Entrevista com Érico Nogueira

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Publicado em O Imparcial, 31 de março de 2009.

O fugaz enquanto fugaz

Estréia de Érico Nogueira, O livro de Scardanelli romanceia a idéia de que ao poeta é inevitável a hesitação entre a naturalidade do sentimento e a artificialidade da expressão

Por Ronald Robson

Não tivéssemos o Drummond de Claro Enigma (1951) e as duas obras magnas de Bruno Tolentino, O Mundo Como Idéia (2002) e A Imitação do Amanhecer (2006), e nos seria bem maior o espanto que causa O livro de Scardanelli (2008), volume de estréia do jovem poeta paulista Érico Nogueira. Raríssimas vezes se fez no Brasil poesia com tal envergadura formal a partir de aspirações – em um debate de idéias típico de “poetas-críticos” – que desmentem a imaturidade que geralmente se pode imputar a um escritor de 30 anos.

Para tomar uma referência amplamente conhecida, Fernando Pessoa (o próprio, o ortônimo) talvez tenha sido o poeta lusófono que mais se impôs o exercício da poesia como uma constante tensão entre “interioridade” e “exterioridade”, entre o dizer genuíno de um “eu” e a observação – exterior, severa – das técnicas de que ele se utilizará para tanto. E, se em um Pessoa tal tensão é sombra costumeira mas secundária, em Érico Nogueira ela se fez tema, aspiração e impasse desejável. Já no primeiro poema do livro vemos Érico a dar precisa e bela expressão a esse jogo de duplicidades que energiza a alma de Scardanelli, a voz que fala no livro: “A hora lúcida de cara dupla”.

Divide-se a obra em três partes. “Livro de Horas” é a primeira delas, uma seqüência de 23 poemas, todos eles sendo “traduções” heterodoxas realizadas por Érico dos poemas que o poeta alemão Friedrich Hoelderlin (1770-1843), na velhice e já louco, escreveu sob o pseudônimo de Scardanelli. Disse tradução, mas aqui a palavra conota apenas uma espécie de deliberado plágio formal: pois o que Érico fez foi preencher com conteúdo completamente outro a estrutura métrica e rítmica dos poemas originais – e nada mais.

São poemas muito suaves, como que pensados à voz baixa, a advertirem sobre a fatalidade irreversível do tempo – coisa, aliás, bem expressa em “O Selo”: “Se tal é a morte, é tal também a vida: / quem vai ditoso, mas se esvai na lida, / é como se em lida só passasse: / a vida amarra, a morte é desenlace”. São poemas de versos geralmente decassílabos, distribuídos com ou sem rima no mais das vezes em quadras paragrafadas ou não, simplicidade essa que mais uma vez nos faz lembrar daqueles versos de Bilac: “Porque a Beleza, gêmea da Verdade, / Arte pura, inimiga do artifício, / É a força e a graça na simplicidade”.

A segunda seção do livro, “Cancioneiro Inglês ou de Sandra Gama”, é uma tentativa de romancear, ao longo de 24 sonetos ingleses, todos os dilemas de um Bildungsroman (“romance de formação”), uma autobiografia interior do embate de Érico Nogueira com seu mote da “sinceridade despersonalizada”. Tais sonetos possuem uma progressão curiosa, a dar a impressão de que, tateando, aos poucos, Scardanelli rompe um ceticismo da expressão, alcança alguma graça ao despreocupar-se com o modo pelo qual diz o que quer dizer, e novamente recua à divisa inicial, dizendo “Cansei-me da empolada elocução / e de chorar quem eu não conheci”, o que leva a pensar que não há, para o poeta, solução quanto a isto. Merece destaque o soneto de número 16, no qual encontra perfeita expressão a desgraça de Scardanelli a amar uma imaginária e fingida Sandra Gama: “apenas, entre alguém e seu retrato, / para meu dano, preteri alguém”.

Já a última seção do livro, “Caderno de Exercícios”, é a mais vária no que concerne a formas poéticas, nela se encontrando até poderosos experimentos sintáticos como os dos versos de “Quatro estudos neoclássicos”: “Se amanhece, e / desenha-se a / montanha. / Se súbito um / estalo e / beijo e / sol. / Planou, / pousou no / lago a / folha. / A faísca luziu. // (Agora sombra.)” Além dos temas das seções anteriores – a fugacidade do tempo, da beleza, e a difícil busca do artificialismo sincero –, Érico Nogueira ainda incorpora, nesta última seção, um nada irrelevante imagismo – não apenas contemplativo, mas reflexivo –, tanto no poema supracitado, bem como em “Dois hálitos” e em “Selene e a omoplata”.

