Derrubando totens pernetas

Publicado emMaio 6, 2011

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Ok, certas coisas cansam — e tanto mais quando tão necessárias quanto tardias.

Falo do debate que a Dicta & Contradicta (1,2,3) anda a promover sobre aquele livro do Sr. Schwarz que todos conhecem. Nenhum dos textos lá postados consegui ler de cabo a rabo: não pelo maior ou menor nível de acerto em suas análises, não pelo que considerei conversa fiada, mas precisamente em razão da faixa inevitável de acerto de que todos partilham. Quando se demora duas décadas para pôr abaixo um totem já nascido manco, os demolidores estão fadados a parecer guris, que, impunes, ensandecidos, esmagam formigas com chupetas.

“Olha lá o Ronald, afetado como sempre, querendo pairar acima dos debates da ralé…”

Faço apenas duas observações inevitáveis.

1. Este debate já houve, e houve mais ou menos dentro de universidades; o problema é que ambos os lados eram, não raro, muito mal — vamos dizer logo: vergonhosamente mal preparados. Com “ambos os lados” penso em dois tipos de crítica que, sintomaticamente, fecharam-se em torno de dois tipos diferentes de “objeto”: formalistas a estudar poesia, historicistas a estudar prosa. Exemplos os há às pencas, pelo que deixo apenas dois nomes recentes: Cláudio Daniel seria um; José Miguel Wisnik, outro (mexam os pauzinhos para ver que lado cada parte toma). Mas ô Juvenal: e a modinha de discussões em torno a Marjorie Perloff há coisa duns dez anos? Pois é: o “academicamente correto” é só a cereja do bolo de um entrevero aborrecido entre “formalistas” e “historicistas”; que ambos estejam errados e inobstante se apresentem vitoriosos à sua maneira é detalhe publicitário. Lembrar que em jornais poderíamos há seis décadas dar de cara com um pau de doido — utiliza-se tal expressão fora do Maranhão? — entre Anatol Rosenfeld e Vilém Flusser é um exercício de humildade histórica e orgulho intelectual que dá idéia, afinal, de por que surge aborrecido o presente debate.

2. Continuo a achar que dizer a Satanás que ele é satânico não o tornará um santo — nem a ele nem a ti. Não se salva a crítica literária do Brasil escrevendo respostas ao Sr. Schwarz, embora isso já seja alguma coisa, claro; mas, bem, não se sai disso. Vamos deixar, de uma vez por todas, sagrado e inamovível este ponto deste i: sabemos que o Brasil chegou ao fundo do poço etc. Eu sei, tu sabes. Propalar isso aos quatro ventos não te torna sequer uma pessoa inteligente; talvez te sirva, no máximo, de teste de miopia ou medida autopromocional. Uma dúzia de gente boa já desmoralizou umas cinco dúzias de gente muito ruim — amen. Mas, e agora, rapaziada? A distância entre quem diz O tempora o mores e quem é capaz de ter certeza de que Exegi monumentum aere perennius é quase a mesma que vai entre o amor do marido traído das canções de Reginaldo Rossi e o amor de Tristão por Isolda em Wagner. São continentes inteiros de experiência e cultura, p.! Exorto os interessados a escreverem grandes obras de crítica literária. Isso é o necessário. Deixemos ao Sr. Schwartz suas batatas; queiramos o Machado daquele livrinho do Augusto Meyer, ou: façamos algo melhor! Se não, se não — bem, amigos, ou isso ou nada.

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