Abaixo, crítica minha do filme infame. Saiu em O Imparcial, edição impressa de 22.10.
TARANTINO, UM BASTARDO
Por Ronald Robson
Quentin Tarantino é entretenimento. Não mais, embora alguns tendam a acentuar que não menos. É espécie de “Se Vira Nos Trinta” em caleidoscópio de referências cinéfilas para nerds que muito apreciam – e fazem de suas vidas exemplos disto – um dos mais malditos imperativos de nossa época, aquele segundo o qual a ironia deva preceder à afirmação. Daí chegamos à conclusão de que podemos não gostar de uma bela porcaria; porém, em paradoxo apenas aparente, é-nos imperioso idolatrar outra bela porcaria, desde que metalingüística. Podemos não gostar da televisão brasileira que nada nos diz; devemos, no entanto, adorar Tarantino, que nada nos diz mas o faz com charminho. Coisa de geração que jamais reconheceu em si o significado da palavra “apedeutismo”.
Escrevo, claro, por ocasião da exibição de “Bastardos Inglórios”, último filme de Tarantino. Resumo-lhes a trama. É 2º Guerra Mundial, a França é ocupada pelos nazistas e os americanos resolvem formar um grupo de elite – os “bastardos”, integrado só por judeus e sob o comando de Aldo Rayne (Brad Pitt) – cuja missão é trucidar o maior número possível de nazistas em terras francas, arrancando-lhes seus escalpos, arrebentando-lhes as cabeças com tacos de baseball, inscrevendo-lhes suásticas à faca nas testas. E assim por diante. De outra ponta, Shosanna Dreyfus (Laurent), judia que na infância testemunhara o assassinato de sua família a mando do coronel nazista Hans Landa (Christoph Waltz, a grande atuação do filme), é dona de um cinema, no qual é obrigada a exibir um filme de propaganda nazista. Na noite de estréia, o próprio Hitler estará presente; e aqui o grupo de Aldo, a planejar um ataque ao cinema, passa a correr paralelo a Shosanna, que incendiará a casa com o alto comando nazista dentro.
A trama não é menos rocambolesca que paródica, é evidente, o que vem a coadunar-se com o estilo parafrásico do diretor. Nas críticas dos que apreciaram o filme, o que em geral vemos deambular é aquele espírito de vislumbre envaidecido da própria capacidade de perceber “referências a estilos e movimentos” na película. Que as há, há, e um burro morreu de as perceber. Estruturado em capítulos, o filme quase que as compartimentaliza, em um episódio predominando o “western-Leone” (até com trilha sonora de Ennio Morriconi); em outro, por via da personagem Shosanna, caricaturalmente francesinha-maoísta-maio-de-68, há pesadas marcas de Truffaut; e assim segue. Tudo isso, convenhamos, é tarantinesco demais. As duas partes de “Kill Bill” (2003) são suficientes para que exijamos mais de Tarantino. E “Pulp Fiction” (1994) muito provavelmente não deixará de ser seu melhor filme justamente por ali termos personagens genuinamente engraçados, uma falta de afetação que não precisa ser afetada, uma jukebox a ser rodada responsavelmente. O preciosismo estanque de algumas de suas cenas lembram-nos a eternidade de determinadas seqüências de Pabst, de Willer.
O leitor, muito provavelmente, viu um, alguns ou mesmo todos os filmes anteriores de Tarantino. A popularidade do diretor mesmo junto ao grande público deveria nos dizer menos algo sobre o bom gosto do público, o bom gosto do diretor; e mais, porém, sobre o que desgraçadamente hoje molda o “bom gosto” de ambos. O filme que precedeu “Bastardos Inglórios”, “Deathproof” (2007), podemos dizer que foi bem melhor sucedido nesta seara que eu não hesitaria chamar de “irrelevantinesca”, qualificativo que poderia fazer sombra ao tal “tarantinesco”. Nele, há boas cenas; há, ali, verdadeiros e bons vídeo-clipes. Mas também não vai além disso. Jamais encontrei sequer um crítico, amigo, inimigo ou desconhecido capaz de dizer-me sobre que é, afinal, tal ou qual filme de Tarantino. Geralmente, a resposta é um risinho de canto de boca, com mil e uma indignadas altercações cujo sentido é: “Você está vendo o filme da maneira errada. Não é para procurar uma ‘história’ ali. Isso é ‘cinema’, você tem que ver e apreciar as imagens”. Mas tenho algo a dizer sobre esse “cinema de apreciação de imagens”.
Há poucos dias, um homem foi encontrado morto dentro de um carrinho de supermercado em um morro do Rio de Janeiro. Quem conferir as imagens, perceberá que lá havia muitos jovens a se divertir com a cena, tirando fotos, rindo, com olhos túrgidos de uma nem um pouco contida curiosidade diabólica. Recordo caso parecido porém pior, o de jovens transeuntes a debochar do cadáver de um homem decapitado a golpe de espada por traficantes, sua cabeça estando sobre o capô do carro; e a imagem é de não mais que há 3 anos, e também lhe serviu de fundo o Rio de Janeiro.
Quero com isso dizer que o fascínio pela destruição, pela baixeza e pela negação de qualquer sentido nas telas de cinema, na literatura, nas artes plásticas e na música não torna os artistas menos abjetos que aqueles jovens cariocas. A divisa de nossos avós, “jamais perder a honra”, foi substituído por um bastardo “jamais perder a elegância”. E, bem, até na barbárie há quem veja glamour. Leiam “A Sagração da Primavera” (Rocco, 1991), do colossal historiador canadense Modris Eksteins. O próprio mote que serve de ignição ao livro é eloqüente: um ano antes de milhões de jovens (entre eles, artistas) irem lutar na 1º Guerra Mundial, na França era montada a famosa peça de Stravisnky, “A Sagração da Primavera”, com balé de Nijinsky e produção de Diaghliev; era a completa desordem no palco, o caos, a mera vontade chocar, uma trama satânica em que, para que a primavera renascesse, uma donzela deveria ser imolada.
O que Eksteins nos mostra é que na cumplicidade entre futuristas e fascistas não havia nenhum acaso; que os poetas que queriam destruir a literatura foram os mesmo que abateram inimigos nos fronts da 1º Guerra. A estetização da violência na arte corria paralela à estetização da violência na vida; e a publicação do best-seller “Nada de novo no fronte”, de Remarque, representou uma alteração de consciência dos homens frente à guerra, nela os empenhando. Isso, no entanto, não é coisa passada. A cada filme de Tarantino, a cada aquiescência dos que o elevam ao Olimpo do cinema, abrimos precedente para – quem sabe? – o futuro sacrifício de alguns milhões de donzelas, assim como fizemos há menos de um século.
Parabéns pelo texto. Pontual como hei de ser.
Sobre o último exemplo com referência ao livro de Eksteins e ao balé de Stravisnky, não sei se é simples chamar o evento de “mera necessidade de chocar”. O enredo da peça não é simplesmente “oh, diabólico e caótico”, nem a música. O que há é o retrato de um sacrifício bem registrado em culturas não necessariamente antigas em nome do surgimento da primavera – ou seja, nada de novo nem de subversivo no sentido histórico mesmo. E quanto à música, ela mais sobrepõe a tradição do que a renega, pois não é música atonal, é, em vários momentos, politonal.
Agora, sobre a presença da violência na arte, em nome da coerência do que você diz, está tudo ok. Era mais essa observação de que a Sagração da Primavera, ainda que uma obra inovadora e cheia de anedotas de reações inflamadas, não me parece um “vamos explodir tudo” que os futuristas pregavam.