Resta, agora, apenas anotar que “O livro de Scardanelli” carrega, ao fim, um ótimo ensaio do poeta, tradutor e crítico literário Carlos Felipe Moisés sobre a poética de Érico Nogueira. E, sobre este último, devo dizer que o único demérito de sua estréia literária é aquele já observado por Ângelo Monteiro na orelha do volume: a “ênfase na paródia e na ironia”. No entanto, não é isso exatamente um defeito: talvez fosse um terreno a ser inevitavelmente cruzado para que se cumprisse o trajeto que Érico se impôs – a essa altura da história da literatura, fazer poesia que imploda o realismo personalista…

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ENTREVISTA

Há um intenso desassossego em seu livro, o qual parece se dar por conta dos dois pólos entre os quais o autor transita: o desejo de verdadeiramente dizer algo que lhe é próprio, e a ciência de que, para fazê-lo, ele não pode apenas pôr a nu seus sentimentos, já que isso seria falsificar a poesia com uma impossível “naturalidade”. Como este embate, este “tema”, se tornou claro para você?

É difícil dizer. Desde que, aos quinze, dezesseis anos, eu “descobri” minha vocação de poeta, amar a poesia era, para mim, amar a técnica da poesia, amar o desafio de, ao mesmo tempo, dizer o que me desse na telha e obedecer à severa disciplina da forma. Comecei com Bilac e Guilherme de Almeida, e logo encontrei João Cabral, cuja opção pelo caminho “mais difícil”, como diz em certo poema, sempre me fascinou. A poesia, para mim, sempre foi essa coisa “oblíqua e dissimulada”, coisa que só aceita o pessoal, por incrível que pareça, por meio da despersonalização. Daí o meu amor incondicional aos clássicos greco-latinos, cuja poesia, tão cheia de prescrições, convenções e regras de toda a sorte, não deixa, por isso, de ser muito particular.

A necessidade de comunicar um determinado estado de alma verídico, e, de outra ponta, a necessidade de comunicá-lo através de uma forma artificial, algo fingida, ensaiada: você acredita que nenhum poeta possa fugir a isso?

Acredito. A linguagem comum, espontânea e utilitária que é, não é capaz de veicular certas experiências, de dizer o que deve ser dito e ninguém diz. Ela é frouxa. É disforme. É inexata. De modo que falsifica, necessariamente, aquilo que veicula. A poesia, porém, que é linguagem concentrada em grau máximo, pode chegar a dizer o que, a cada vez, espera por ser dito. Mas tem um preço a pagar: seu caráter artificial – ou “artístico”, palavras de mesma raiz. O poeta não pode fugir desta contradição. Na verdade, é dela que ele vive.

Por que Hoelderlin como uma referência tão central? Por exemplo, por que não buscar os mesmos instrumentos na lírica de um Horácio, poeta por quem você tem tanto apreço e a quem você não deixa de dever em termos de aspiração?

Eis aí outra questão complicada. Eu diria que é o fado. Ou a ocasião, sei lá, que sempre faz o ladrão, não é mesmo? O que sei é que a poesia de Horácio, como você bem notou, é realmente uma “aspiração” ou modelo da minha, sobretudo pelo padrão de qualidade técnica que sempre me impus. Já minha relação com Hoelderlin é outra: como são misteriosos, como são ousados, como são profundos os seus versos! Uma profundidade bem alemã, bem fora de moda hoje, é verdade, a que a loucura do poeta não deixou de dar um toque de tragédia grega… Vivi momentos de extrema tensão, de completa inautenticidade. Quase de loucura: a figura de Hoelderlin, portanto, se impôs naturalmente à minha sensibilidade.

De imediato, seus poemas chamam atenção pela precisão formal, o acabamento impecável, a tão sugestiva alternância entre decassílabos e alexandrinos, por exemplo. Você poderia apontar que poetas lhe deram uma boa lição de “engenharia de versos”?

Todos os poetas que lemos nos dão lições de poesia, de engenharia poética – seja do que se deve fazer, seja do que se deve evitar. Não obstante, há alguns cujas lições são mais evidentes, estão escancaradas nos seus poemas, e podem ser seguidas sem medo pelo neófito. Olavo Bilac e Guilherme de Almeida, por exemplo, poetas que já citei, são versejadores exímios, cujos ensinamentos me foram muito úteis. João Cabral também foi muito importante para mim, embora – como é igualmente o caso de Bruno Tolentino – seja perigoso segui-lo com demasiada paixão. Petrarca, Camões e Góngora são ótimos professores. Eu diria que é o trio de ferro das línguas neolatinas: aprenda com eles, e você terá uma técnica segura.

