Ascese e realismo metafísico

[dez. 2008]

Tenho um critério, especial quando contraposto aos demais, para o estudo da Filosofia e para a distinção, no cânone, de a que realmente vale a pena dedicar estudo. Talvez ele lhes seja de alguma valia, este critério cujo principal peso, inclusive, está na contraparte que dele decorre e de que mais à frente falarei. Pois ei-lo: ou uma determinada filosofia em questão é positivamente metafísica, e então é de fato uma filosofia; ou não é metafísica e portanto não passa de posto de entre-troca de informações superinteressantes, nas quais o sujeito jamais acreditará sequer quando estiver no banho lavando o sovaco. Minha justificativa é simples. Sempre que alguém nega a possibilidade do conhecimento, ou mesmo quando a afirma, porém aduzindo a inexistência de um princípio (a cuja essência possamos atribuir unidade, imutabilidade e eternidade) que possibilitaria o lógos do ser na sophéia da phýsis [sophé = luz, phýsis = "natureza"], por apagoge veremos este sujeito inevitavelmente chegar a ligeiras variações de um destes dois absurdos:

a) “cada coisa manifesta é absolutamente própria. Dizer que todos os entes possuem um semelhante em comum, para aí sustentarmos a possibilidade de conhecê-los em sua heterogeneidade, é tão somente uma abstração que se encontra em nossas mentes e não na realidade. Afinal, não há nenhum argumento capaz de derrubar a proposição de que, mesmo que provemos racionalmente que todas as coisas advém de um Primeiro em graus descendentes de perfectibilidade (hipóstases), tudo não passa de deduções impostas pelas operações racionais, hermeticamente trancadas nos limites da linguagem. Portanto, a gnose pode dispensar o ser velado. E, se o pode, de fato o dispensa. E, se o dispensa, não há existência para lá da manifestação”; e

b) “sim, há o ser. Há um cognoscível em todas as coisas, que as ultrapassa, que se apresenta nelas por inteiro, mas do qual não podemos dizer ser ele dividido. Se o fosse, seria possível conhecer esta xícara melhor que aquela, pois nesta ele  estaria mais completo e, naquela, menos. No entanto, sabemos que se trata isso de falsidade, pois, por experiência, temos consciência de que reconhecemos estas duas xícaras, enquanto xícaras, da mesma forma. Por outro lado, é sinal de fraqueza imensurável crer que o ser seja somente uma abstração de nossa mente, cousa que equivale a dizer, afinal, ou que a coisa mesma nos é inalcançável (o que nos faz cair em baixo idealismo), ou que somos nós mesmos que formulamos o significado das coisas, arbitrariamente, de acordo com os limites ‘impostos’ pela razão. Ora, a primeira tese é ridícula por conta da evidência de que alguma coisa, seja ela o que for e o quanto for, é por nós efetivamente conhecida. Já a segunda tese nos faz umas bestas: nada poderá nos dar motivo para nos orgulharmos de não estarmos no hospício. E, como sabemos, há algumas pessoas que lá estão, e justificadamente… Mas retornemos. O ser há, está em cada coisa. É uma tautologia. O equívoco de muitos filósofos não reside aí, mas noutro aspecto: inferir que todos essas essências têm um princípio em comum, que lhes dá unidade e uma mesma origem. O fato de abarcarmos no conhecimento coisas tão diversas – e mesmo o fato de que eu e você possamos descrever um cachorro de maneira idêntica – dá por seguro  o sermos aparelhados para conhecê-las em sua multiplicidade; mas nada há, aí, que nos leve a conceber um Primeiro como necessário – para concebê-lo, temos de dar um salto lógico no calar da consciência. Portanto, as formas existem; a Forma, não”.

Não preciso fazer-lhes ver que (b) é uma impugnação de (a), embora (b), por conta de equívocos derivados do não ter ele estendido seu raciocínio até onde se fazia necessário, acabou aportando a uma tese tão absurda quanto a concluída por (a): se este diz que não há ser, é claro que crê inexistir um Ser; e se aquele diz não haver Ser, não poderá de forma alguma afirmar a existência do ser, embora não o perceba em seu argumento. Se me pedem exemplos de pensadores que chegaram a levantar teses equivalentes às de (a) e (b) por vias semelhantes às expostas, cito dois, respectivamente: Derrida e Bertrand Russel.

A refutação de (b) é primária. Aquele que diz que cada coisa possui um ser absolutamente próprio deverá supor, então, que a espécie iguana é uma pura abstração noética, já que através da idéia desta espécie conseguimos conceber um conjunto de seres absolutamente próprios e suficientes como semelhantes – mas tal semelhança não existiria na realidade. Ora, mas o simples chamar a uma iguana e a um teclado de computador coisas – o que já é um tipo de “mínimo denominador comum da semelhança” – seria absurdo. No entanto, (b) acredita que verdadeiramente alcançamos o ser de cada coisa, não estando o coisas só em nossa mente, no que ele está estritamente correto… Aí, cai-se em contradição insolúvel, e cai-se por não perceber que o mero reconhecimento de um é constitui por si só prova da nossa capacidade de perceber um Primeiro que analoga a tudo como fatalmente existente e não apenas percepção dúbia, intuição essa que, inclusive, apresenta-se contida no começo da argumentação de (b).

Pois bem. Com isso, penso ter justificado com brevidade o critério de que lhes falei. Mas também lhes disse, logo no início, que o que mais importava, na verdade, é uma contraparte desse critério (pelo qual toda genuína filosofia só pode manifestar uma confiança metafísica). E a contraparte é esta: só vale a pena levar a sério uma metafísica que guarde em si um mínimo de apelo à conduta ascética. Se o cara lhe der prova irrefutável de que “ok, há Ser hierarquicamente precedente a todas as coisas, e estas dele participam em certa medida”, mas não lhe der suficientes estímulos para que você opte por seguir uma via progressivamente ascética em busca daquilo cujo simples vislumbre já nos torna seres melhores, este cara só está lhe fazendo perder tempo.  Em um dos tratados de suas Enéadas, Plotino expressa com aquela sua língua monumental o que quero lhes dizer:

Pois é necessário que o olhar se torne semelhante ao objeto que deve ser visto para ser capaz de contemplá-lo. Jamais um olho poderia contemplar o Sol se não fosse semelhante a ele; e jamais uma Alma poderia contemplar a Beleza suprema se antes não se tornasse bela.