Nota sobre “Dois”, de Érico Nogueira

[Publicado em Imparcial, ago. 2011. Leia texto sobre O livro de Scardanelli e entrevista com seu autor aqui.]

Dois (2010, É Realizações), mais recente livro do poeta paulista Érico Nogueira, que rápido alcança paridade aos grandes da literatura nacional, é ponto de torção do arco de uma lira que, posta em circulação com O livro de Scardanelli (2008, É Realizações), o faz partícipe das duas linhas mestras de nossas letras: a dos grandes arquitetos do verso, de Manuel Botelho de Oliveira a Bruno Tolentino, e a dos saltadores de abismos rumo a Deus, de Cruz e Sousa a Ângelo Monteiro.

O que se encontra em Dois são registros de uma “paidéia” muito pessoal, por dizer respeito à pedagogia que o homem Érico se impôs: buscar “Roma” (a salvação, a luz divina, a veracidade da existência), ainda que ela seja “este poço / de secreções e beijos de granito”. Pois “viver o que nos mata todos vivem, / saber vivê-lo, sim, é ave rara”. No livro anterior, como Scardanelli (pseudônimo da loucura de Hölderlin), Érico dramatizara a idéia de que, em poesia, a experiência mais particular só pode ser expressa por meio do artificialismo congênito à verdadeira arte – e o realismo, a ele como a Auerbach, é o que de mais alto se constrói sobre uma pira em que queimam o real e o imaginado.

Tal tema ainda se apresenta em Dois, todavia como parte de uma busca: a apropriação de si mesmo, que é apropriação dos grandes temas da poesia ocidental por meio de experimento sutil, atualíssimo, da potencialidade dos metros clássicos. Veja-se que na seção “Deu Branco”, que narra em nove poemas uma viagem a Roma, o poeta dá ao alexandrino ritmo que nunca assumiu em língua portuguesa: “Roma, enfim – chego bem, só que tarde demais; / estátua e praça e tudo não como o esperado / (o mundo é tão certinho na fotografia); / ouço ‘Deus mora ali, bem ali, logo além’, / mas, olhando o tamanho da fila, meu Deus, / é bom ficar de fora; um giro na cidade”.

O preceito de Goethe de que o artista só alcança maestria por demonstrar destreza nas limitações naturais à sua arte é norte ético a Érico Nogueira. Por isso importa-lhe a “cópula impossível” entre pensamento e realidade, “o tônus e o tino”, instinto e intelecto, sexo e Deus, ritmo e sentido. “Porque o contentamento / não há de ser luxúria ou celibato”, Érico Nogueira tem olhos para a unidade que fundamenta todas as dualidades da existência, por saber que “a ocasião se colhe como a uva / que a chuva não encharca, e o sol não tosta”.

Espanta o domínio que Érico, conhecedor do hexâmetro grego (ele traduz Teócrito em seu doutorado) aos ritmos ibéricos, estabelece sobre todos os metros em senhorio cabal, com a presença, às vezes, de um riso indisfarçável, remate da autoconsciência de quem cria. Sua rima toante tem a sutileza do silêncio (“unir” / “aqui”; “par” / “Há”; “jogo” / “corpo”; “gosto” / “vôo”). Talvez porque sua busca por si, por Roma e pela perícia em poesia só possa, afinal, ser apreendida em sotto voce: “Quando o dia se apaga, dentro e fora, / e a luz se adensa em nódoas pelo breu, / alguém intui que algo se demora / cujo nome, se houve, se perdeu”.

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Nossa luso-romanidade (1)

O século recém-findo, que em suas primeiras décadas assistiu a ideologizações biológicas da raça, do estado, do folclore, com tal deu-nos ao menos uma maçaroca de estudos políticos, antropológicos e de religiões comparadas cuja relevância é patente, a despeito de seu panfletarismo nacionalista. É o caso, a exemplo, do “racismo espiritual” que um Julius Evola mobilizaria na Itália fascista, ímpeto cujo espírito fixou-se em Imperialismo Pagano (1928); caso também de Otto Weininger, autor de Geschlecht und Charakter (1903), livro assombroso, no qual uma investigação cara à lógica e à simbologia (“que aspecto da realidade impõe-se com a coexistência destes dois gêneros supremos, o ‘masculino’ e o ‘feminino’?”) é conduzida a uma compreensão da história semita como personificação anti-nórdica da determinabilidade do espírito (prakrití).

