Há quase um ano, lancei sobre um opúsculo sem brio algum do José Miguel Wisnik a crítica de que o que ali se pratica é uma subespécie da já muito reducionista abordagem sociológica dos documentos literários artísticos. Se olharmos para certa porção – ancha porção – da crítica literária praticada nas últimas décadas, perceberemos que se trata de variados graus de “sociologismo” e de formalismo, quase sempre praticados ao modo de panfletários – camuflados, refinados até – que cavalgam escritores e obras para alcançar determinadas conclusões pré-concluídas e já há algumas décadas inviabilizadas em debates de natureza mais ampla. No que se refere ao tique sociologizante, o fato é que, no entanto, desconsiderar o fundo histórico a que se verga uma obra é também ignorância – ao passo que é igualmente verdadeiro que não dedicar atenção suficiente à “obra em si” faz o crítico patinar em solo dúbio. A compreensão dos momentos históricos – dos “espíritos de época” com a ciência que lhes é própria, como a tradição alemã nos ensinou – é pré-requisito da crítica, embora não o seja da leitura tout court. Franklin de Oliveira, que me é muito prezado, é exemplo de crítico que sabe ler um livro à luz de sua gênese – o que conota dizer que domina ele a arte dificílima de imaginar verossimilmente quais as notas culturais mais representativas da formação espiritual do escritor. Seria uma via de leitura que pretende tomar as disposições de caráter de um homem concreto em uma época concreta como clave para as “concreções” que são as obras – da potência da imaginação criativa às suas atualizações nos escritos, pois.
Perceba o leitor que uma técnica crítica como esta – que, à ausência de melhor termo, eu chamaria aristotelicamente de “genética cultural” – não é refinamento da abordagem sociológica dita “ortodoxa” (para não dizer coisa pior, vez que esse tipo de crítica só se prolifera com a bibliografia marxista). Em verdade, é a absorção da leitura sociológica em um panorama mais largo e ventilado, poder-se-ia dizer quase que antropológico. Assim como a dimensão sócio-histórica é introjetada à altura que lhe cabe numa hierarquia compacta, a irredutibilidade formal da obra é também equalizada desde cima, dela se extraindo o que possa servir de pista à recuperação das experiências reais de que falam os autores em suas obras, embora o possam fazer muito veladamente. Vista dessa forma, a dualidade arquetípica – e por isso improcedente, pois obras literárias submetem-se rigorosamente a gradações de espaço, tempo e número (Os Gêneros Literários – Seus Fundamentos Metafísicos) – de sociologismo e formalismo representa tão só um acanhamento intelectual do crítico – seja por incultura, seja mesmo por lhe faltar talento para a coisa. Pois, se literatura é literatura, mas é também conjunto de obras sinceras de homens reais para homens reais, o que em última instância importará é a dimensão humana que nela se “informa”, com a sugestão que o verbo comporta de “forma que se interioriza”. Só a partir daí é que poderemos avaliar quão rica é a cobertura de certo conteúdo histórico-social perpetrada na obra e quão criativa é a técnica aí empregada. O mais será beletrismo.
Por isso, acho muito aceitável que alguém, ao ler um poema, diga: “este autor está errado“. Como assim – “errado”? Ora, estará errado tanto quanto equivocada estiver a cosmovisão que o gerou. A tão fácil observação – quase açodam os lábios por ela, parece – de que ainda assim pode ser exemplo de bom poema parece nos estrepitar rumo à pustulenta antinomia conteúdo-forma: “é bom enquanto obra artística, mas seu ‘conteúdo’ é falso”. Não bastassem os argumentos dos parágrafos precedentes, seria de proveito perguntar: “e se a obra fosse ruim, poderia o ‘conteúdo’ mesmo assim ser bom?” Certa vez, Carpeaux arrolou em artigo de jornal (“O romance e a sociologia”, de 1947, se bem recordo) algumas refutações dessa perspectiva, entre as quais tem destaque a observação de que, entre tantos romancistas empenhados em retratar a sociedade francesa oitocentista, apenas um nos deu de fato o romance da ascensão da burguesia ao primeiro plano social: Balzac. E por quê? Apenas, por ser sua obra grande, o que nos força a dizer que tem ela vida, lastro na realidade – e que é de uma obra, por mais bem documentada e teorizada social e historicamente que seja, caso se apresente desprovida do lume criador que aciona sua ordem, sua harmonia, sua beleza?
Perfiladas essas proposições, afigura-se-me evidente – espero que ao leitor também – que, no fundo, as componentes ética, pedagógica, política etc. de uma obra literária são sempre contemporâneas. Logo vemos, então, haver algo de estranho quando se fala em coisa como “estética política” ou “estética politizada” (a estetização da vida também acometeu fortemente a literatura, mas não é assunto de que cabe falar aqui). O que a expressão nos pede que dela compreendamos? Que a componente política possui nas obras de certos autores uma proeminência invulgar? Provavelmente. Mas, como expus, não seria possível falar em verdade política apartada da verdade de um romance ou poema ou o que seja. Só mesmo existe a “verdade da obra”, esse organismo vivo. A componente política todavia guarda uma singularidade, porque, nela, é necessário distinguir aquilo que é conhecimento daquilo que é chamado à ação, desde que se pondere que o primeiro elemento jamais estará totalmente isento do segundo.
De fato, fazer a crítica “correta” é tão difícil quanto realizar a obra de arte “correta”. Requer sensibilidade e talento próprio ao ofício, além de uma cultura “correta”, sim senhor.
O problema da estética política a que se refere no texto e tamanho, a começar que certas coisas só podem ser ditas com aspas, para não ferir a liberdade de pensamento alheia. ;)