O Tradicionalista Cúmplice de Fratricídio

Flagrar a própria arrogância, ao menos a mim, é um meio vital de perceber que existe algum estrato da realidade de evidência aberrante – tal como uma estrela evadida e aspiralada dum quadro qualquer de Van Gogh, que a maus olhos é só frescurinha – a que não estamos dando a devida importância. Ontem, veio uma amiga dizer-me que, após tomar daime, vira o inferno. Passada a “experiência”, aterrorizada, tornara-se instantaneamente uma mulher conservadorazinha da silva, prometendo a si mesma jamais retornar à sua conduta anterior de “libertina” – se disse quase católica, até. Retruquei-lhe que, após ter lido Michael McClure, Gary Snyder e Timothy Leary, aquelas suas impressões para mim não passavam de vislumbre caipira, tal como o daqueles e tantos outros autores – tipo o de um favelado que fosse fazer compras num shopping de Berlim. Então põe-se ela a falar sei lá por que de Buda, observando que nada há – sequer uma mísera evidência entre o céu e a terra – a comprovar que o impacto do que ela vira não fosse maior que a elevação espiritual do Desperto. Perdi a paciência e lhe respondi que, só pelo teor de sua especulação, é patente que até o Chimbinha da Banda Calypso costuma ter vislumbres metafísicos mais intensos que os dela.

Fui arrogante, bastante imbecil. Quem, afinal, sou eu para julgar dessa maneira a espiritualidade de alguém que pelo menos está sendo sincero, mesmo que equivocado? Eu, que sou uma das maiores vergonhas do catolicismo a caminhar sobre este mundo, deveria ter mais arraigada à mente a idéia de que, um dia, Deus julgará mais consciências que atos e palavras.  Mas minha mea culpa se deve fazer acompanhar de uma observação. É rotineira aos que não cessam de sentar lenha na “debacle espiritual do Ocidente” uma ojeriza hidrofóbica a qualquer anseio espiritual que não passe imediata, cega e servilmente pelo fulcro de alguma tradição. Se o cara não for cristão ortodoxo, não for muçulmano, não for budista, não for hinduísta, saque da cintura seu perenialist kit e reduza o pobre coitado a cocô cósmico, dejeto sub-ontológico a ser um dia despejado na latrina do universo. E ai dele se for judeu ou protestante.

Tal tipo de reação a mim surge como um historicismo ao avesso, como se Oswald Spengler – colosso de escritor, é claro – houvesse, ao modo de um Hegel entediado, dotado a História de um sentido teleológico cujo estágio último fosse não a consecução suprema de toda a técnica e espírito precedentes, mas inequivocamente a merda, o esgoto, o abissal vaso sanitário – como um despenhadeiro, e não estágio de transição. Sinto coceira sob as unhas quando vejo rapazinhos falando ah, o Kali-Yuga… como quem reclama de ter o Vasco surrado o Flamengo, mas que o faz com a ferocidade de quem está prestes a soltar, das próprias mãos, o hadouken que o próprio Ryu não pôde detonar em direção às fuças dos antitradicionalistas. A nobre aspiração de fundo, enfim, é esta: eu quero mais é que o Ocidente se f. só para que a História mostre quão certo eu, o carinha-que-fala-mal-do-Kali-Yuga-e-do-reino-da-quantidade, estou.

De fato, isso só ajudará a arremessar de vez o Ocidente – de chupeta, babador, frauda e tudo mais – ao colo do seu próprio demônio. O que eu deveria ter feito junto à minha amiga – supondo mesmo que tenha sido um terror metafísico o que sentira, como me fez acreditar – é ouvi-la, e com paciência ilimitada, buscando não deixar que aquele mínimo anseio de transcendência, talvez ali manifesto, se esvaísse. Mas não. Chego lá, arrogantemente, e digo que é tudo besteira, está errado, não é assim etc., tal como tradicionalistas de Orkut que adoram mandar os fulanos lerem  livro tal para que vislumbrem pelo menos uma perninha de barata da esmagadora Verdade, oh. Isso é uma escrotidão de fazer o umbigo ir parar na b.

Recentemente, comecei a me interessar pelos livros do Pitirim Sorokin. Estou lendo estupefato seu A crise do nosso tempo, sobre o qual anotarei alguma coisa aqui posteriormente. Sua filosofia da história pressupõe uma fase ideacional, a que se segue uma sensorial, sendo a terceira – um misto das duas anteriores – a idealística. Da primeira à segunda, dá-se a queda do espiritualismo para o materialismo (resumo grosseiramente). A terceira é a era da confusão generalizada, em que, para tomar exemplos de nossos dias, pessoas passam a adorar ETs e a se preocupar abstratamente em “salvar o planeta” quando sequer se lembram de varrer a própria casa umas duas vezes por mês, ao mesmo tempo em que aqueles afeitos a atividades tidas por “mais espirituais”, tal como as artes plásticas, deixam de ser, mesmo que em estreita medida, expressões do espírito do seu meio e passam a – sei lá – desenhar conchinhas na parede de seus banheiros. Ok, mas vamos ao porém: é precisamente no meio deste caos que devemos nos manter mais alertas – e com paciência e humildade monstruosamente alargadas – para que os vagos e difusos sinais da nova fase ideacional permaneçam de pé em meio a todas as esquisitices, inutilidades e baixezas. Creio que Sorokin não endossaria esta minha leitura, mas seu “sistema” parece construído tomando a própria vida concreta e atomística de um ser humano de modo a espelhá-la na História. Pois é precisamente assim que, por meios tortuosos, prosseguimos em nossa lição de trevas: na torrente de equívocos que transpassa em ritmo constante nossas mentes, algumas minúsculas e valiosas partículas vão, aos poucos, sedimentando algo de bom para o porvir – geralmente, o porvir de uma vida inteira.

Portanto, trata-se de imprudência mais narcotizante que qualquer alucinógeno o rechaçar um anseio sincero de transcendência só por condenar as infundadas bases ou mesmo a franca ignorância que o sustentam. Sem resguardá-lo, estaremos nos comportando como o homem que, num domingo primaveril, decide ir visitar o pai e encontra sua casa desoladamente vazia, por ter esquecido que já haviam se passado alguns anos desde que ele o matara.