Verdade e elocução

Erich Auerbach investiu alguns anos de sua vida no estudo do sermo humilis. A esse tom de discurso – pois é mais que estilo mas menos que gênero – atribui a fundação intelectual da cultura européia, coisa que espanta por fazer-nos ver que a “cultura ocidental” assenta-se sobre uma fé, uma perspectiva, uma compreensão segundo a qual as verdades mais altas devem ser universalmente compreensíveis, porque expressas em estilo “realista” (o mais baixo da poética clássica – oposto ao sublime, ao idealizado), com simplicidade e paciente submissão a um mistério mais insondável que todos os demais. A sagração do sermo humilis deu-se com Santo Agostinho, tal como exemplifica fartamente Auerbach em Sacrae scripturae sermo humilis. Uma passagem:

O sermo humilis, que permanece humilde mesmo quando é figurado, sempre esteve intimamente ligado às origens e à doutrina do cristianismo, mas foi apenas o grande espírito de Santo Agostinho, onde se cruzavam e por vezes se chocavam o mundo antigo e a fé cristã, que tomou consciência do fato. Talvez não seja exagerado dizer que foi ele que deu à Europa o sermo humilis, dessa maneira fundando, nesse domínio como em outros, a cultura medieval, lançando as bases desse realismo trágico, dessa mistura de estilos que, a bem dizer, só viria a se desenvolver muitos séculos mais tarde. O realismo popular na arte e na literatura floresce a partir do século XII, e é só então que se reencontra, experimentada a fundo e por vezes maravilhosamente formulada, a grande antítese cristã do sublime e do humilde. Mas alguns dos frutos mais belos do espírito humano só amadurecem lentamente.

Há incontáveis páginas de Agostinho sobre “a grande antítese cristã do sublime e do humilde”, e Auerbach, claro, antologia algumas no ensaio supracitado. No entanto, gostaria de lhes apontar uma breve passagem das Confissões (I,30) que não apenas ilustra de maneira muito pessoal a tensão entre uma alta verdade e sua humilde elocução, como ainda permite especular que só a desconfiança quanto ao estilo corrente da época engendra condições de dizermos algo verdadeiramente:

Minha educação era dada de tal modo que temia mais cometer uma impropriedade de linguagem do que acautelar-me da inveja que eu sentiria daqueles que a evitavam, se eu a cometesse.

Temer um vício de estilo mais que o pecado da inveja (e inveja ainda em razão de bem baixa vaidade) é, aí, obstáculo intransponível à elocução de algo que diga respeito a sua experiência real, ao amoldamento do discurso ao que  em realidade se passou em seu espírito. Se mais tarde Agostinho perceberia a vaidade, a futilidade, a impermanência ridícula daquele anseio de fazer-se bem posto em um meio que prima mais pela elevação impostada da expressão do que pela elevação verdadeira do espírito, foi porque só no “estilo humilde” encontrou lugar de onde opor sua voz à algaravia do mundo. Agostinho descobriu que o cristianismo requeria a consciência muito clara de que uma verdade sublime poderia e deveria ser expressa humildemente – mas mais importante é ter ele tornado-nos claro que tal humildade é também uma conquista da própria voz.

Até a Ars Poetica de Horácio conhecíamos este segundo ponto, porém não o primeiro e, ainda menos, a conjunção de ambos. Mesmo Sócrates, já no início de sua defesa perante seus acusadores, nos pede que não esperemos dele, um homem já entrado em idade, um “discurso preparado”, pois não era hábito seu freqüentar tribunas ou locais que tais, onde se falasse “belamente”. Pede-nos, então, que, enquanto juízes, atinemos apenas para o juízo de seu discurso. Que muitas vezes o filósofo venha a utilizar-se de ironias só mostra que seu desprezo pelo estilo correntemente apreciado, socialmente válido, devia-se à certeza de que a verdade, para ser comunicada, necessita que o locutor fale com sua própria voz, embora essa não necessite ser inteiramente “nova”, “original”. É portanto coisa injustificada que ao longo da História tantos homens tenham se preocupado em nos dizer “a verdade”, quando não conseguiam sequer falar, enfim, como alguém – como aquele alguém.

2 thoughts on “Verdade e elocução

  1. “em um meio que prima mais pela elevação impostada da expressão do que pela elevação verdadeira do espírito”

    Exatamente. Acho que vem, justamente, da minha criação cristã-católica a minha antipatia pelo estilo de escrita de um Nietzsche, por exemplo. Por falar nele, não gostaria de escrever algo a respeito? Tenho uma relação muito conflituosa com ele, rs, e não encontro eco nisso. Só elogios, elogios e mais elogios. E acho que ele é passível de muitas críticas… Enfim. Eis uma sugestão.

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