Instinto quixotesco

Que eu conheça, a visão mais bem acabada – e de uma hilaridade cruel – do que é nosso instinto quixotesco em estado puro, e em cegueira estonteante, é a metade bondosa do visconde partido ao meio de Italo Calvino. É aquele arremedo de cavaleiro nobre, altivo e de gentileza infinita, que justamente por querer tornar o mundo um lugar sem dores o torna mais doloroso ainda. É coisa semelhante a querer dedicar sua vida inteira a se desfazer de todas as infelicidades sem perceber que, importante mesmo, é não deixar que as desditas anulem os momentos de ventura – e com o senão evidente de que aquelas jamais terão término. Eu, tal como muitos (pelo menos espero), tenho de diariamente dar uma surra de realismo neste meu Dom Quixote que não cessa, quase a rasgar meu peito, de brandir sua espada contra todas as imbecilidades e vilezas que o cercam. É claro: é bom que primeiro ele combata as minhas próprias. E, só então, tente consertar algum detalhe do cenário maior em que se insere.

Senão, vejamos: o mundo está aí, e aí, até não se sabe quando, ficará. Já eu e você, muito em breve, não estaremos mais aqui. Se muito, sobreviveremos na memória dos outros, sobrevida essa na qual Jorge Luis Borges, um ateu, via uma espécie de eternidade. Portanto o máximo que chegaremos a fazer – isso, aliás, se nesse intuito empenharmos todas as nossas forças – é ato similar ao de quem atravessa os escombros do que um dia fora a casa de um desconhecido, e, por estranho ímpeto de bondade, em vez de tentar pôr tudo em ordem e reerguer o lar inteiro, encaminha-se a um canto, ergue o indicador – e o desliza levemente contra a lateral de um quadro chamuscado sobre uma parede que ainda resiste. E então pôde um desconhecido deixar em ordem pelo menos a posição de um objeto naquele espaço que outrora fora um lar para outro desconhecido. Isso é o máximo que nossa bondade nos permitirá fazer neste mundo.

E, para fazê-lo, temos de conter nossos instintos quixotescos. Porque o problema não é só o querer pôr fim a todos os reais e imaginários vícios do mundo. O problema verdadeiramente espinhoso é não perceber que o bem, a cada ação nossa, não toma a forma pura do Bem. Agir de acordo com uma moral conseqüente e equilibrada exige perceber que o bem também deve ser moderado de acordo com as circunstâncias em que estamos inseridos. Senão, obviamente, não se estará fazendo o bem de forma consciente – e fazê-lo inconscientemente é um risco, conquanto assim poderemos também agir de má forma sem que o percebamos (Ética a Nicômaco).

Se, por exemplo, a cada porcaria que lesse na imprensa brasileira eu resolvesse escrever um post mostrando por que aquilo está errado, no prazo máximo de cinco dias eu estaria completamente pinel, babando minha bondade histérica sobre o teclado. Agir corretamente exige, enfim, a contrapartida de agüentarmos determinados graus de maldade e sandice. Fora que, aliás, combater o mal apenas por combatê-lo não equivale de forma alguma à realização do bem com vistas eminentemente positivas. Dou um exemplo: supondo que o cristianismo estivesse errado e nos fosse um dever moral sermos anticristãos, se passássemos dia e noite a falar mal do cristianismo, tal como desde sempre passam os militantes ateístas, jamais estaríamos livres da religião de Cristo. Ao contrário, permaneceríamos sob sua sombra, continuaríamos a vê-la de dentro. A mesmíssima coisa ocorreria se eu me dedicasse a refutar premissa por premissa toda e qualquer baboseira política com que me defrontasse: eu estaria vivendo à sombra de um outonal e gigantesco pé de baboseiras.

Enfim, resolvi escrever este post apenas para me poupar de fazer um comentário sobre uma matéria especialmente idiota que li – e assim, evidentemente, atrasar um pouquinho a dissipação de meu espírito. E quem me estendeu a mão, mais uma vez (mais uma vez mesmo), foi nosso querido e nunca suficientemente citado Gilbert Keith Chesterton:

It was the anti-clerical and agnostic world that was always prophesying the advent of universal peace; it is that world that was, or should have been, abashed and confounded by the advent of universal war. As for the general view that the Church was discredited by the War – they might as well say that the Ark was descredited by the Flood. When the world goes wrong, it proves rather that the Church is right. The Church is justified, not because her children do not sin, but because they do. But that marks their mood about the whole religious tradition: they are in a state of reaction against it. It is well with the boy when he lives on his father’s land; and well with him when he is far enough from it to look back on it and see it as a whole. But these people have got into an intermediate state, have fallen into an valley from which they can see neither the heights beyond them nor the heights behind. They cannot get out of the penumbra of Christian controversy. They cannot be Christians and they cannot leave off being Anti-Christians. Their whole atmosphere is the atmosphere of a reaction: sulks, perversity, petty criticism. They still live in the shadow of the faith and have lost the light of the faith.

In The Everlasting Man.

