Abaixo, copio crítica que fiz do filme Gran Torino, publicada, na última terça-feira (21), em O Imparcial.
Difícil redenção
Por Ronald Robson
A respeito de “Gran Torino”, último filme do diretor norte-americano Clint Eastwood, muito se tem falado em despedida a uma velha e íntegra América hoje irrecuperável, em desespero de um homem velho cujo correr em direção à morte é sinal de redenção histérica, em senso de justiça a ser lavado em sangue sacrificial e altruísta. É filme de tantas camadas de significado que, a princípio, é impossível desautorizar completamente qualquer uma dessas três ou outras razoáveis interpretações. A delicadeza maior, a nobreza de mais alta linha, no entanto, com que dota Eastwood o seu personagem Walt Kowalski, tem débito mais com a sutileza – melhor dito: a larga e delicada franja de ambigüidades – que caracteriza o modo sóbrio através do qual o filme a todo momento imbrica, desmente, ratifica ou colige todos esses significados.
E, caso me fosse logo cobrado dizer onde eu situaria a mais genuína qualidade da obra-prima, especularia que habita na crueza com que a vida do protagonista resulta, ao fim, tão bem acabada e moralmente digna quanto a nós resta inversamente fragmentada e insolúvel a compreensão do que, afinal, está se passando diante de nossos olhos. É fácil perceber em que consiste a mesquinhez do meio onde vive Walt. Difícil é distinguir lógica e formalmente, e não apenas intuir, em que consiste a coragem desse homem que resiste.
Vejamos, brevemente, as linhas gerais do roteiro (os que não viram o filme certamente se decepcionarão com “spoilers”). Walt Kowalski, interpretado pelo próprio Clint Eastwood, é veterano da Guerra da Coréia (1950-1953) e ex-funcionário da Ford. Perde a esposa, vive em Detroit, não se dá bem com os filhos, detesta os netos (dos piercings até as mais brandas futilidades) e se pergunta que diabos de Estados Unidos é esse em que, para onde quer que ele olhe, só vê coreanos, italianos e negros. Sua xenofobia é típica de ex-militares durões que para cada etnia catalogam uma lista de apelidos e palavrões – é aversão cultural, não meramente racial. Último americano ainda a residir em seu bairro, mora ao lado de uma família Hmong – uma das etnias encontradas no Laos – que emigrara para os EUA fugindo dos comunistas vietnamitas que ameaçavam nações vizinhas após a partida das tropas americanas. Vivendo Walt sozinho, o objeto que merece o melhor de suas atenções é um carro Gran Torino 1972, que, certa noite, é alvo de tentativa de roubo por parte de Thao (Bee Vang), rapaz pertencente à família que lhe é vizinha. O roubo era parte de um “rito de iniciação” imposto a Thao por um primo seu, membro de gangue local.
Gradativamente, Walt se aproxima de Sue (Ahney Her), irmã de Thao e, por fim, deste último. A ele, faz as vezes de tutor, de quem o ensina a ser homem em um meio cruelmente adverso: não fosse Thao um rapaz forte, bem orientado, e se tornaria um marginal como seu primo ou, na melhor das hipóteses, apenas mais um moleque tão arrogante e burro – típico herdeiro do legado liberalóide – quanto os netos de Walt. Ou isso, ou simplesmente morreria. A história se intensifica com a briga comprada por Walt com os marginais coreanos do bairro que assediam Thao, até chegar ao ponto em que, em revanche, metralham a residência dos Hmong e ainda espancam e estupram Sue. Ao fim, Walt corta o seu gramado, compra um bom terno e vai ao barbeiro. Pela noite, dirige-se à casa onde a gangue se encontra e, ao simular sacar uma arma, enquanto inicia uma Ave Maria, toma de dentro do casaco o seu isqueiro Zippo, quando é então fuzilado. Logo após, presos em flagrante, os integrantes da gangue não poderão mais oprimir Thao e Sue – justiça fora feita. Ou não?