Claro: estava “no ar” a necessidade de que cada nação, sobretudo as de passado colonial, estabelecesse seu moto próprio frente às demais; isto era ainda tanto mais urgente à “velha Europa” ameaçada pela cultura liberal e pelo comunismo, dois temores que levaram intelectuais como Giovanni Papini – na Itália, para referir um contemporâneo de Evola – a investirem pesado na defesa da tradição nacional, o que implicava grande monta de livros sobre o “espírito” deste ou aquele povo. Desnecessário dizer que grande parte dos melhores estudos que hoje temos sobre galego-português, langue d’Oc, francês, inglês e germânico antigos surgiram por essa mesma época (primeiras três ou quatro décadas do século XX); não arrisco ver aí coincidência.

Tivemos também, nós brasileiros, nosso “momento nacional”, totalmente outro quando contrastado ao mundo restante, todavia. Gilberto Freyre é, sem dúvida, o intérprete de nossa nacionalidade que toda Europa aspirou ter para si e não teve; Casa Grande & Senzala (1933) e Novo Mundo nos Trópicos (1959) são o retrato cabal da “civilização brasileira”, assim como O mundo que o português criou (1940) e Aventura e Rotina (1953) identificam com maior precisão o que de especificamente “luso” tínhamos – e quão caro pagaríamos se o perdêssemos. O português de Freyre é um tipo semita emigrado e embriagado de mar; ariano não raro ruivo, com pele  amanteigada de sol, homem que a pouco e pouco fez-se um quê mourisco, vocacionado, assim, ao trato preguiçoso para com a terra mas audaz selva adentro, como tal se mostrou em África e América.

[Detalhe bibliográfico de interesse: Fran Paxeco, em Portugal não é ibérico (1932), apostou na tese maravilhosa de que o português é de raça branca originada na África, e não uma espécie de celta do Mediterrâneo, como em geral se crê. Fato é que em cousa duns cinqüenta anos atrás antropólogos ainda perdiam as barbas a ver tribos de brancos não islamizados em plena África; Freyre, se não me engano, deparou-se com esses “pretos brancos”.]

Diferentemente do grosso das nações que passavam sua história a limpo no espelho do presente, tinha o Brasil uma literatura ainda menina; mal percebíamos, por não dispormos então de critério, a distância que ia de José de Alencar a Machado de Assis; e, se escrevo este texto, é porque ainda não demos foro de senso comum ao que faz um Dante Milano superior a um Frederico Schmidt. Com velocidade tremenda, fomos nos desatachando do que tínhamos de luso e, de forma mais ampla, românico; de nossa condição de descendentes de César e de Dom Sebastião.

A mais imediata conseqüência desta neurose foi um decaimento primoroso no nível de precisão vocabular da língua falada e escrita no Brasil. Ao que se seguiu, com celeridade não menor, a absoluta prevalência da parataxe sobre a hipotaxe, a antipatia para com construções pronominais contractas, a perda do senso de musicalidade própria às palavras; seguiu-se, em suma, grave incompreensão de a que estratos da experiência correspondem o tratamento via segunda pessoa do plural, os usos do infinito flexionado, os diferentes aspectos do presente do indicativo e futuro do pretérito; e assim por diante. Isto tudo tem causas e conseqüências bastante identificáveis, sobre as quais falarei em texto próximo.

Não ao debate

“O que digo é: o conservadorismo precisa aprender a jogar também dentro das regras da academia de esquerda, sob o risco de enclausurar-se em discursos meramente laudatórios sobre este ou aquele autor. Seguir o caminho que proponho evitaria parte da radicalização e ainda permitiria aos conservadores trabalhar com o campo semântico da maioria dos leitores de literatura e de crítica literária.”

Retirado daqui. Abaixo, comentário que lá fiz.

