Vida social no paraíso

Estava lá Aquiles, que abraçava

Enfim Heitor, secreto personagem

Do sonho que na tenda o torturava;

Estava lá Saul, tendo por pajem

Davi, que ao som da cítara cantava;

E estavam lá seteiros que pensavam

Sebastião e as chagas que o mataram.

Nesse jardim, quantos as mãos deixavam

Levar aos lábios que os atraiçoaram!

Era a cidade exata, aberta, clara:

Estava lá o arcanjo incendiado

Sentado aos pés de quem desafiara;

E estava lá um deus crucificado

Beijando uma vez mais o enforcado.

Mário Faustino

Há uma página de Itinerário Espiritual da Igreja Católica – um livrinho simples, mas cheio de intuições inspiradoras – em que Júlio Fleichman adverte que os jansenistas trouxeram ao catolicismo um padrão de conduta que em muito se parecia com “a vida social no inferno”; é a conduta que tem por base o medo, e sabemos que o mentiroso, por cuja voz fala Satanás, é antes de tudo um indivíduo que teme, que não se arrisca, que abdica de qualquer ambição sadia e petrifica-se no orgulho de sua pequenez. A seu modo, disso falavam os estóicos ao se referirem à allotriosis.

Já prenúncio do que seja a “vida social no paraíso” – pois é a única coisa que já é o que eternamente será, ensina São Paulo Apóstolo – é a caridade. Nela repousa o intricadíssimo sistema de expectativas que um homem tem diante do outro, e dela depende, se vista em sua “forma” espiritual, toda a teoria do conhecimento: a disposição de ir ao encontro do outro, mesmo que isso o aniquile, faz do homem um ser caridoso, porque o faz vivo, porque o faz politicamente são, capaz de ser, conhecer e conviver com algo até as últimas conseqüências. A fé – a confiança na pessoa de Cristo e em cada uma das pessoas que nos cercam – é seu fundamento espiritual; dela vem a disposição à caridade.

Toda pessoa que se oferece ao risco de confiar no amigo vivencia o aspecto pático e prático, humano enfim (que homem é ser capaz de vivenciar pessoalmente valores objetivos), do sentido de unidade de que os filósofos sempre se empenharam em nos fornecer conceitos e símbolos – eidos, heceitas, mônada etc. Assim como toda aposta repousa sobre algo minimamente conhecido, todo conhecimento é uma aposta numa larga faixa de desconhecido. Nesse sentido, é uma fé que supera um medo, e é uma disposição que neutraliza a autodefesa frente ao potencialmente destrutivo – disso depende a política.

Nenhuma filosofia séria pode deixar de levar em conta a fé e a caridade como fundamentos da convivência humana. As formulações clássicas, “contratualísticas”, passam ao largo desse fato, embora já Platão tivesse tal intuição como lume de algumas passagens do Livro II da República. Não o ignoram, em medida menor ou maior, os estudos políticos de Olavo de Carvalho (Curso de Filosofia Política), Rosenstock-Huessy (Speech and Reality), Eric Weil (Filosofia Política) e outros. Grande parte dessa incompreensão deve-se a duas confusões adrede construídas: mais antiga, a de que os “sentimentos”, por serem vários e subjetivos, “insubmissos ao trabalho conceitual” e ligados à nossa parte “irracional”, devem cair fora da filosofia. É possível que esse erro date mesmo de antes da publicação de As paixões da alma, com a disseminação, no espírito popular, de uma imagem caricatural do filósofo que tem de abdicar da vida de amores (a história de Aberlardo e outras). A segunda confusão, mais burra e recente, deve-se tão-só à ojeriza de boa parte dos intelectuais modernos por qualquer coisa que cheire a cristianismo. Mas o fato é que Platão, São Paulo e Santo Agostinho deixaram-nos pronto todo um vocabulário técnico que desvela o papel dos sentimentos na gnoseologia. Queira Deus alguém se disponha a estudá-lo, e Max Scheler é com toda evidência o que primeiro vem em nosso auxílio.

A esta altura, alguém, presciente do sentido mais básico deste texto, poderá acusar-me de deduzir com automatismo lógico – e por vício de uma determinada formação (catolicismo, escolástica etc.) – que da “vida social no paraíso” vem o padrão da socialidade humana, assim como, em linguagem de dois mil anos, da “Jerusalém celeste” vem a imagem que serve de ideal à “Jerusalém terrestre”. A filosofia política de autores cristãos corre sempre o risco de retornar a esta tese – que, se bem sentida, é inteiramente correta – como escudo contra a realidade. Mas para “validá-la” basta que a preenchamos com seus elementos concretos – ainda que aqui não se queira provar nada.

O Juízo é, de forma geral, a suspensão do ato de determinação, limitação, que deu origem ao mundo e a tudo que nele acontece, que a história, esta ciência da Queda, permite-nos conhecer. A compressão da experiência da eternidade na moldura do tempo e do espaço cessa, e há como que uma explosão do universo que se autoilumina – de modo que o “fim do mundo” é o momento preciso em que o ato de ser e o ato de conhecer se aproximam vertiginosamente. É o meio-dia total, pleno, inabrandável. Como se lê em Lucas 12, 2-3:

Nada há de encoberto que não venha a ser revelado, nem de oculto que não venha a ser conhecido. Portanto, tudo o que tiverdes dito às escuras, será ouvido à luz do dia, e o que houverdes falado aos ouvidos nos quartos, será proclamado sobre os telhados.

Trata-se da identificação da esperança com a realização do esperado, do compromisso assumido com seu cumprimento. Trata-se da comunhão final, quando se verá um deus crucificado / Beijando uma vez mais o enforcado, como escreve Mário Faustino. Todo palavra dita e todo ato realizado guardam em si a imagem da conciliação final, quer vista em sua manifestação na pólis, quer no lógos. Pois é feita de comunhão, distinta em fé e caridade, a “vida social no paraíso”, que dá a medida de cada empresa humana. Nossa ciência política – “instituições”, “democracia”, “representatividade”, “estado de direito” – está cheia de nomes pomposos que se referem a nada, ou quando muito a elementos secundários, inespecíficos, por advirem duma ciência de homens demasiado confiantes, porque investidos de uma confiança no que lhes parece possível fazer; não no que sabem impossível de ser feito.

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