Pequena biografia de um medo

[Este texto não é uma “autobiografia interior”; ou melhor, só o é de um único aspecto de minha formação, cujo valor, objetivo, poderá interessar a alguém mais que não apenas eu. Afinal, só nisso reside o sentido de divulgar o texto, ao qual dei expressão pueril de forma deliberada.]

Sempre tive medo do Diabo. Só muito recentemente, o que é pena, cheguei a compreender por que a realidade de Satanás, o “príncipe deste mundo”, é tão inescapável quanto a do Pai, Filho e Espírito Santo. A recordação mais antiga que tenho de interesse por um livro leva-me a uma gaveta, na qual envelhecia uma daquelas edições populares, pequenas e de capa azul, do Novo Testamento, seguido ou precedido – não recordo – dos Salmos e Provérbios. Lia algum versículo, não entendia; mas a coisa toda tinha uma gravidade aprazível, semelhante ao medo de, sozinho em casa (o que acontecia com freqüência), dar de cara com o Maldito. As duas coisas – aquele prazer, este medo – se uniam, embora eu não soubesse como. Também lembro que, criança, tomei dum opúsculo de minha mãe sobre Nossa Senhora de Fátima; só, aprendi a rezar o terço, e assim não iria para o inferno, segundo pensava. Já era alguma coisa.

Ao longo da adolescência, à medida em que arcava com novas responsabilidades, a impressão de que algo a meu redor pudesse ter parte com o Mal punha-me em suspeita imediata perante todo o quadro de minha conduta. Eu chorava como um bezerro, penitenciava-me em pensamento, depois corria ao video-game e deixava a sensação evadir-se. O problema é que, não muito depois, eu quase renegaria meu batismo; começara a me interessar por uma estrovenga chamada “filosofia”; lera O lobo da estepe e decidira que, um dia, eu também ponderaria friamente, face a um espelho, enquanto fizesse a barba, a possível sensatez do suicídio; decorara alguns versos de Rimbaud (Elle est retrouvée. / Quoi? – L’eternité. / C’est la mer allée / Avec le soleil) e me determinara a buscar minha própria Abissínia. Em uma palavra: as questões realmente fundamentais, eu mas obscurecera; guardava-as ainda, sem freqüentá-las, pois conotavam medo.

Houve um dia-chave. Foi quando vi uma foto de Michel Foucault de olhos cerrados; sentado e de pernas cruzadas, tinha um ar introspectivo de quem faz ióga e ama a “cultura oriental”. O texto que ilustrava dizia datar a imagem da fase final da vida do francês, quando ele dera apoio (inclusive escrevendo artigos entusiásticos) à revolução islâmica no Irã. “Que p. é essa: o cara que escreveu Vigiar e Punir foi puxar saco do Khomeini? Como pode?”, pensei então. Isso, há uns cinco anos. Não demorei a concluir que ele estava pouco se importando se o “biopoder” crescia ou não; o que ele detestava era o que via equivocadamente como sustentáculos dessa domesticação dos “corpos dóceis”: para não ter de citar em ordem alfabética dúzias de nomes, contento-me em dizer “católicos”. Desde então vim a flagrar vexames similares em outros autores. Eu percebera que, a despeito da impossibilidade de um indivíduo conhecer inteiramente a si ou a outrem, é possível conheçamos uma pessoa sob aspectos que lhes são insuspeitos; eu, que detestava psicologia moderna, verificara a validade desse seu pressuposto de facto.

