Nossa luso-romanidade (2)

“Os bons escritores são aqueles que mantêm a linguagem eficiente. Quer dizer, que mantêm a sua precisão, a sua clareza.” – Ezra Pound

[Parte 1 aqui]

Por ironia, aquilo que nos era vantagem sociológica e cultural ínsita – o universalismo com ancoragem étnica, fundada na vária presença de imigrados “abrasileirados” num sentido mais ou menos comum – tornou-se problema com o tom que lhe deram determinados intelectuais: tome-se o exemplo dos anglicismo e galicismo que, dum modo geral, foram bem acolhidos como medida de saneamento anti-lusitano, e não como elementos fundidos e revalorados em romanidade, o que de fato eram e são. Isto, claro, entre os melhor educados; há sabor similar até em Lima Barreto, que, como que contra portugas janotas de redação, lia Chamfort no hospício.

No que coube à patuléia, festiva na incapacidade de compreender que “folclore” e “cultura popular” são estratos de produção estritamente dependentes de uma alta cultura a que aplicarão seu solvente “esteticista” – aquela patuléia, ia dizendo, optou pelo desbunde puro e simples. No uso do bom português, então, é que mostrou-se particularmente inábil; e, vejam a cara-de-pau, regozijou-se com sua incompetência invulgar, avessa a tudo que estivesse acima de suas faculdades baixo-ventrícias. Como notou Olavo de Carvalho em “Escrever e gritar”:

“O preconceito antipurista, marioandradino na origem, adquiriu força de dogma ao longo de duas ditaduras (1937 e 1964), quando os intelectuais enragés, não conseguindo derrubar o governo, buscaram consolo na revolução da gramática; e acabaram instaurando no microcosmo das palavras uma ditadura semelhante à que os governantes tinham implantado no mundo físico. Ditadura inspirada num elitismo às avessas, que erigia os preconceitos populistas em normas de exclusão.”

Até aqui expus de forma sumária duas das causas do mal trato de nossa “lusitanidade”; alguém, com razão, poderá indagar por nossa “romanidade”. Seria exagero afirmar termos algo de românico com proeminência histórica, sem embargo; isto, por nos ter sido ausente o fator que informou a romanidade: a oposição étnica, lingüística e política de uma Ρωμανία a uma Βαρβαρία, ou seja, o mundo cristão cuja pedagogia impunha a Eneida como text-book e um mundo vagamente “bárbaro”, fosse lombardo, visigoto etc. Fazer constatação dum sufocamento da romanidade seria falar de uma desestruturação total de nossa comunidade de fala. Assombroso como experimentamos algo disso – e passo a exemplificar.

Sabe-se que é definidora das línguas neolatinas a morfo-sintaxe “analítica”, porque “não-flexionadas”. Lançamos mão de um balaio de preposições, pronomes e formas regenciais que eram desconhecidos do latim clássico, língua dita “sintética”. Em latim escreveríamos: musica quam amo. Traduzida ao português, temos “a música de que eu gosto”, que empresta maior especificidade ao nome (“a música”), ao sujeito (“eu”) e desenraíza do relativo a transitividade do verbo (“de que”). Isto é naturalmente “românico”; isto funda a grande capacidade abstrativa de nossa linguagem; e é esta “analítica” que tem sido barbarizada, pois construções bastante comuns nos dias que correm são as do tipo “a música que eu gosto”, “a pessoa que eu confio”. Trata-se de inglês traduzido para português: “the music I like”, “the man I trust”.

O Dicionário de Verbos e Regimes de Francisco Fernandes anota que, transitivo, o verbo gostar só comporta as acepções de “experimentar, gozar” e “provar”. Claríssimo não ser esse o caso do uso há pouco ilustrado. A confusão refina-se no português de minha cidade, São Luís-MA, onde a dominância pronominal na interlocução ainda é de tu sobre você. Ouvimos, destarte, tralhas como “a música que tu gosta”. É uma desarticulação formidável, exemplar do uso consagrado por blogueiros, jornalistas, publicitários e “escritores marginais” de uma língua sem aparas, rude, onde tudo é tudo, nada é nada, e o que vai entre tudo e nada torna-se núbil demais para ser expresso. Mas dirão talvez que o exemplo que dei é demasiado específico.  Sim, que o é, mas pena que seja uma especificidade entre  outras tantas, devidamente alocadas entre erros de natureza mais ampla como os citados ao fim do texto que precedeu este.