Isso, a meu ver, deve ser coisa estritamente abominável. Tomar o mesmo “campo semântico” e aceitar “jogar também dentro das regras da academia de esquerda” inviabiliza, na base, todo o debate. Por exemplo: à diferença do que defende o Emmanuel em seu comentário acima, a suposta pretensão “universalista” e “neutra” da crítica estruturalista é – e o percebemos ao assentar a discussão em seu terreno concreto – só mais um passo no eclipse da linguagem quanto a qualquer realidade extra-língüística, eclipse esse que permitiu as maiores perversões ideológicas, vez que deu via ao “liqüidificar” (para usar um jargão dessas hienas) dos significados, destruindo hierarquias e inviabilizando tradições. Mesmo filósofos hábeis e sui generis como Vilém Flusser, que tentou rejuntar fenomenologia e “analítica” (Wittgenstein), chegou a buscar reduzir todo o ser ao conhecer ao afirmar que, no fim das contas, o que interessa é o simbolismo lógico que fundamenta toda nossa maneira ocidental de “conceber” o mundo.

O que fazer, então, nesse caso? Tentar dialogar com intelectuais cujo ofício não é nada mais do que “ter idéias”, e idéias cujas premissas são em todo equivocadas? Claro que não. Eu acho, sim, que é necessário desde logo – aos que já possuem uma formação de certa solidez, i.e., uma meia dúzia na qual não me incluo – abrir caminho na academia. Esse desbravar, no entanto, se intelectualmente sério, não resultará em menos que implosão das “regras do jogo” atuais. Se alguém vem me dizer que a estrutura do romance machadiano é feita à analogia do movimento das classes sociais brasileiras do século XIX, como faz o Sr. Schwarz, eu simplesmente me recusarei a “demonstrar” a esse fulano que ele incorrera em equívoco. É como tentar provar a um homem que acabou de sentir dor na perna que sua perna simplesmente não existe. Uma pessoa normal não pode consentir em dialogar com um esquizofrênico sem partilhar algo de sua esquizofrenia. Jamais pedirei licença em um debate de acadêmicos com o “profile ok” de hoje. No fim das contas, costumava escrever Nikolai Berdyaev, “the sole criterion of truth is truth itself, the light which streams out of it”.

Entendo, por outro lado, sua preocupação acerca da difusão social do que pensam e produzem os conservadores brasileiros hoje. É, de fato, difícil a quem já se habitou a ler coisas como “este romance traça uma crítica dos limites epistemológicos do consumista” entender o que se passa na cabeça de quem admira – sei lá – a crítica de um Augusto Meyer. Explique-me: como demonstrarei a uma pessoa que estuda aquela besteira de “aspectos metafísicos” da obra de Guimarães Rosa que o grande mestre do romance brasileiro do século XX é José Geraldo Vieira, o único que suporta uma comparação direta com aquela rica prole de escritores de língua alemã (Mann, Von Doderer, Wasserman, Broch etc.), sem minguar o debate com meu interlocutor? Acerca dessa matéria, temo que, até este momento, o mais prudente seja deixar que o tempo passe. À exceção da obra de Olavo de Carvalho, nada há de realmente maduro para ser difundido atualmente no Brasil. Quanto aos dois ou três poetas realmente bons de que dispomos, melhor que se dediquem apenas a escrever seus livros. A ocupação de espaços há de vir naturalmente.

O último enigma

O último enigma que possivelmente iremos experimentar é a constatação de que o mundo, com toda sua secreta geometria, revelou-se-nos afinal por inteiro, em pleno poente da verdade, e todavia, sem compreendermos  bem por que, o rechaçamos feito fosse ele companhia maçante mas benquista – daquele tipo que muito nos agrada, desde que fique calada e em repouso. Veja: és jovem e queres compreender, embora pouco te ocorra perguntar com  seriedade o que diabos afinal é isso que muito queres saber. Suspeitas que algo há que valha a pena das agruras do estudo mais rotineiro, mais denso, amiúde desesperador. Não suspeitas no entanto que, chegado o peso dos 60, 70 anos, tudo te afigure suficiente. Não te ocorre que Ítaca possa tornar-se próxima. E não perguntas: a “busca da transcendência” pode levar-nos à  recusa indiferente de movermos ainda mais esforços em sua busca? Com “A Máquina do Mundo”, Drummond respondeu que sim. E assim respondeu por ter percebido que não existe “busca da transcendência”. É este mundo que se abre para o outro – e tal abertura não se promove com um pé-de-cabra.

