Questão de ouvido

Todos sabem que Os Lusíadas é rigorosamente decassílabo (pés quebrados os há, mas não recordo algum no momento); e, por “rigorosamente”, quero referir sobretudo versos como (IV, est. 70, v.3)

Do rico Tejo, e fresca Goadiana,

A rigor, teria ele nove sílabas. O bom ouvido ordena que o leiamos, todavia, assim

Do / ri/co/ Te/jo, e/ fres/ca/ Go/a/dia/na,

ou assim

Do / ri/co/ Te/jo, e/ fres/ca/ Goa/di/a/na,

pois seu ritmo pede o hiato, e minha sensibilidade pede a segunda escansão à primeira (no caso, acento na nona não fica bem). Não me debiquem, por favor, nem acusem de dar importância imerecida a assunto aborrecido. Esta matéria, que fala à faina, à arte de poeta – que eu, não sendo um, sei só de ouvir falar –, é para nossa literatura das mais interessantes.

Motivo: os parnasianos (com seus méritos, vamos e venhamos) e o manual castilhista de Olavo Bilac haviam proscrito à poesia brasileira de fins do séc. XIX / princípios do séc. XX as tonicidades silábicas que fogem ao esquema tradicional, que privilegia a sinérese (sons vocálicos próximos em aglutinação, numa mesma palavra ou entre mais de uma); assim, até hoje temos gente a escrever versos silabicamente regulares, porém ritmicamente truncados, quando não de evidente mau gosto. Coisa de fazer vergonha alheia.

É exemplar que Manuel Bandeira, no Itinerário de Pasárgada, tenha contado da libertação que lhe fora descobrir “irregularidades” geniais em Camões; especificamente, as do sexto e décimo terceiro versos deste soneto: Continuar a ler

O mecânico e o sublime no universo do sr. Burnett

Ao historiador Jomar Moraes, com gratidão

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Lago Burnett (1929-1995), se mais lembrado um dia for, o será ainda como cronista. Eu mesmo, em matéria em sua homenagem que fiz publicar ano passado, só citei sua produção em versos ligeiramente, preferindo correr parágrafos a respeito do homem de jornal (imenso, hilário). Ignorância minha. Pois se ao maranhense – para lá do notável jornalista que fez escola (no papel de mestre) no Jornal do Brasil das décadas de 60 e 70 – fosse dirigida a paciente atenção que seus livros de poesia lhe fazem merecer, teríamos sonetos seus em qualquer – repito: em qualquer – antologia do gênero em língua portuguesa. Poucos tiveram tão pleno, sutil, desafiador domínio da forma em quatorze versos.

Publicou Estrela do Céu Perdido (1949), O Ballet das Palavras (1951), Os Elementos do Mito (1953), 50 poemas de Lago Burnett (1959) e O Amor e seus Derivados (1984), além de outros títulos em prosa. Uma vaga afinidade estilística, aliada à conveniência cronológica, fez com que o nome de Lago Burnett fosse arrolado entre os demais da “geração 45”.

Mas o que quero fazer não é meramente lhes “apresentar” o sr. Burnett. Quero é tratar de um aspecto de sua poesia que considero dos mais interessantes, instigante mais ainda se contraposto à escassez de “ouriços” (os homens de uma idéia só de que fala Isaiah Berlin), de “flores de obsessão” entre nossos poetas, não obstante – é óbvio – sejam grandes. Explico-me: digam que Drummond e Bandeira foram poetas de primeira linha, ao que irei aquiescer, mas não sem antes observar que, bom, nada me vem de imediato à cabeça como aquilo que “informa” suas produções quando nelas penso. Explico-me ainda: é que não acredito que artista de verdade, artista mesmo, possa sê-lo sem que ceda a idéias fixas.

Os gênios, invariavelmente, são filhos espúrios de idéias fixas. Eles as aceitam, as levam para passear, põem-nas a dormir, mas ao fim do dia vão à mesa escrever só porque nunca as docilizam inteiramente. Borges jamais conseguiu solucionar a incógnita de por que era ele Borges e não você ou eu – e, ainda, por que o é em um dado tempo (e não noutro), ocupando um certo espaço (e não outro), tendo tal proporção (e não outra). E, porque nunca compreendeu nada disso, escreveu sua obra. François Villon tinha a “paixão pelas ruínas”, como gosta de escrever Marco Lucchesi – e se o topos latino do ubi sunt? (“onde estão?”) a Villon fosse mero expediente retórico, e não real surpresa frente à irrevogabilidade do tempo (surpresa que a ele, um assassino, um proscrito, deveria ser especialmente dolorosa), não teria escrito a “Ballade des Dames du Temps Jadis”.

Enfim, quero tratar de uma “idéia fixa” que norteou muitos dos poemas de Lago Burnett. Ei-la: todas as coisas possuem uma forma perceptível, e a experiência, senão sempre, ao menos amiúde o comprova; no entanto, o movimento existe, as coisas se deslocam, envelhecem, embora permaneçam sendo o que são; ora, mas o que, aí, nos permite discernir tão claramente que aquela coisa, já não sendo inteiramente a mesma, ainda o seja no essencial? Percebam que a questão tem extenso tratamento filosófico no Ocidente, mas Burnett não dá bola para tal coisa. Porque seu interesse no assunto não é, a princípio, de raiz gnosiológica, e menos ainda ontológica: tudo é, puerilmente, uma questão de visão, de perspectiva, embora às vezes salte para além disso. E daí que ora ele se comporte como um idealista solipsista, para quem só há mundo em sua mente, e daí que ora ele se comporte como um realista antisubjetivista, para quem o mundo só possui estrutura fora de sua mente. Etc., etc.

Para colher os escritos mais representativos dessa obsessão, tomo o volume O Amor e seus Derivados por ele conter poemas de todos os livros anteriores do autor, além de alguns inéditos, traçando um arco de 30 anos de vagarosa, bissexta produção poética. “Os objetos”, de 1952, é boa introdução ao tema: Continuar a ler

Entrevista com Érico Nogueira

erico-nogueira

Foi publicada, na edição de O Imparcial de ontem, a entrevista  que o poeta Érico Nogueira me concedeu via e-mail e que abaixo reproduzo. Recomendo-lhes a leitura de seu O livro de Scardanelli, volume de estréia, com uma efusão bem além – punho em riste riscando o ar – daquela que os bons modos ajuízam de bom tom. Na matéria impressa, tive de suprimir, por questões de espaço editorial, a penúltima pergunta, a qual está agora devidamente restituída a seu lugar. Perdoem-me qualquer imprecisão, vagueza ou atropelamento no texto “crítico” de apresentação – estendesse-o por mais linhas, e talvez tivesse de amputar alguma outra parte da entrevista… Depois passem lá no blog do Érico para ler o bom ensaio que Jessé de Almeida Pinto dedicou ao título em questão. Continuar a ler