No início do “Cancioneiro Inglês ou de Sandra Gama”, você brinca com a idéia de que tudo sobre tudo já foi dito. Aquele diletantismo de desculpar-se por não fazer boa poesia com o argumento de que muito de bom já se fez seria tão somente preguiça?

Preguiça e canalhice. A poesia é um dom, evidentemente, mas é também, e sobretudo, trabalho, esforço. Quando comecei, eu já pressentia que o caminho não seria fácil: teria de aprender muitas línguas estrangeiras; teria de escrever obsessivamente; teria de me dedicar por completo. Minha obrigação, no limite, é ler tudo, é saber tudo sobre todos os aspectos da “profissão”: não é assim com o bom advogado, o bom médico, o bom professor? Eu odeio o diletantismo – que é a desculpa dos fracos e dos invejosos. É claro que dar uma nova contribuição à poesia é hoje mais difícil do que há cem anos atrás: a última geração está obrigada a saber mais do que aquela que a precedeu, pelo simples fato de que tem de se haver com uma tradição que inclui esta sua antecessora… Ora, mas este não é também o caso de todas as atividades humanas?

Em um poema da série “O espólio de Horácio”, você escreve: “Eu sei, amigo: dá no mesmo / jogar-se na torre ou na fogueira, / se logo seremos sombra e pó; / porém é só na torre que aprendemos / como o bronze se forja em fogo exato, / como pôr sangue em taças inquebráveis”. Tudo isso leva à intuição de que você se empenha em tratar o fugaz enquanto fugaz em sua poesia, sem falsificá-lo. Ou não?

Sem dúvida. Eu tenho uma pequena teoria sobre a formação dos cânones, sobre como as gerações escolhem os poetas dignos de glória: a sabedoria acumulada da tradição separa o joio do trigo utilizando um critério “simples” de verdade ou falsidade. Atingido um patamar de excelência artesanal, o poeta que vai figurar no cânon será aquele que, em sua obra, disse tão-somente a verdade. Que não mentiu, a despeito da ficção, do fingimento que está no cerne da sua arte. E a primeira verdade, e a mais evidente de todas, é a fugacidade da vida, a vaidade de tudo, a morte.

Há alguma peculiaridade, em seu modo de escrever, elaborar um poema, que você considere digna de nota?

O melhor texto que li sobre o processo de criação poética é ainda o velho “Poésie et pensée abstraite”, de Valéry. Depois que uma inquietação, portanto, ou um desequilíbrio, se instalou em mim, aguçando a minha inteligência e a minha sensibilidade, eu procuro depurar esta “energia” – a conhecida inspiração – não diretamente por meio da escrita, mas, antes que isto aconteça, lendo e meditando um poema qualquer. Goethe, Leopardi, Yeats – pode ser qualquer um dos meus queridos. Desse modo, eu sintonizo as minhas forças na “estação” de um grande autor antes de tocar a minha música. É sempre assim que faço – ou quase sempre.

São muito raros, no Brasil, poetas que escrevam poesia de tensão de idéias, de conceitos, e que o façam de forma não forçada. Parece que seu livro, seguindo de perto “O mundo como Idéia”, do Bruno Tolentino, supre parte dessa carência. Outra coisa rara por aqui é poesia de fôlego épico, coisa que foi minimamente remediada por Gerardo Mello Mourão em “Invenção do Mar”. Você apontaria alguma outra lacuna na poesia brasileira que consideraria pouco honrosa?

Não gosto de generalizações. Mas me parece que o modernismo de 22 infectou a poesia brasileira com o vírus da espontaneidade, do apreço extremado pelo quotidiano, pelo popular, pelo epidérmico, pelo social. É uma poesia geralmente leviana, que busca justificar essas falhas ostentando uma orgulhosa – e postiça – “brasilidade”. É este caráter panfletário, em suma, há já algum tempo muito comum na poesia brasileira, que julgo ser a sua principal deficiência.

7 thoughts on “Entrevista com Érico Nogueira

  1. Excelentes entrevista e entrevistador! Érico Nogueira convenceu-me de que ainda vale a pena ler escritores vivos, mormente brasileiros. Confesso-me, não obstante, inexperto em lidas poéticas e literárias em geral, mas se o nobre patrão deste blog achar por bem que mereço uma resposta, deixo-lhe uma estupefação: é defeito meu ou os escritores brasileiros em geral – e poetas em particular – estão a se expressar num português algo tanto descorado (como o dessa pergunta), sabendo à inglês, numa simplicidade que, longe de ser propriamente direta, é empobrecedora? Sempre me foi natural que o português se escrevesse com alguns circunlóquios, para compensar a inevitável perda das declinações latinas. Talvez seja meu vezo pela prosa casta portuguesa de antigamentes, mas desde a geração de 22 a linguagem no Brasil perdeu expressão e vernaculidade – não digo dos menos instruidos, antes dos escritores. Quem haverá de assumir a herança da novela camiliana, por exemplo? E quem a haverá de ler? Meus abraços sinceros.