Como todo genuíno conservador, Eastwood assenta seu juízo de justiça sobre um senso de proporcionalidade realista, sem partir de maiores abstrações sobre os meios de consecução a um determinado fim próprio à “humanidade”. É assim em todos os seus filmes: a timidez quanto a assertivas finais sobre a heterogeneidade da vida. Algo se perde, a justiça é abolida, mas só ações imprevisíveis e altamente idiossincráticas são capazes de resgatá-la. A respeito de seu filme anterior, “A Troca”, escrevi, em crítica publicada neste O IMPARCIAL em 30 de janeiro, que a protagonista que tivera seu filho raptado “se resigna a continuar buscando algo que, até certo ponto, já nem necessitava mais ser seu filho (quando pensa estar ele morto): bastava o reconhecimento de que era necessário fazer algo para reparar o acontecido, como que a dizer que ‘nós não compactuamos com isso, nós somos diferentes disso’”.
Tal postura também é constitutiva de Walt Kowalski. Com um senão: nele, a derradeira palavra de rebelião contra o mal só acharia meio de efetivamente repercutir se nela se cruzassem a salvação – ainda que precária – de seus amigos e, simultaneamente, o seu apaziguamento em relação ao meio moribundo em que vive. Walt chutaria o cadáver da América “multiculturalista”, politicamente correta e imoral – se pudesse. Mas não pode. Sobra-lhe somente a opção por cerrar sua vida e seus pecados como verdadeiro homem, como um ser que, se abdica de si, só o faz porque uma determinada circunstância tornou tal coisa feliz e finalmente necessária.
E assim é que a nobreza de um ato – um sacrifício altruísta – pode se confundir com o momento de maior concentração do tormento de uma alma – a escolha de sair da vida pela porta dos fundos. Isso, ao fim, é o que torna a imagem de Walt tão empática, tão vigorosa: como se as duas hipérboles mestras de seu caráter (o sofrimento do pecador, a bondade esquecida) se curvassem até que, misteriosamente, chegassem a um mesmo e belo ponto – sua morte. Porque, afinal, Kowalski é homem amargurado pelos crimes de guerra que cometera, pela debacle moral dos que o cercam, pela falência de sua relação com os filhos – para nem contar em primeiro plano a ausência da mulher que perece ter amado até o fim. Covardia meter-se na frente de armas que o matariam? Ou sacrifício em sua mais perfeita conotação cristã?
Martim Vasques da Cunha, no blog da revista Dicta&Contradicta, foi talvez quem melhor comentou o filme no Brasil. Disse ele que, a despeito das interpretações que sublinhavam o sacrifício como tônica do filme (com a catarse expiatória a encobrir como conseqüência o ato sacrificial, em uma leitura realizada a partir de René Girard), o “que Walt Kowalski fez não foi um martírio ou um sacrifício. Foi nada mais nada menos do que um ato de desespero calculado”. Dados como o de que Walt estava muito doente (tossia sangue) indicam este sentido, enquanto outros (como a imagem do septuagenário morto de braços abertos, em óbvia referência a Cristo) indicam o contrário. Não poderia, ainda, concordar com Martim Vasques que, em última instância, diz ser “Gran Torino” filme sobre “a tragédia da velhice”. Mas é preciso retornar à expressão “desespero calculado”. Sobretudo, ao “calculado”. Pois foi isso que, em certa medida, quis dizer acima ao falar do encontro das duas hipérboles mestras. É necessário, por fim, apenas observar que, no caso de Walt Kowalski, quem calculou as coisas não foi somente ele próprio – o destino lhe foi paciente.
Não tenho medo de afirmar: este texto sobre Gran Torino ombreia com o de Martim Vasques da Cunha.
São, de longe _ muito longe _ o que de melhor se escreveu no Brasil sobre mais uma obra-prima de Eastwood.
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Parece-me que nunca mais os críticos cinematográficos dos “quatro grandes jornais” do Brasil escreverão textos tão penetrantes e cultos quanto as críticas de Ronald Robson e MVC.
Caro Carlos,
Seu comentário, obviamente, muito me lisonjeia. Lisonja essa, claro, às custas da pequenez de nossa imprensa – coisa infeliz.
Abração,
R.