
Resolvi fazer serviço de utilidade pública. Pincei no site da Dicta&Contradicta o link para um bate-papo entre Eric Voegelin (ou Érico Passarinho, para os mais íntimos) e seus alunos. O que vocês lerão abaixo é uma impaciente, ligeira mas ainda “correta” tradução da primeira parte do texto. Espero que lhes seja de alguma valia. Mas, antes, devo dar duas palavrinhas sobre a tradução e o motivo que me levou a realizá-la.
Sou semi-analfabeto em umas três línguas (inglês é uma delas) – o que me leva ao hábito de ler sem nada traduzir, ainda que fosse só mentalmente. Não tenho, portanto, aquela “hubris de tradutor”, do cara que não vai dar o braço a torcer àquela expressão intraduzível. Daí que, em diversos momentos desta tradução, pouca bola dei à oralidade inglesa, passei por cima de imprecisões – por exemplo, traduzindo “branchings-off” por “ramificações”, “cross-cut” por “linha de interseção”, “underground / upper” por “oculto / ‘de proa’” – e eliminei repetições próprias à fala oral inglesa que só a muito custo eu poderia adaptar ao português sem que soassem ridículas. Aliás, em muitas passagens não fiz o devido “aportuguesamento” do original, embora tenha me procupado em fazê-lo quando a sintaxe do inglês tornasse problemática – ou mesmo só chatinha – a leitura do português. Rachei orações longas em duas. Pus travessões, dois pontos e reticências onde não havia. Etc. Ah, e não traduzi a pergunta feita por John Dowling lá no fim por já ser uma introdução à segunda parte deste irish dialogue. Enfim, tudo está perfeitamente legível, com todo significado do original intacto, e, do ponto de vista do bom português, não está lá um Paulo Arantes, digamos assim.
Resolvi tornar este texto mais acessível ao leitor brasileiro por, embora sendo ele curto, conter uma abordagem transversal de algumas das questões que nortearam a produção do Voegelin maduro – e expostas com a leveza de quem apenas conversa despreocupadamente. Pode, inclusive, servir de porta de entrada – mesmo que dos fundos, já que ele só tangencia suas pesquisas sobre as “ordens” e as “diferenciações simbólicas” – para a obra do filósofo. Três pontos são especialmente importantes: a) sua filosofia da história (bem como a ciência política que a acompanha) que vê a sucessão das eras e civilizações como superposições intercomunicáveis, o que, em certo sentido, arremessa leituras ideologizadas e historicistas na latrina da ignorância (teço um comentário mais ilustrativo no correr do texto); b) a sua tão propalada – e igualmente prostituída – abordagem de movimentos sectários escatológicos, apocalípticos, gnósticos etc. como tradições ocultas que vêm, exotericamente, ao encontro de nossos dias com uma força política e simbólica capaz de fazer ver quão bocós são, em geral, os cientistas sociais – tão inflados estão de “ortodoxia socializante”, que dificilmente conseguem ver a nebulosidade e antigüidade das raízes de certos fenômenos contemporâneos (dêem bastante atenção ao “mito metalúrgico” e às guerras entre dogmatoquias; também aqui estendo maior comentário ao longo do texto); e c) a constante preocupação de Voegelin em não se deixar, em momento algum, ser arrebatado para longe da realidade – finca-se sempre no concreto, no “empiricamente válido” (expressão tão própria a ele) com todas as suas confusões e incoerências.
A edição da gravação foi realizada por Joseph McCarrol. Continuar a ler