Eu havia chegado – prossigo – à suspeita de que os “filósofos” poderiam não saber muito bem do que estavam falando. Sobretudo, de que eles poderiam não dar a mínima para isso. Havia um autocentramento doentio nos autores que lia à época: “crio minhas regras, jogo meu jogo; mudo minhas regras, jogo outro jogo; pois o importante é que eu continue jogando para minha platéia”. Entrei na universidade e descobri, com celeridade, o estigma que logo me propiciaria o distanciamento desse desinteresse satânico: a chatice no modo como o indivíduo expõe “seu pensamento”. (Esta gente deve ser imune a problemas reais; logo, querem se livrar dos inconvenientes mais comezinhos, solicitando ao governo que pague as contas de todos os brasileiros com mais uma bolsa sei-lá-o-quê.) Depois eu descobriria que, até teologicamente, o oposto do amor pode não ser o ódio; sim, a acídia: aquela moleza de espírito, sôfrega, que nos impede atinarmos para algo que não diga respeito a nós mesmos. A compreensão profunda deste fato é de importância primeira aos estudos e esforços pessoais que movo em filosofia, certamente orientado, pelas vias mais insuspeitas, pelo Seminário de Filosofia.

O problema – permitam-me uma simplificação brutal – ficara assim, mais ou menos: Cristo nos liberta de nós mesmos tornando-nos mais pessoais, Satanás nos aprisiona em nossa mente tornando-nos menos pessoais. Pareceu-me de grande obviedade que, arquetipicamente, o ser humano pode lançar seu olhar sobre o cosmos a partir de duas perspectivas: a satânica, que não quer ver senão o particular, a coisa tal como está em seu hic et nunc; e a divina, que distingue o parcial no total, que dá a razão do particular na abrangência do geral. Nos detalhes vamos encontrar mais o diabo que Deus, constatação essa que pode servir de premissa a uma demonologia do conhecimento (A história do diabo, de Vilém Flusser, é documento útil a esse estudo).

Vejam que, quanto a essas últimas observações, refiro-me aos autores (acadêmicos ou não) mais sérios. Um Kant, por exemplo. São condutas incompatíveis com a preocupação que Platão lembra como própria do filósofo, aquela quanto ao “diálogo que a alma mantém consigo mesma acerca do que ela examina”. Logo vi que alguns não iam além do “diálogo que a alma mantém consigo mesma”. Que outros disso se esqueciam e viviam num eterno esmiuçar “do que ela analisa”. Que outros, ainda, esqueciam-se tanto duma coisa quanto doutra e investiam pesado – PhDs, livros, anos de leituras – na compreensão do sentido “sintático-ontológico” da locução adverbial “acerca de”. Isto tudo, num primeiro momento, apenas me trouxe enfado; seguiu-se, não obstante, o medo: a mentira – triunfo do Demônio – agora poderia ser justificada com um sistema, o qual pode dar a mim e a vós muita fama e dinheiro, autorizando as promessas de Satanás em Mt 4,9.

Um dia, vi a imagem de aonde esse satanismo me levaria. Perguntei a um professor, entusiasta de Deleuze, se ele lera pelo menos o Imposturas Intelectuais, que é crítica soft-core, uma coisa entre amigos. Ele me fez o seguinte relato. “Um dia, um amigo, que estava num aeroporto, me ligou e disse: ‘Cara, acabei de descobrir um livro muito doido, que esculhamba esses franceses pós-modernos. Um tal de Sokal, o autor, mostra que eles não sabem de nada do que estão falando, que eles pegam uns conceitos, tipo assim, da física, e usam com um sentido deturpado na filosofia’. Aí, bicho, respondi pra ele: ‘Rapaz, é por isso mesmo que eu gosto’”. Ele disse isso e em seguida começou a rir. Era noite, chovia ao mesmo tempo que fazia calor, e fiquei incomodado com a imagem do mestre formado na USP que caminhava ao meu lado. O medo tomara uma forma assustadoramente palpável: eu não queria ser como aquele homem.

