forçam ninguém a inalar sua fumaça, e o de não fumantes, que podem frequentar lugares fechados sem se preocupar com fumaça alheia. Talvez devessem continuar com os espaços reservados para fumantes, que já ficam, geralmente, do lado de fora dos estabelecimentos, e creio que esse ponto da lei vai ser alterado mais tarde; fora isso, soua favor da lei, ainda que eu saiba que a idéia da lei não proteger o não fumante, mas coibir o fumo, mesmo. Mas, acredite, eu estou preocupado, com o meu pulmão, não com o seu…
Abraço.
P.S.:O Estado ganha dinheiro demais com impostos sobre cigarro – o que eu não concordo – pra querer proibir
o fumo, pode ficar tranquilo .
P.S.2: de onde eu tirei “Edson”?