O terror de encenar-se

O cinema sempre foi e, muito provavelmente, sempre será o lugar onde artistas poderão realizar de maneira especialmente intensa obras que nos ponham próximos desta verdade assombrosa: a imaginação, muito diferentemente do que pensavam alguns românticos, jamais será a porta dos fundos pela qual se poderá deixar para trás os desprazeres do dia a dia; pelo contrário, o imaginado, não raras vezes, torna-se bem mais terrível que o meramente percebido. Se tomarmos como modelo as relações entre linguagem e realidade estabelecidas pelo Trivium, o que disse anteriormente fica assim expresso: ao passar do nível de percepção da lógica, que trata da coisa-tal-como-ela-é-conhecida, para (por meio da gramática) o da retórica, que trata da coisa-tal-como-ela-é-comunicada, o ser humano pode acabar produzindo determinadas distorções que – mais dia, menos dia – o destruirão. Pois, embora em um primeiro momento os símbolos possam imunizá-lo quanto ao que ele efetivamente percebe, uma hora ou outra a bigorna da realidade despencará sobre sua cabeça com uma virulência implacável – e arte nenhuma o salvará.

(Aliás, um dos equívocos da arte moderna anterior ao século XX foi o de tentar atribuir-se uma perspectiva de salvação tipicamente cristã, porém secularizada. Não à toa, foi William Blake o inventor da “salvação pela estética”. E eu disse “anterior ao século XX” porque, nesse século, em geral, até mesmo aquela aspiração foi proibida, restando à arte a função de puzzle intelectual.)

Há mais de um ano, falei de forma sucinta sobre o assunto neste post de meu antigo blog, em que comento o filme O labirinto do fauno. Volto a tratar do tema por ocasião do lançamento de A Double Life, um clássico absurdo, singular na filmografia de George Cukor, o injustamente pouco celebrado “diretor das atrizes” (assim chamado não só por ter dirigido incontáveis “divas” de Hollywood, tais como Hepburn, Gardner e Garbo, mas também por ter sido ele quem efetivamente ensinou muitas delas que cinema falado não é teatro e requer um tipo específico de atuação). De pronto, devo dizer que não posso concordar inteiramente com esta passagem do perfil que Kenneth Tynan a ele dedica (in A vida como performance):

Não estou certo sobre que tipo de artista ele é; na verdade, não estou certo se gostaria de ser visto como um artista. Se arte tem a ver com a expressão de uma atitude sincera e consistente em relação à vida, então Cukor dificilmente se qualifica. Ele não tem compromissos emocionais profundos e, como ideólogo, mal existe. (…) Ele sempre se interessou menos pelo que está dizendo do que pelos atores mediante os quais está falando. Ele é o treinador que manda os jogadores para a luta; pessoalmente, não está lutando por nada.

Sem dúvida alguma, Tynan não viu A Double Life (1950) antes de escrever o que escreveu. Este é mais um filme a ser inserido numa tradição que talvez tenha início em Sunset Boulevard (1950), de Billy Wilder, e que viria alcançar nossos dias com produções como Cidade dos Sonhos (2001), de David Lynch, e o supracitado O labirinto do fauno (2006), de Guillermo Del Toro. São filmes representantes dos perigos de tentar fazer da imaginação um meio de desprender-se da realidade, e não unir-se mais fortemente a ela, pois o imaginado tem regras próprias que não podem ser transgredidas. E, se você tenta rompê-las e fazer imaginação e delírio coincidirem, certamente você não se estrepará em seu mundo de mentirinha, mas neste que é inapelavelmente verdadeiro. Em suma, a “ética da elfolândia” de que fala Chesterton também pode ser compreendida, se transposta para o campo da arte, como o preço a ser pago para que nos mantenhamos na fantasia (por exemplo, não perguntar como Alice pôde atravessar um espelho se quisermos sentir algum prazer lendo as obras de Lewis Carol).

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Em A Double Life (não gostei do título Fatalidade com que foi lançado agora no Brasil), Ronald Colman interpreta Anthony John, um celebrado ator que, ao se preparar para encenar a peça Otelo, vai gradativamente perdendo a noção de que aquilo que recita ininterruptamente não pode ser vivido como se fosse real. Vejam: não se trata apenas de confundir realidade e ficção. Trata-se, mais que isso, de não perceber que determinados sentidos de uma obra de arte só podem ser vividos espiritualmente, já que ninguém é capaz, por exemplo, de sobrepor a si uma outra personalidade sem enlouquecer. A história de Otelo não deveria ser apreciada se fosse um fato: seria tenebrosa, geraria um misto de repulsa e compaixão. E o terror vivivo por Anthony John chega ao paroxismo quando, no palco, a encenar a peça que havia levado para fora dos palcos, enfia verdadeiramente o punhal em seu ventre após matar Desdêmona não em simulação, mas de fato, pagando simbolicamente o preço que sempre pagamos quando tentamos desafiar os fundamentos primeiros da realidade. Na coxia, policiais o aguardavam para prendê-lo por conta de outro homicídio que praticara: na casa de uma garçonete, sente por ela os ciúmes que sente Otelo; e a mata como Otelo mata Desdêmona.

Por fim, resta dizer que pretender viver aquilo que só pode ser responsavelmente imaginado não passa de uma forma meio burra de encenar-se. Aquele que crê ser a arte um belo e maravilhoso mundinho de eleitos, um lugar infinitamente acima da suposta chatice dos dias que se seguem, é tão somente um falso ator tentando encenar-se a si mesmo.

*

No primeiro parágrafo, afirmei que o cinema seria a arte que melhor se prestaria a retratar essa insanidade. Caso o porquê não seja suficientemente evidente, digo: é que a tela realiza melhor que qualquer outro meio aquela velha obsessão de encenar algo dentro de uma encenação, obsessão que prossegue desde a famosa cena de Hamlet até o pastiche simbolista do texto que Templiakov faz encenar no início de A Gaivota, de Tchekhov. Muita gente – ainda, ainda! – pensa que metalinguagem representa sofisticação. Bobagem: metalinguagem é uma das coisas que artistas fazem mais instintivamente.