Não ao debate

“O que digo é: o conservadorismo precisa aprender a jogar também dentro das regras da academia de esquerda, sob o risco de enclausurar-se em discursos meramente laudatórios sobre este ou aquele autor. Seguir o caminho que proponho evitaria parte da radicalização e ainda permitiria aos conservadores trabalhar com o campo semântico da maioria dos leitores de literatura e de crítica literária.”

Retirado daqui. Abaixo, comentário que lá fiz.

Isso, a meu ver, deve ser coisa estritamente abominável. Tomar o mesmo “campo semântico” e aceitar “jogar também dentro das regras da academia de esquerda” inviabiliza, na base, todo o debate. Por exemplo: à diferença do que defende o Emmanuel em seu comentário acima, a suposta pretensão “universalista” e “neutra” da crítica estruturalista é – e o percebemos ao assentar a discussão em seu terreno concreto – só mais um passo no eclipse da linguagem quanto a qualquer realidade extra-língüística, eclipse esse que permitiu as maiores perversões ideológicas, vez que deu via ao “liqüidificar” (para usar um jargão dessas hienas) dos significados, destruindo hierarquias e inviabilizando tradições. Mesmo filósofos hábeis e sui generis como Vilém Flusser, que tentou rejuntar fenomenologia e “analítica” (Wittgenstein), chegou a buscar reduzir todo o ser ao conhecer ao afirmar que, no fim das contas, o que interessa é o simbolismo lógico que fundamenta toda nossa maneira ocidental de “conceber” o mundo.

O que fazer, então, nesse caso? Tentar dialogar com intelectuais cujo ofício não é nada mais do que “ter idéias”, e idéias cujas premissas são em todo equivocadas? Claro que não. Eu acho, sim, que é necessário desde logo – aos que já possuem uma formação de certa solidez, i.e., uma meia dúzia na qual não me incluo – abrir caminho na academia. Esse desbravar, no entanto, se intelectualmente sério, não resultará em menos que implosão das “regras do jogo” atuais. Se alguém vem me dizer que a estrutura do romance machadiano é feita à analogia do movimento das classes sociais brasileiras do século XIX, como faz o Sr. Schwarz, eu simplesmente me recusarei a “demonstrar” a esse fulano que ele incorrera em equívoco. É como tentar provar a um homem que acabou de sentir dor na perna que sua perna simplesmente não existe. Uma pessoa normal não pode consentir em dialogar com um esquizofrênico sem partilhar algo de sua esquizofrenia. Jamais pedirei licença em um debate de acadêmicos com o “profile ok” de hoje. No fim das contas, costumava escrever Nikolai Berdyaev, “the sole criterion of truth is truth itself, the light which streams out of it”.

Entendo, por outro lado, sua preocupação acerca da difusão social do que pensam e produzem os conservadores brasileiros hoje. É, de fato, difícil a quem já se habitou a ler coisas como “este romance traça uma crítica dos limites epistemológicos do consumista” entender o que se passa na cabeça de quem admira – sei lá – a crítica de um Augusto Meyer. Explique-me: como demonstrarei a uma pessoa que estuda aquela besteira de “aspectos metafísicos” da obra de Guimarães Rosa que o grande mestre do romance brasileiro do século XX é José Geraldo Vieira, o único que suporta uma comparação direta com aquela rica prole de escritores de língua alemã (Mann, Von Doderer, Wasserman, Broch etc.), sem minguar o debate com meu interlocutor? Acerca dessa matéria, temo que, até este momento, o mais prudente seja deixar que o tempo passe. À exceção da obra de Olavo de Carvalho, nada há de realmente maduro para ser difundido atualmente no Brasil. Quanto aos dois ou três poetas realmente bons de que dispomos, melhor que se dediquem apenas a escrever seus livros. A ocupação de espaços há de vir naturalmente.

2 thoughts on “Não ao debate

  1. Alegro-me de ver, mesmo com atraso 4 meses de atraso, que foi curto o abandono do blogue. Diga lá, qual livro ou quais livros do José Geraldo Vieira deveríamos ler primeiro? (nós outros, coletivos e abstratos, que ouvimos os elogios e os temos ignorado…)

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