Pitomba!, Resistência Cultural e que fazer de São Luís

Publicado emSetembro 18, 2011

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1. Meu amigo José Lorêdo de Souza Filho, proprietário da Livraria Resistência Cultural, escreveu um texto em protesto aos quadrinhos Cuidado! Jesus vai voltar!, publicados no segundo número da revista Pitomba!, editada por Bruno Azevêdo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha em São Luís (MA). É certo que haja blasfêmia ali, à qual o livreiro e editor, católico que é, sentiu-se na obrigação de repudiar publicamente, pelo que até se mostrou indignado com os “conservadores” maranhenses – amigos seus – que não se prontificaram em mesmo sentido (seriam covardes, em suma). Antes de mais, tenho a impressão de que Lorêdo mal pegou o sentido dos quadrinhos, bem como tenho a certeza de que mesmo gente que gostou compreendeu pouco, a julgar pelos comentários de ambos. Respondi-lhe que achava louvável sua postura, mas acrescentei que surgia desproporcional: o leitor mesmo sabe que se ligar a TV neste instante talvez encontre blasfêmia bem pior. Além do que, a revista é literária, em sentido amplo, e o quadrinho entrava ali como elemento entre outros. Em suma, há coisas bem mais importantes em que se bater do que numa revista com tiragem de 500 exemplares e jeitão de fanzine – e não desmereço os editores pelo formato da publicação, claro, mas por outros motivos, que em parte seguem na segunda seção deste post.

Digo “coisas bem mais importantes em que se bater” por necessidade intrínseca às condições em que hoje se é obrigado a fazer a guerra cultural. Há mais de dois anos, escrevi esta nota sobre a necessidade de frenarmos nosso “instinto quixotesco”: é preciso estudar muito, fazer o mapa da ignorância e ir ao ataque, com a carga toda, na hora certa, contra o que houver de mais fundamental a nossos problemas presentes. Em não sendo assim, no prazo máximo de três dias o cara que buscar responder a toda e qualquer estrovenga que lhe chegue estará inteiramente louco, um farrapo mental a praguejar alucinado para todos os lados. Não é que isso seja pouco recomendável. É sobretudo ineficiente. E todos os grandes combatentes das últimas décadas – William F. Buckley Jr., Peter Kreeft, Roger Scruton, Olavo de Carvalho e tantos outros – aprenderam a lição, e dela fizeram missão cumprida. Pois é necessário falar ao dono dos porcos: se a voz tiver autoridade suficiente, eles se atiram no abismo.

Do Jornal de Timon, de João Francisco Lisboa, a Problemas Inculturais Brasileiros, de Osman Lins, toda a nossa grande crítica (“cultural”, em sentido lato) foi feita nessas bases – para não citar O Imbecil Coletivo, que todos conhecem. Se um idiota leva cinco minutos para escrever uma porcaria extremamente nociva, é muito provável que tenhamos de estudar cinco anos para dar uma resposta não pontual (ainda que as pontuais sejam necessárias, como a de Lorêdo), mas abrangente e forte o suficiente para que o emissor da bobagem se veja impossibilitado de esconder de si mesmo a verdade: “É mesmo. Sou um idiota e falei besteira. Vou pra casa estudar.” É um sintoma de nossos tempos: qualquer medida enérgica no campo intelectual tem de preliminarmente ser estratégica. No que diz respeito à defesa de Cristo e sua Igreja Católica, então, o panorama é mais delicado ainda.

2. Quem folhear a Pitomba! verá que a informa o queixume de sempre, que vai bater em 22: “ninguém faz nada, tudo aqui é provinciano, só tem poeta que bate ponto em fórum, é preciso criar, vamos nos mexer”, e assim se escreve um manifesto, reúne-se um pessoal e vocês sabem o resto. É uma revista tão ruim quanto qualquer outra revista literária ruim feita em outro estado (mas esta edição, pelo que li, tem um poema interessante, mas só interessante, de Tazio Zambi, que não conheço). Não foge ao que de pior se faz em literatura hoje no Brasil, com epicentro em São Paulo, e sobre o que já escrevi alguns textos em blog, revista e jornal, de modo que me pouparei de estender o assunto aqui (até porque o problema já começa a mudar de clave, conforme Xoxó explica neste texto antológico, do qual não deixo de discordar em detalhes).

