Conservadorismo e conhecimento

[dez. 2008]

Já vi pessoas questionarem se, além da superioridade intelectual dos gostos aí implicados, bem como para lá de uma simples predisposição, um ânimo, uma nuança de caráter, há alguma justificativa “natural” para o conservadorismo. De maneira reta: se a opção (que só pode ser moral) pelo conservadorismo se trata da percepção direta de algo que você é ou se requer toda uma Tortuosa Jornada Em Busca Da Verdade. É coisa semelhante a perguntar se fulano é blasfemo por ter tomado parte de uma determinada confissão religiosa por motivos eminentemente intelectuais “em detrimento daqueles do coração“. A resposta evidente a essa pergunta é: blasfemo apenas se você não souber o que são motivos intelectuais, e quão sinceros podem ser. Mas eu ia dizendo que, sim, há justificativas “naturais” para aquela opção, e você pode escolhê-las à vontade, desde que não se esqueça de que todas elas partem de um único e inescapável ponto: a aceitação é aquilo que nos permite continuarmos sendo o que somos. Há coisas que simplesmente devem ser aceitas; há outras que não. Mas é claro que não será o Estado que me dirá quais são aquelas e quais são estas. O Estado não sabe de nada.

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Todo ser humano só percebe determinadas coisas, e de uma determinada forma, por dispor de esquemas noético-eidéticos capazes de assim percebê-las. Esses esquemas, no entanto, não são puro nous, como sempre quiseram os idealistas radicais – e também não são puro eidos, pura proporcionalidade intrínseca do ens, como sempre quiseram os realistas radicais. A percepção dos entes pelos esquemas é sempre resultado dos processos conjuntos de acomodação e assimilação que se dão post rem, ou seja, após o estabelecimento de algum contato entre o espírito e a coisa. Via acomodação, o homem, constituído que é por fatores bionômicos e outros extrínsecos, como a ordem social, tem seus esquemas adaptados, coeridos pela estrutura que a coisa lhe apresenta. Via assimilação, ele simplesmente capta as coisas de acordo com as possibilidades gnosiológicas dos esquemas que já possui. Os dois processos, entenda-se, são todavia inseparáveis e até complementares.

Mas as coisas mudam, sofrem mutações, passam de uma harmonia a outra. Explicar a mudança: era esse o grande problema surgido com Parmênides e que só acharia solução em Aristóteles, e, melhor ainda, na leitura tomista de Aristóteles. Em síntese vulgar, eis a solução: conseguimos captar as coisas e suas mutações como uma unidade, e sem que percamos nossa linearidade biográfica de sujeitos, pelo fato de que todo ente já possui, nos elementos que o constituem, as suas predisposições corruptivas, as quais, no entanto, para que aquele ente permaneça ainda sendo aquele ente, se encontram virtualizadas – enquanto só são ativas as possibilidades comproporcionadas àquela forma. Quando as predisposições corruptivas se atualizam, quando se tornam efetivas, a força que coacta o ente é rompida e dá-se uma desarmonia, a qual é instantaneamente solucionada com a integração do ente numa nova harmonia, que antes lhe era exterior. E assim o mundo sofrerá mutações e mutações até que se esgotem todas as possibilidades e ele tenha de ser reabsorvido numa universalidade maior e anterior – nós, cristãos, podemos chamar a esse momento Juízo Final.

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Isso que acabei de lhes expor é só o esboço tosco de algumas teses metafísicas, ou matéticas – “algumas teses”, de fato, pois o “sistema” inteiro demandaria uma quantidade monstruosa de laudas em que minha inépcia saltaria aos olhos -, que ancora a filosofia de Mário Ferreira dos Santos em diversos momentos de sua exposição: por exemplo, na segunda parte de Filosofia e Cosmovisão, no Aristóteles e as mutações por inteiro, nas leis binárias deduzidas a partir das leis da harmonia e da evolução de A Sabedoria das Leis Eternas, e nos temas iniciais do Tratado de Simbólica. E que tem tudo isso a ver com o que lhes falava a respeito de conservadorismo no início deste post? Não é possível que vocês não tenham percebido que a proximidade entre aceitação e acomodação-assimilação é bem mais que semântica.

Mesmo aquele imbecil, o doidão que não respeita nem a verdade irrespondível de que ele é só um homenzinho ridículo e não um deus, mesmo ele, se não  quiser respeitar sequer isso, tem de aceitar determinadas regras desse jogo chamado realidade para fazê-lo. Não há mérito algum aí. Basta ser normal. Ocorre, todavia, que há algumas pessoas que são mais normais e sãs que outras por aceitarem isso. A propósito, outro dia, ao mandar o link de um blog para uma colega de faculdade, ela me pergunta: “é blog de direita, né?” Respondo-lhe com outra pergunta: “‘de direita’ quer dizer blog de gente normal?” E nisso não ia nenhuma demonização daqueles que querem transfigurar a própria natureza humana – chamemo-los quer de esquerdistas, quer de revolucionários etc. Apenas, é que não entendo como alguém possa viver procurando o incerto, a desordem, o risco, a aventura (ah, a tal da aventura!), se as coisas, por si só, já são sobre-humanamente complexas. São pessoas que simplesmente não querem viver. Concentram-se tanto na aventura que se esquecem daquilo que permite o aventurar-se: a vida.

Complicado como já é o simples estar vivo, há ainda, sobreposta ao fato de que as coisas variam dentro de uma ordem invariante, a possibilidade de que a assimilação dos esquemas seja máxima e a acomodação, mínima. Quando isso ocorre, e caso o assimilado guarde um evidente rastro da coisa, caso a coisa participe em parte do assimilado, dá-se o processo simbólico. É quando intuímos ou vemos apenas algumas notas de certa coisa a cujo esquema nos adequamos muito pouco. A nossa parcela natural e sadia de busca, portanto, é só aquela necessária a tornar transmissível o intransmissível, aquela necessária, por exemplo, para que falemos de Deus sem que jamais tenhamos conversado com um deus de carne e osso. E então algumas tradições simbolizam Deus com uma circunferência, ou com o número 10. Etc.

Há também a possibilidade de que, sendo mínima a assimilação e máxima a acomodação, o que se produza não seja um símbolo, por não haver participação direta da coisa no sinal. Então temos uma metáfora, que se refere ao metaforizado por analogia, perdido que está o nexo residual, participante. Ora, uma coisa que me é bastante evidente é que muitos dos que não aceitam estão a agir tal como poetas ineptos, como maus artistas que se acham investidos de uma função demiúrgica para a qual não estão habilitados, e por um motivo terrível: não percebem que mesmo a metáfora se dá por uma via de aceitação natural do real, mesmo que, neste caso, o resultado se apresente difuso. Isso que estou dizendo, em verdade, tem uma dedução bastante empírica: tudo o que é anormal só o é porque na maior parte do tempo nós vivemos na normalidade. Era mais ou menos isso que Murilo Mendes queria dizer ao afirmar que nem mesmo André Breton poderia ser um surrealista full time.