Sejamos perfeitamente óbvios (4)

É natural ter dúvidas sobre se a profissão pela qual se optou é a que melhor se adequa a nossa vocação, ou ao menos a que a sufoca mais delicadamente, ou ao menos a que ainda nos permita lembrar que um dia acreditáramos possuir semelhante coisa. É natural temer que inexista Deus, temor sem o qual o próprio Deus tornar-se-ia injustificado. É natural caminhar pelas ruas da sua cidade natal, após cruzar umas duas décadas embriagado dum sentimento que só depois você perceberia lhe ser aplicável o nome de “ostracismo”, e sentir que você dera voltas e voltas e voltas, e só o que mudou foram as luzes dos postes – antes comodamente amarelas, hoje assepticamente brancas – e a saúde de seu pulmão: porque exilar-se só tem sentido se for para retornar ao mesmíssimo e imutável ponto de partida. É natural tomar-se por falsamente convencido de que tudo o que você fizera não passou de um temível mosaico de derramamentos de tempo pela janela, quando, em fato, você está verdadeiramente disso convencido e, pior, correto de maneira inexorável. É natural questionar-se, por vezes, de que vale possuir uma certeza que não nos tome em seus braços e nos ponha para dormir.

One thought on “Sejamos perfeitamente óbvios (4)

  1. “temor sem o qual o próprio Deus tornar-se-ia injustificado” – Não sei se te dás conta de que dizesseste aí que Deus tem de se justificar perante o homem.

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