Anos depois, eu daria com um dos motivos de minha inadequação com essas posturas. Numa página brilhante, Eugen Rosenstock-Huessy localiza donde irrompe a fenda que nos tolda, a nós modernos, a compreensão da cultura antiga: o fato de não mais termos medo do Demônio. As modernas teorias da linguagem só poderiam, quando muito, ter alguma utilidade ao trabalho documental: história interna das línguas, reconstituição de textos perdidos, descrições normativas e quejandos. Quanto à compreensão da “força da nomeação original” (Mário Faustino), dela nada poderiam dizer, porque lingüistas não têm medo do Pai da Mentira, e toda luta do homem com a fala visa a derrotar o falso juízo. Afinal, o problema da gênese da linguagem não difere do problema da luta pela sinceridade; daí que teoria da linguagem e esforço pela verdade sejam inseparáveis; é, enfim, o que une e torna compreensíveis os diálogos Teeteto e Crátilo. Se o escopo do homem fosse apenas dizer mentiras, jamais teria começado a falar.

Ou seja: é necessário endereçar a palavra à eternidade, como um santo, como um poeta. Daí todo meu respeito pela boa literatura, pela força da prece, pelo trato de ourives para com os modos de expressão. Daí minha fé: a Palavra que liberta é a que instaura a Salvação. Daí, claro, toda a minha aversão ao grosso das filosofias modernas, cuja maldade mais aparente repousa num feitiço verbal e venal, numa glamurização do inespecífico, do dúbio, da língua bifurcada. Distingue-as, aquelas filosofias, um pacto diabólico entre a ausência de compromisso com a verdade em um sentido não meramente formal e uma indiferença blasfema para com os problemas mais imediatos do comum dos homens (pergunte a Spinoza o que fazer quando sua mãe morrer). Inúmeras vezes Satanás falou através da boca de possessos que objetiva tal pacto. Deus, não obstante, já o julgou. Nós é que ainda aguardamos o Julgamento, e é com ele que estou preocupado.

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5 thoughts on “Pequena biografia de um medo

  1. Cara, muito bom. Concordo com o artigo. Desde que comecei a estudar filosofia, tomei, quase que repentinamente, a consciência de que devemos direcionar a palavra para a eternidade. Passei a analisar biografias e atinei que é agora, que o que fazemos desde que nascemos está pronto para se eternizar, basta fazermos jus. E é exatamente esse “jus” que foi deturpado. Não se trata de abordar, ou tentar abordar, a verdade, e sim o inverso: quanto mais você caçoar, difamar e desprezar a verdade, mais barulho fará e mais exemplares venderá.
    É triste – para acompanhar o sentimento do artigo – saber que a grande maioria mundial e histórica não sabe ou soube disso. Trata-se de importância vital e extravital. Mas é reanimador ver mais e mais pessoas com essa consciência, apesar da proporção, a meu ver, ainda estar diminuindo.

  2. “(…) semelhante ao medo de, sozinho em casa (o que acontecia com freqüência), dar de cara com o Maldito”.

    Essa frase me assustou por um momento. :D

    Do seu texto, me chama a atenção como é depois de uma reflexão como a sua que a imagem de Satanás como o cultivador dos sentidos pessoais e Deus como o repressor da individualidade e chefe de rebanhos muda, e muda para o oposto. Assim a revira-volta do seu texto é quando você diz: “Cristo nos liberta de nós mesmos tornando-nos mais pessoais, Satanás nos aprisiona em nossa mente tornando-nos menos pessoais”.

  3. “Cristo nos liberta de nós mesmos tornando-nos mais pessoais, Satanás nos aprisiona em nossa mente tornando-nos menos pessoais”.
    Chesterton fala, no Ortodoxia, desse equilíbrio do Cristianismo.
    Não tenho agora o livro para transcrever o trecho, mas ele diz – mais ou menos – que o cristianismo, em relação ao mundo, não guarda nem a indiferença das religiões orientais nem o o culto embriagado dos mundanos.

  4. Achei o recho de Chesterton a que aludi acima:

    ” Num dado momento ela [a Igreja] abandonou o enorme vulto do arianismo, apoiado por todos os poderes deste mundo para fazer o cristianismo mundano demais. No instante seguinte ela estava se curvando para evitar o orientalismo, que o teria espiritualizado demais.”

  5. Pingback: Vida social no paraíso « A Fantasia Exata

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