Mas bom: nunca li um estudo sério – na verdade, sequer conheço um ruim – que compare o nosso “modernismo” com o encetado em outros países, máxime na Inglaterra (e vem a propósito a edição bilíngüe de Lustra, do Ezra Pound, lançada há pouco). A verdade é que a mesma confusão entre liberdade e inabilidade e entre criação e negação de Oswald & cia. permanece paradigma involuntário de grande parte de quem se mete hoje a escrever (e que por isso não vai estudar Dante Milano, nem Octávio Mora, nem Gerardo Mello Mourão, nem o Drummond de Claro Enigma etc.). O modernismo inglês descreveu uma parábola perfeita, hoje ainda tensa e criativa, que veio de W. B. Yeats até Geoffrey Hill, passando por um Pound, por um Auden. Foi a linha central daquela literatura. Já o nosso bom modernismo tornou-se nossa linha marginal, como o demonstram publicações como Pitomba!. O cosmopolitismo post-modern, aí, entra como maquilagem final. Curioso é que há neste número da revista um texto (Que arte?) do poeta Celso Borges sobre o desvario inculto e glamurizado da arte contemporânea, na qual se chega a gastar milhões numa besteira destinada a meia dúzia de bocós (“Melhor urinar no urinol de Duchamp e de quebra quebrar a cabeça de touro de Picasso. Não há quem aguente Duchamp com champignon”), sem perceber que a revista em que escreve tem algo do mesmo espírito que ataca.

Mas como tudo numa revista literária pode ser tão ruim? Deixo aqui uma nota, que pode ser desdobrada em estudo mais amplo, sobre uma característica da literatura feita no Brasil nos últimos anos e em qualquer outra época ingrata. Grosso modo, o esteticamente ruim é muito mais universal que o esteticamente bom. Entre dois romances muito ruins há uma convergência sutil, ao passo que entre dois romances muito bons pode haver uma distância fascinante. As inspirações mais remotas que tenho a respeito são um ensaio de Ortega y Gasset e a famosa frase – porém invertida – que abre Anna Karenina (“Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira”). Uma característica universal da arte ruim, pois, é a idealidade menos a realidade. É própria dos ciclos culturais decadentes que Sorokin, em A crise do nosso tempo, chama “idealísticos”. É quando a fantasia deixa de ser exata, é quando a imaginação pretende quedar aquém do conhecimento, é quando, em suma, o eixo da formalidade criativa se desloca do eixo da objetividade apreendida. O formal apartado da base que o justifica é, assim, a arena do imponderável, por ser o reino obtuso da indiferença (“gosto não se discute”), no qual até mesmo afirmar que algo seja ruim torna-se inviável – a hierarquia de valores foi implodida. Assim, conscientemente ou não, é que se publica uma Pitomba!. Assim, com disposição ofensiva ou não, é que não se vê problema em achincalhar o nome de Deus, como nos quadrinhos em pauta, assinados por Rafael Rosa.

3. O que, então, fazer de São Luís? Que fazer, afinal, em São Luís? Eu já cansei de dizer – e os leitores bem mais inteligentes que eu, principalmente os de outra cidade, vão desculpar a platitude provinciana – que se deve fazer em São Luís, no nordeste, no Brasil o que se deve fazer em qualquer lugar do mundo: estudar muito e orar com o coração na mão; honrar, enfim, a velha imagem das Escrituras, da Pena e da Espada. Com toda evidência, livros, revistas e o mais hão de vir naturalmente. Há muita gente sonhando em ser transgressor, sem suspeitar que, para tanto, é preciso primeiro saber o que transgredir (e isso já faz um tempo).

Passados quase três milênios após Homero, criar é coisa difícil pra c.

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