Nossa luso-romanidade (1)

O século recém-findo, que em suas primeiras décadas assistiu a ideologizações biológicas da raça, do estado, do folclore, com tal deu-nos ao menos uma maçaroca de estudos políticos, antropológicos e de religiões comparadas cuja relevância é patente, a despeito de seu panfletarismo nacionalista. É o caso, a exemplo, do “racismo espiritual” que um Julius Evola mobilizaria na Itália fascista, ímpeto cujo espírito fixou-se em Imperialismo Pagano (1928); caso também de Otto Weininger, autor de Geschlecht und Charakter (1903), livro assombroso, no qual uma investigação cara à lógica e à simbologia (“que aspecto da realidade impõe-se com a coexistência destes dois gêneros supremos, o ‘masculino’ e o ‘feminino’?”) é conduzida a uma compreensão da história semita como personificação anti-nórdica da determinabilidade do espírito (prakrití).

Claro: estava “no ar” a necessidade de que cada nação, sobretudo as de passado colonial, estabelecesse seu moto próprio frente às demais; isto era ainda tanto mais urgente à “velha Europa” ameaçada pela cultura liberal e pelo comunismo, dois temores que levaram intelectuais como Giovanni Papini – na Itália, para referir um contemporâneo de Evola – a investirem pesado na defesa da tradição nacional, o que implicava grande monta de livros sobre o “espírito” deste ou aquele povo. Desnecessário dizer que grande parte dos melhores estudos que hoje temos sobre galego-português, langue d’Oc, francês, inglês e germânico antigos surgiram por essa mesma época (primeiras três ou quatro décadas do século XX); não arrisco ver aí coincidência.

Tivemos também, nós brasileiros, nosso “momento nacional”, totalmente outro quando contrastado ao mundo restante, todavia. Gilberto Freyre é, sem dúvida, o intérprete de nossa nacionalidade que toda Europa aspirou ter para si e não teve; Casa Grande & Senzala (1933) e Novo Mundo nos Trópicos (1959) são o retrato cabal da “civilização brasileira”, assim como O mundo que o português criou (1940) e Aventura e Rotina (1953) identificam com maior precisão o que de especificamente “luso” tínhamos – e quão caro pagaríamos se o perdêssemos. O português de Freyre é um tipo semita emigrado e embriagado de mar; ariano não raro ruivo, com pele  amanteigada de sol, homem que a pouco e pouco fez-se um quê mourisco, vocacionado, assim, ao trato preguiçoso para com a terra mas audaz selva adentro, como tal se mostrou em África e América.

[Detalhe bibliográfico de interesse: Fran Paxeco, em Portugal não é ibérico (1932), apostou na tese maravilhosa de que o português é de raça branca originada na África, e não uma espécie de celta do Mediterrâneo, como em geral se crê. Fato é que em cousa duns cinqüenta anos atrás antropólogos ainda perdiam as barbas a ver tribos de brancos não islamizados em plena África; Freyre, se não me engano, deparou-se com esses “pretos brancos”.]

Diferentemente do grosso das nações que passavam sua história a limpo no espelho do presente, tinha o Brasil uma literatura ainda menina; mal percebíamos, por não dispormos então de critério, a distância que ia de José de Alencar a Machado de Assis; e, se escrevo este texto, é porque ainda não demos foro de senso comum ao que faz um Dante Milano superior a um Frederico Schmidt. Com velocidade tremenda, fomos nos desatachando do que tínhamos de luso e, de forma mais ampla, românico; de nossa condição de descendentes de César e de Dom Sebastião.

A mais imediata conseqüência desta neurose foi um decaimento primoroso no nível de precisão vocabular da língua falada e escrita no Brasil. Ao que se seguiu, com celeridade não menor, a absoluta prevalência da parataxe sobre a hipotaxe, a antipatia para com construções pronominais contractas, a perda do senso de musicalidade própria às palavras; seguiu-se, em suma, grave incompreensão de a que estratos da experiência correspondem o tratamento via segunda pessoa do plural, os usos do infinito flexionado, os diferentes aspectos do presente do indicativo e futuro do pretérito; e assim por diante. Isto tudo tem causas e conseqüências bastante identificáveis, sobre as quais falarei em texto próximo.

One thought on “Nossa luso-romanidade (1)

  1. Caro Ronald,

    Esqueceu-te a indiferenciação progressiva dos modos verbais; no Brasil se vão perdendo as nuanças entre indicativo, subjuntivo e imperativo – ao menos essa é a minha experiência carioca, já não sei aí em Atenas.

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