  2. Olá, Luiz.

    Tendo a concordar quanto a esse galopante descoramento do português. Na edição de agosto de 2008 da revista Rascunho, cheguei a comentar tal coisa em crítica que fiz dum livro horrendo da Inês Pedrosa, escritora portuguesa espantosa e injustificadamente estimada. E o pior é que o ‘fenômeno’ se dá no mundo lusófono em geral, e não no brasileiro em particular. Destaco alguns trechos de minha crítica de então:

    “Fora o fascínio que, de imediato, a França veio a exercer no Brasil por meio da força intrínseca à sua cultura – nossa literatura principiava a ganhar força (1910, 1920) quando Paris ainda era a capital artística do mundo -, um fator em especial catalisou a influência da língua gálica por aqui: a sua proximidade sintática e lexical com o português. Não fosse a ubiqüidade do inglês, ainda hoje seria mais fácil a uma criança aprender o francês que o inglês. Portanto, e apesar de não termos tantas oxítonas para estender ainda mais a nossa fala, o português também possui sua quota de falatório injustificado, de blablablá que se alonga para além do que seria estritamente necessário para se dizer o que de fato se quer dizer.

    Assim, assoma um panorama em que se pode dispor, com conforto e tranqüilidade, um contraste que parece só se acentuar com o passar das gerações. Ninguém irá negar que já aquele que inventou a nós, Luís Vaz de Camões, sabia como sintetizar em poucos versos – de uma economia sintática cristalina – coisas que um prosador só poderia descrever em páginas e páginas, ainda que, ao fim, nem chegasse a se aproximar da impressão deixada pela versão camoniana (aqui, aliás, nem vale lembrar o desnível de precisão entre prosa e poesia).

    (…)

    É curioso, portanto, que, embora a literatura portuguesa tenha nascido com um Camões a lhe ensinar a exata medida da duração de uma frase em relação a seu sentido, no último século ela tenha caído nas mãos de escritores que, para ser razoável, não posso chamar de menos que repentistas de metáforas embasbacadas. Se, como pensava Jorge Luis Borges, as nações costumam escolher como seus representantes os escritores que menos as representam, como se suprissem uma falta, é lícito pensar que, cada vez mais (a julgar pelas últimas décadas e pela presente), Camões ocupará uma morada acima nas letras portuguesas.

    Veja-se, por exemplo, o prêmio Nobel de nossa língua. José Saramago, com seus parágrafos em blocos, empilhados com uma linguagem cuidada mas por vezes gelatinosa, só consegue realmente se aproximar da grandeza que lhe é imputada quando desenrola longos diálogos, mesmo que entre personagens nem tão bem construídos. Saramago, todavia, de modo algum chega a ser um caso à parte. Outro nome bem referenciado entre a crítica e que sofre de mal semelhante – o mal de não saber onde se deve conter a língua e deixar que a sugestão se instaure – é António Lobo Antunes. O autor de Eu hei-de amar uma pedra, com todo o seu sêmen e frases escritas ao melhor estilo blusa-de-botões-abertos, com aquela apologia canhestra da vida vivida ao extremo, etc., quer a todo o momento levar o leitor a uma situação de arrebatamento, de desmanche, como se quisesse soar em nossas almas as flatulências de uma vagina. Para esse tipo de literatura, no Brasil, já há até uma gíria específica, muito corrente entre nossos “intelectuais” mais jovens: ‘esse livro é porrada‘.”

    Para ler o texto completo, clique aqui.

    Um abraço,

    R.

  3. Caro Ronald, só um reparo: o francês não puxa da perna na última sílaba: isso é só engano de ouvidos costumados à acentuação tónica. Em verdade, o francês não tem sílaba forte ou fraca, mas todas possuem a mesma força. Entoei palavras portuguesas retirando-lhes a tonicidade, e vi que era verdadeira a afirmação. Assim ensinava o prof. Bel-air, autoridade em francês aqui no Rio.

  4. Ótima entrevista. E “a linguagem comum […] é frouxa. É disforme. É inexata. De modo que falsifica, necessariamente, aquilo que veicula” é um primor de afirmação. Genial mesmo. Abraço.

  5. Pingback: Nota sobre “Dois”, de Érico Nogueira « A Fantasia Exata

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