Ok, certas coisas cansam — e tanto mais quando tão necessárias quanto tardias.
Falo do debate que a Dicta & Contradicta (1,2,3) anda a promover sobre aquele livro do Sr. Schwarz que todos conhecem. Nenhum dos textos lá postados consegui ler de cabo a rabo: não pelo maior ou menor nível de acerto em suas análises, não pelo que considerei conversa fiada, mas precisamente em razão da faixa inevitável de acerto de que todos partilham. Quando se demora duas décadas para pôr abaixo um totem já nascido manco, os demolidores estão fadados a parecer guris, que, impunes, ensandecidos, esmagam formigas com chupetas.
“Olha lá o Ronald, afetado como sempre, querendo pairar acima dos debates da ralé…”
Faço apenas duas observações inevitáveis.
1. Este debate já houve, e houve mais ou menos dentro de universidades; o problema é que ambos os lados eram, não raro, muito mal — vamos dizer logo: vergonhosamente mal preparados. Com “ambos os lados” penso em dois tipos de crítica que, sintomaticamente, fecharam-se em torno de dois tipos diferentes de “objeto”: formalistas a estudar poesia, historicistas a estudar prosa. Exemplos os há às pencas, pelo que deixo apenas dois nomes recentes: Cláudio Daniel seria um; José Miguel Wisnik, outro (mexam os pauzinhos para ver que lado cada parte toma). Mas ô Juvenal: e a modinha de discussões em torno a Marjorie Perloff há coisa duns dez anos? Pois é: o “academicamente correto” é só a cereja do bolo de um entrevero aborrecido entre “formalistas” e “historicistas”; que ambos estejam errados e inobstante se apresentem vitoriosos à sua maneira é detalhe publicitário. Lembrar que em jornais poderíamos há seis décadas dar de cara com um pau de doido — utiliza-se tal expressão fora do Maranhão? — entre Anatol Rosenfeld e Vilém Flusser é um exercício de humildade histórica e orgulho intelectual que dá idéia, afinal, de por que surge aborrecido o presente debate.
2. Continuo a achar que dizer a Satanás que ele é satânico não o tornará um santo — nem a ele nem a ti. Não se salva a crítica literária do Brasil escrevendo respostas ao Sr. Schwarz, embora isso já seja alguma coisa, claro; mas, bem, não se sai disso. Vamos deixar, de uma vez por todas, sagrado e inamovível este ponto deste i: sabemos que o Brasil chegou ao fundo do poço etc. Eu sei, tu sabes. Propalar isso aos quatro ventos não te torna sequer uma pessoa inteligente; talvez te sirva, no máximo, de teste de miopia ou medida autopromocional. Uma dúzia de gente boa já desmoralizou umas cinco dúzias de gente muito ruim — amen. Mas, e agora, rapaziada? A distância entre quem diz O tempora o mores e quem é capaz de ter certeza de que Exegi monumentum aere perennius é quase a mesma que vai entre o amor do marido traído das canções de Reginaldo Rossi e o amor de Tristão por Isolda em Wagner. São continentes inteiros de experiência e cultura, p.! Exorto os interessados a escreverem grandes obras de crítica literária. Isso é o necessário. Deixemos ao Sr. Schwartz suas batatas; queiramos o Machado daquele livrinho do Augusto Meyer, ou: façamos algo melhor! Se não, se não — bem, amigos, ou isso ou nada.
Luiz
Maio 6, 2011
Aqui em casa – moro no RJ – usamos a expressão “pau de dar em doido”, contudo importamo-la do Maranhão.
Demais a mais, tens toda a razão: pouco importa enfurecer-se, brandir contra a moral do tempo e blazonar virtude, pois que o que vale é a obra. A tentação dalguns que se jactam de pairar sobre a mediocridade presente é justamente a de conferir aos protestos as virtudes em ato duma possível obra futura que, no mais das vezes, nunca há de vir.
Conheço um sujeito que foi assim, mas está se esforçando para mudar.
ronaldrobson
Maio 8, 2011
Luiz,
Conheço várias pessoas que foram ou são assim, e o cômputo do primeiro grupo começo por mim mesmo. É de fato “tentação” que achaca a todos.
José Lorêdo de Souza Filho
Maio 7, 2011
Boa, prof. Ronald!
Só queria dizer, relativamente ao “livrinho” do Augusto Meyer sobre Machado, que ele estava esgotado havia quase 40 anos, fato para o qual chamou a atenção o embaixador Alberto da Costa e Silva no prefácio da nova edição (de 2008).
Duas ou três gerações de leitores, portanto, não tiveram acesso às lições do grande crítico, que foi o que mais brilhantemente estudou o nosso maior escritor…
Não tem país que aguente…
ronaldrobson
Maio 8, 2011
Lorêdo,
Bem lembrado o fato de que o livro passou mais de 30 anos esgotado. Só na estante “machadiana”, aliás, há muita coisa urgente a ser reposta em circulação. A última edição do estudo clássico de Lúcia Miguel Pereira é de 1988, a qual creio já seja possível encontrar só em sebos.
Nagel
Maio 7, 2011
Por falar no Meyer, eu procuro pelo livro dele sobre Camões há um tempo, e em vão.
ronaldrobson
Maio 8, 2011
Nagel, qual seria esse livro? Camões o Bruxo e outros estudos?
Ou seria algum estudo monográfico como o que ele escreveu sobre Le bateau ivre? Sei que existe uma edição rara da Globo dele só falando de No caminho de Swann. O velho Meyer escreveu demais, e às vezes demais sobre um único romance ou poema.
João Filho
Maio 8, 2011
Voltaste a postar! Tu e Luiz estão corretíssimos, uns poucos mataram a cobra e mostraram o pau, agora é mãos à obra: literária (poesia, prosa etc), crítica e afins. Pau de dar em doido há no interior da Bahia tbm.
ronaldrobson
Maio 8, 2011
João,
Continuarei postanto muito esporadicamente; é a coisa prudente a se fazer.
Vejo que pau de dar em doido e variantes cruzou o Brasil. É uma boa expressão, uso-a sempre.