A advertência de Pound nos é hoje um chamado – a nós, brasileiros meio lusos, meio neolatinos.

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Nossa luso-romanidade (1)

O século recém-findo, que em suas primeiras décadas assistiu a ideologizações biológicas da raça, do estado, do folclore, com tal deu-nos ao menos uma maçaroca de estudos políticos, antropológicos e de religiões comparadas cuja relevância é patente, a despeito de seu panfletarismo nacionalista. É o caso, a exemplo, do “racismo espiritual” que um Julius Evola mobilizaria na Itália fascista, ímpeto cujo espírito fixou-se em Imperialismo Pagano (1928); caso também de Otto Weininger, autor de Geschlecht und Charakter (1903), livro assombroso, no qual uma investigação cara à lógica e à simbologia (“que aspecto da realidade impõe-se com a coexistência destes dois gêneros supremos, o ‘masculino’ e o ‘feminino’?”) é conduzida a uma compreensão da história semita como personificação anti-nórdica da determinabilidade do espírito (prakrití).

Claro: estava “no ar” a necessidade de que cada nação, sobretudo as de passado colonial, estabelecesse seu moto próprio frente às demais; isto era ainda tanto mais urgente à “velha Europa” ameaçada pela cultura liberal e pelo comunismo, dois temores que levaram intelectuais como Giovanni Papini – na Itália, para referir um contemporâneo de Evola – a investirem pesado na defesa da tradição nacional, o que implicava grande monta de livros sobre o “espírito” deste ou aquele povo. Desnecessário dizer que grande parte dos melhores estudos que hoje temos sobre galego-português, langue d’Oc, francês, inglês e germânico antigos surgiram por essa mesma época (primeiras três ou quatro décadas do século XX); não arrisco ver aí coincidência.

Tivemos também, nós brasileiros, nosso “momento nacional”, totalmente outro quando contrastado ao mundo restante, todavia. Gilberto Freyre é, sem dúvida, o intérprete de nossa nacionalidade que toda Europa aspirou ter para si e não teve; Casa Grande & Senzala (1933) e Novo Mundo nos Trópicos (1959) são o retrato cabal da “civilização brasileira”, assim como O mundo que o português criou (1940) e Aventura e Rotina (1953) identificam com maior precisão o que de especificamente “luso” tínhamos – e quão caro pagaríamos se o perdêssemos. O português de Freyre é um tipo semita emigrado e embriagado de mar; ariano não raro ruivo, com pele  amanteigada de sol, homem que a pouco e pouco fez-se um quê mourisco, vocacionado, assim, ao trato preguiçoso para com a terra mas audaz selva adentro, como tal se mostrou em África e América.

[Detalhe bibliográfico de interesse: Fran Paxeco, em Portugal não é ibérico (1932), apostou na tese maravilhosa de que o português é de raça branca originada na África, e não uma espécie de celta do Mediterrâneo, como em geral se crê. Fato é que em cousa duns cinqüenta anos atrás antropólogos ainda perdiam as barbas a ver tribos de brancos não islamizados em plena África; Freyre, se não me engano, deparou-se com esses “pretos brancos”.]

Diferentemente do grosso das nações que passavam sua história a limpo no espelho do presente, tinha o Brasil uma literatura ainda menina; mal percebíamos, por não dispormos então de critério, a distância que ia de José de Alencar a Machado de Assis; e, se escrevo este texto, é porque ainda não demos foro de senso comum ao que faz um Dante Milano superior a um Frederico Schmidt. Com velocidade tremenda, fomos nos desatachando do que tínhamos de luso e, de forma mais ampla, românico; de nossa condição de descendentes de César e de Dom Sebastião.

A mais imediata conseqüência desta neurose foi um decaimento primoroso no nível de precisão vocabular da língua falada e escrita no Brasil. Ao que se seguiu, com celeridade não menor, a absoluta prevalência da parataxe sobre a hipotaxe, a antipatia para com construções pronominais contractas, a perda do senso de musicalidade própria às palavras; seguiu-se, em suma, grave incompreensão de a que estratos da experiência correspondem o tratamento via segunda pessoa do plural, os usos do infinito flexionado, os diferentes aspectos do presente do indicativo e futuro do pretérito; e assim por diante. Isto tudo tem causas e conseqüências bastante identificáveis, sobre as quais falarei em texto próximo.

