O último enigma

O último enigma que possivelmente iremos experimentar é a constatação de que o mundo, com toda sua secreta geometria, revelou-se-nos afinal por inteiro, em pleno poente da verdade, e todavia, sem compreendermos  bem por que, o rechaçamos feito fosse ele companhia maçante mas benquista – daquele tipo que muito nos agrada, desde que fique calada e em repouso. Veja: és jovem e queres compreender, embora pouco te ocorra perguntar com  seriedade o que diabos afinal é isso que muito queres saber. Suspeitas que algo há que valha a pena das agruras do estudo mais rotineiro, mais denso, amiúde desesperador. Não suspeitas no entanto que, chegado o peso dos 60, 70 anos, tudo te afigure suficiente. Não te ocorre que Ítaca possa tornar-se próxima. E não perguntas: a “busca da transcendência” pode levar-nos à  recusa indiferente de movermos ainda mais esforços em sua busca? Com “A Máquina do Mundo”, Drummond respondeu que sim. E assim respondeu por ter percebido que não existe “busca da transcendência”. É este mundo que se abre para o outro – e tal abertura não se promove com um pé-de-cabra.

É poema de velhice. Poema de alguém que após ter dedicado toda uma vida a uma atividade que não tem outro sentido que não a busca de um sentido maior, a poesia; poema de quem não precisa mais correr em sangria rumo à mansão almejada porque já se encontra sentado em calma na sua sala. Não é, como costumam dizer, poema em que Drummond nega ao mundo a necessidade de um sentido não imanente. Um poema, por ser um poema, já não poderia ser ferramenta para tal engenho. A reação do poeta à maravilha é também maravilhosa, e devemos compreender por quê.

Cada vez mais, noto-me desgraçadamente ridículo quando adoto condutas, ou modos de me expressar, que suponham uma espécie de empenho abnegado de pesquisa, de procura, de caça àquilo que constitui a substância da realidade e de minha vida. Claro que a todo instante, se possível, devemos ter em vista tal propósito. O que é tosco, quero dizer, é a artificialidade da coisa, a indignada recusa de ver-se na situação de quem desse as costas ao mistério e dele se afastasse de “mãos pensas”. Pena que em tantas outras pessoas noto modo de portar-se similar. O mistério, afinal, só pode se nos oferecer para que vivenciemos esse último enigma, que talvez só não seja maior que os de Deus e da morte. Temos de aceitar que a máquina do mundo só se abrirá, afinal e alegoricamente, se já tivermos fixado o cerne de nossas existências com força suficiente para tolerarmos a possibilidade – digamos logo: o fato – de que ela nunca se abrirá.

(Se não conhecem o poema, leiam-no já.)

7 thoughts on “O último enigma

  1. Hey, pequena Carol.

    Que bom que gostaste. É gratificante saber que, além daqueles que foram amigos seus, pode ser que eu não seja o único que ainda o lê :0

    Abrç.,

    R.

  2. O ridículo próprio é um problema.

    O cansaço é outro. E tudo que eu vejo é certo cansaço aí. Não que haja outra saída. E não que não seja um modelo estético eficiente de apresentar-se ao mundo.

    Uma pequena conhecida minha chamar-nos-ia (como chamava a muitos, a todos os ditos intelectuais) simplesmente “pseudo quasi-intelectuais”.

    Mas então retorno ao ridículo, aquele nosso inimigo que sempre nos espreita, a querer agarrar-nos.

    E, bem, talvez eu nem esteja falando coisa com coisa e o avançar da hora, e o cansaço, tenham feito com que eu me manifestasse.

    Um abraço, contudo.

  3. Ótimo post, Ronald. Ótima recomendação também, ajuda a amaciar meu analfabetismo da literatura nacional.

    Alguns dias depois ler seu texto, um poema de William Blake me pareceu similar. Quando fui conferir já não me pareceu mais tão similar assim. Mas, vá lá, ainda se tem algumas imagens parecidas, ou vai dizer que ambos não têm um tanto da perda da inocência como tema? Então não vou perder a viagem.

    Abraço,
    Caio Andrade

    THE ANGEL

    I dreamt a dream! What can it mean? And that I was a maiden Queen Guarded by an Angel mild: Witless woe was ne’er beguiled!

    And I wept both night and day, And he wiped my tears away; And I wept both day and night, And hid from him my heart’s delight.

    So he took his wings, and fled; Then the morn blushed rosy red. I dried my tears, and armed my fears With ten-thousand shields and spears.

    Soon my Angel came again; I was armed, he came in vain; For the time of youth was fled, And grey hairs were on my head.

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