Narrar e descrever

[O que exponho a seguir é imensamente problemático, “crítico”; todavia, faço-o porque consciente de que, tratado apenas quanto a seus fundamentos, – os quais, reconheço, receberam formulação vária, conquanto amiúde parcial, deste ou aquele filósofo, às vezes em termos próprios à metafísica, às vezes em termos de lógica ou de mera crítica literária –, tal problema é sólido, é real, é desafiador e nele a mim não cabe nenhuma originalidade. Dito doutra forma: escrevo este post com inteira modéstia, escondendo-me atrás da porta, que espero abra-se aos amigos leitores.]

Quem tenha acompanhado, mesmo só com leituras e análises pontuais, o desenvolvimento da percepção e crítica de poesia do séc. XIX ao XX, saberá que esporadicamente pronunciaram-se os descontentes com a demasiada carga de enunciados “estáticos” em versos, como se à arte poética se houvesse obrigado uma simulação de abolição do tempo. Algo como o que se sente no início dum poema de Trakl: “Decomposição deslizando pelo quarto podre; / Sombras no papel de parede amarelo (…)” Logo após a morte das vanguardas de início de novecentos, alguns começaram a precisar o problema: a “poesia moderna”, em suma, carecia de verbos, de ação; é como se nela nada se passasse, até se limitando a uma descrição sem fim, à la egotrip, de uma coisa qualquer, concreta ou abstrata. Críticos literários haviam intuído o que, em linguagem de filósofo “profissional”, poderia ser assim expresso: não se pode definir aquilo que previamente não se tenha percebido sequer como analogia; é como querer que alguém seja capaz de dizer “aquela pedra é um mineral com tais e tais propriedades” antes que tenha experimentado que “há uma pedra à minha frente”. A diferença específica pede um gênero a que vá se aplicar; ou: a descrição depende de uma narrativa que lhe seja subjacente.

György Lukács (Narrar ou Descrever?), que eu saiba, foi o primeiro a dar formulação clara à distinção de operações tão elementares à comunicação: quem pensa, fala ou escreve, basicamente, ou narra ou descreve. Embora com outros interesses e partindo de princípios metafísicos (e não de constatações em textos literários, como faz Lukács com fins sociológicos), Olavo de Carvalho é importantíssimo ao conhecimento desse estrato da realidade com o estudo Os Gêneros Literários: Seus Fundamentos Metafísicos, entre outros. O Isagoge de Porfírio – com os comentários que Mário Ferreira dos Santos lhe faz – também importa muito à “discussão” (eis uma palavra viperina).

Quem descreve um fato encaminha-se ao quid pela via lógica, ao passo que aquele que o narra encaminha-se ao quid pela via metafísica. A narrativa “No princípio era o Verbo”, para que seja compreendida, depende da definibilidade de cada uma de suas palavras, a qual, idealmente, encontrar-se-ia em um dicionário onde cada palavra teria externada não só sua forma semântica, mas também lógica (um dicionário inexecutável, evidentemente). Entretanto, só o narrado é que dá intelegibilidade ao definido, ao descrito analiticamente. Aquele que dá seu testemunho (“Eu vi Satanás cair do céu como um raio”) empenha-se em uma narrativa; aquele que explica a narrativa empenha-se em uma descrição. Os Evangelhos são narrativas; a teologia são descrições. Isto muito nos diz: a verdade, nós sempre a conhecemos como uma narrativa; explicá-la, – que pena –, só o podemos fazer com descrições mais e mais abstratas. Acolhai esta pergunta como critério “hermenêutico”: que está a nos dizer um filósofo que tanto se dedica a explicar, explicar, explicar, pouquíssimo nos contando acerca do que fala?

Quando narramos, cheios de sinceridade e medo do falso testemunho, tendemos a acolher a objetividade que o real nos endereça. As descrições analíticas que superpomos ao narrado já dizem respeito quase que só a nós mesmos: uma fórmula matemática não nos apazigua o espírito por ser uma descrição refinadíssima mais do que temos a dizer do mundo e menos do que tem ele a nos mostrar. A filosofia permite que o real nos alcance ao nível de uma fervorosa narrativa; as ciências, quando muito, permitem que nós nos aproximemos do real com gélidas descrições.

Em termos de simbolismo tradicional, seria bastante fácil demonstrar que a forma da narrativa apontaria ao Um, ao círculo, ao passo que a forma da descrição encontraria análogo no Quatro, no quaternário. Tudo isto leva a crer – ou melhor, leva-me a crer, e é só nisto que estou por minha inteira conta neste escrito – que narrativa e descrição são, metafisicamente, gêneros supremos cujo melhor aclaramento traria compreensão mais vívida de nossa experiência. Espero, afinal, que essa investigação seja de interesse a mais alguém.

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