Verdade e elocução

Erich Auerbach investiu alguns anos de sua vida no estudo do sermo humilis. A esse tom de discurso – pois é mais que estilo mas menos que gênero – atribui a fundação intelectual da cultura européia, coisa que espanta por fazer-nos ver que a “cultura ocidental” assenta-se sobre uma fé, uma perspectiva, uma compreensão segundo a qual as verdades mais altas devem ser universalmente compreensíveis, porque expressas em estilo “realista” (o mais baixo da poética clássica – oposto ao sublime, ao idealizado), com simplicidade e paciente submissão a um mistério mais insondável que todos os demais. A sagração do sermo humilis deu-se com Santo Agostinho, tal como exemplifica fartamente Auerbach em Sacrae scripturae sermo humilis. Uma passagem:

O sermo humilis, que permanece humilde mesmo quando é figurado, sempre esteve intimamente ligado às origens e à doutrina do cristianismo, mas foi apenas o grande espírito de Santo Agostinho, onde se cruzavam e por vezes se chocavam o mundo antigo e a fé cristã, que tomou consciência do fato. Talvez não seja exagerado dizer que foi ele que deu à Europa o sermo humilis, dessa maneira fundando, nesse domínio como em outros, a cultura medieval, lançando as bases desse realismo trágico, dessa mistura de estilos que, a bem dizer, só viria a se desenvolver muitos séculos mais tarde. O realismo popular na arte e na literatura floresce a partir do século XII, e é só então que se reencontra, experimentada a fundo e por vezes maravilhosamente formulada, a grande antítese cristã do sublime e do humilde. Mas alguns dos frutos mais belos do espírito humano só amadurecem lentamente.

Há incontáveis páginas de Agostinho sobre “a grande antítese cristã do sublime e do humilde”, e Auerbach, claro, antologia algumas no ensaio supracitado. No entanto, gostaria de lhes apontar uma breve passagem das Confissões (I,30) que não apenas ilustra de maneira muito pessoal a tensão entre uma alta verdade e sua humilde elocução, como ainda permite especular que só a desconfiança quanto ao estilo corrente da época engendra condições de dizermos algo verdadeiramente:

Minha educação era dada de tal modo que temia mais cometer uma impropriedade de linguagem do que acautelar-me da inveja que eu sentiria daqueles que a evitavam, se eu a cometesse.

Temer um vício de estilo mais que o pecado da inveja (e inveja ainda em razão de bem baixa vaidade) é, aí, obstáculo intransponível à elocução de algo que diga respeito a sua experiência real, ao amoldamento do discurso ao que  em realidade se passou em seu espírito. Se mais tarde Agostinho perceberia a vaidade, a futilidade, a impermanência ridícula daquele anseio de fazer-se bem posto em um meio que prima mais pela elevação impostada da expressão do que pela elevação verdadeira do espírito, foi porque só no “estilo humilde” encontrou lugar de onde opor sua voz à algaravia do mundo. Agostinho descobriu que o cristianismo requeria a consciência muito clara de que uma verdade sublime poderia e deveria ser expressa humildemente – mas mais importante é ter ele tornado-nos claro que tal humildade é também uma conquista da própria voz.

Até a Ars Poetica de Horácio conhecíamos este segundo ponto, porém não o primeiro e, ainda menos, a conjunção de ambos. Mesmo Sócrates, já no início de sua defesa perante seus acusadores, nos pede que não esperemos dele, um homem já entrado em idade, um “discurso preparado”, pois não era hábito seu freqüentar tribunas ou locais que tais, onde se falasse “belamente”. Pede-nos, então, que, enquanto juízes, atinemos apenas para o juízo de seu discurso. Que muitas vezes o filósofo venha a utilizar-se de ironias só mostra que seu desprezo pelo estilo correntemente apreciado, socialmente válido, devia-se à certeza de que a verdade, para ser comunicada, necessita que o locutor fale com sua própria voz, embora essa não necessite ser inteiramente “nova”, “original”. É portanto coisa injustificada que ao longo da História tantos homens tenham se preocupado em nos dizer “a verdade”, quando não conseguiam sequer falar, enfim, como alguém – como aquele alguém.