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Arquivos para a Categoria ‘Devaneio’

O último enigma que possivelmente iremos experimentar é a constatação de que o mundo, com toda sua secreta geometria, revelou-se-nos afinal por inteiro, em pleno poente da verdade, e todavia, sem compreendermos  bem por que, o rechaçamos feito fosse ele companhia maçante mas benquista – daquele tipo que muito nos agrada, desde que fique calada [...]

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Um nobre escotoma

Ler Nietzsche traz-me à mente uma imagem poderosa, que condensa quase tudo que penso a seu respeito: a de um pintor exímio, um verdadeiro maestro dotado de pleno domínio das técnicas de sua arte, que tomasse o pincel com o propósito de pintar um arco-íris quando, na outra mão, sustenta uma aquarela que não dispõe [...]

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Futuro da direita brasileira

“Não gosto de Shakespeare. Ele nem era anticomunista, pô”.

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As duas vias

“Jesus lhes disse: ‘Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra’” (Jo 4, 34). Fernando Pessoa, em “Passos da cruz – XIII”, escreveu: “Não sei se existe o Rei que me mandou. / Minha missão será eu a esquecer, / Meu orgulho o deserto em que em mim [...]

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Solidão

Do mundo, ser o único heterossexual – macho, viril, implacavelmente másculo – que acompanha Grey’s Anatomy sem se ruborizar nem pedir desculpa aos amigos.

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Sejamos perfeitamente óbvios (4)

É natural ter dúvidas sobre se a profissão pela qual se optou é a que melhor se adequa a nossa vocação, ou ao menos a que a sufoca mais delicadamente, ou ao menos a que ainda nos permita lembrar que um dia acreditáramos possuir semelhante coisa. É natural temer que inexista Deus, temor sem o [...]

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Flagrar a própria arrogância, ao menos a mim, é um meio vital de perceber que existe algum estrato da realidade de evidência aberrante – tal como uma estrela evadida e aspiralada dum quadro qualquer de Van Gogh, que a maus olhos é só frescurinha – a que não estamos dando a devida importância. Ontem, veio [...]

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Pensées

Levantei-me ainda há pouco imbuído da obrigação de atualizar este blog com o que quer que fosse (a.k.a., só para escrever), de preferência com alguma piada sobre a Bulgária. Todavia, caí na besteira de abrir os jornais do dia e, ok, não há mais como tentar escrever nada que me peça muita verve. Só me [...]

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Devo dizer que sempre que ouço falar em austro-húngaros quedo em simpatia imediata. Só as memórias de Stefan Zweig já são suficientes para tornar o antigo império uma espécie de Babilônia renascida, como se os habsburgos houvessem construído uma cosmópolis pequeno-burguesa capaz de manter unidos, à bala, uma multitude alucinada de etnias as mais exóticas. [...]

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Teria pensado Rimbaud?

“Desfazer-se de uma vocação por destituí-la de disciplina – eis como garantir uma estadia no inferno, e uma estadia que não lhe permitirá inscrever o título Une saison en enfer em frontispício algum, se muito em acres paisagens de triste Abissínia. Desprezar uma verdadeira vocação é sempre um defeito da vaidade, vez que vaidade é [...]

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Já vi pessoas questionarem se, além da superioridade intelectual dos gostos aí implicados, bem como para lá de uma simples predisposição, um ânimo, uma nuança de caráter, há alguma justificativa “natural” para o conservadorismo. De maneira reta: se a opção (que só pode ser moral) pelo conservadorismo se trata da percepção de algo que você, [...]

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Lia este texto de Vilém Flusser sobre o Fedro quando comecei a recordar de meus tempos de cosac&naifymaníaco. Primeiro, é preciso dizer que a cosac&naifymania não se limita ao espírito do tarado intransigente – “mas é claro que também se lê com as mãos, tocando a aspereza do livro, sentindo o cheiro de suas páginas, [...]

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Vocês já devem ter percebido que o chato não é um ser unívoco. O chato é no mínimo Legião, tem mesmo numerosas fuças, não fosse ainda o caso de dizer ser ele uma hidra na qual, para cada cabeça que lhe cortamos, nasce outra e outra – and counting until out of all count. Sob [...]

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Mesmo hoje, sempre rio um bocado quando lembro de professores a me contarem que, antigamente, o homem acreditava que o planeta Terra tinha o formato de uma pizza, e, caso ultrapassássemos sua borda, cairíamos infinitamente no nada. Convenhamos que era uma idéia fabulosa, algo a que valia a pena dar crédito ilimitado. De outra ponta, [...]

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Que eu conheça, a visão mais bem acabada – e de uma hilaridade cruel – do que é nosso instinto quixotesco em estado puro, e em cegueira estonteante, é a metade bondosa do visconde partido ao meio de Italo Calvino. É aquele arremedo de cavaleiro nobre, altivo e de gentileza infinita, que justamente por querer [...]

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