É poema de velhice. Poema de alguém que após ter dedicado toda uma vida a uma atividade que não tem outro sentido que não a busca de um sentido maior, a poesia; poema de quem não precisa mais correr em sangria rumo à mansão almejada porque já se encontra sentado em calma na sua sala. Não é, como costumam dizer, poema em que Drummond nega ao mundo a necessidade de um sentido não imanente. Um poema, por ser um poema, já não poderia ser ferramenta para tal engenho. A reação do poeta à maravilha é também maravilhosa, e devemos compreender por quê.

Cada vez mais, noto-me desgraçadamente ridículo quando adoto condutas, ou modos de me expressar, que suponham uma espécie de empenho abnegado de pesquisa, de procura, de caça àquilo que constitui a substância da realidade e de minha vida. Claro que a todo instante, se possível, devemos ter em vista tal propósito. O que é tosco, quero dizer, é a artificialidade da coisa, a indignada recusa de ver-se na situação de quem desse as costas ao mistério e dele se afastasse de “mãos pensas”. Pena que em tantas outras pessoas noto modo de portar-se similar. O mistério, afinal, só pode se nos oferecer para que vivenciemos esse último enigma, que talvez só não seja maior que os de Deus e da morte. Temos de aceitar que a máquina do mundo só se abrirá, afinal e alegoricamente, se já tivermos fixado o cerne de nossas existências com força suficiente para tolerarmos a possibilidade – digamos logo: o fato – de que ela nunca se abrirá.

(Se não conhecem o poema, leiam-no já.)

Verdade e elocução

Erich Auerbach investiu alguns anos de sua vida no estudo do sermo humilis. A esse tom de discurso – pois é mais que estilo mas menos que gênero – atribui a fundação intelectual da cultura européia, coisa que espanta por fazer-nos ver que a “cultura ocidental” assenta-se sobre uma fé, uma perspectiva, uma compreensão segundo a qual as verdades mais altas devem ser universalmente compreensíveis, porque expressas em estilo “realista” (o mais baixo da poética clássica – oposto ao sublime, ao idealizado), com simplicidade e paciente submissão a um mistério mais insondável que todos os demais. A sagração do sermo humilis deu-se com Santo Agostinho, tal como exemplifica fartamente Auerbach em Sacrae scripturae sermo humilis. Uma passagem:

O sermo humilis, que permanece humilde mesmo quando é figurado, sempre esteve intimamente ligado às origens e à doutrina do cristianismo, mas foi apenas o grande espírito de Santo Agostinho, onde se cruzavam e por vezes se chocavam o mundo antigo e a fé cristã, que tomou consciência do fato. Talvez não seja exagerado dizer que foi ele que deu à Europa o sermo humilis, dessa maneira fundando, nesse domínio como em outros, a cultura medieval, lançando as bases desse realismo trágico, dessa mistura de estilos que, a bem dizer, só viria a se desenvolver muitos séculos mais tarde. O realismo popular na arte e na literatura floresce a partir do século XII, e é só então que se reencontra, experimentada a fundo e por vezes maravilhosamente formulada, a grande antítese cristã do sublime e do humilde. Mas alguns dos frutos mais belos do espírito humano só amadurecem lentamente.

Há incontáveis páginas de Agostinho sobre “a grande antítese cristã do sublime e do humilde”, e Auerbach, claro, antologia algumas no ensaio supracitado. No entanto, gostaria de lhes apontar uma breve passagem das Confissões (I,30) que não apenas ilustra de maneira muito pessoal a tensão entre uma alta verdade e sua humilde elocução, como ainda permite especular que só a desconfiança quanto ao estilo corrente da época engendra condições de dizermos algo verdadeiramente:

Minha educação era dada de tal modo que temia mais cometer uma impropriedade de linguagem do que acautelar-me da inveja que eu sentiria daqueles que a evitavam, se eu a cometesse.

Temer um vício de estilo mais que o pecado da inveja (e inveja ainda em razão de bem baixa vaidade) é, aí, obstáculo intransponível à elocução de algo que diga respeito a sua experiência real, ao amoldamento do discurso ao que  em realidade se passou em seu espírito. Se mais tarde Agostinho perceberia a vaidade, a futilidade, a impermanência ridícula daquele anseio de fazer-se bem posto em um meio que prima mais pela elevação impostada da expressão do que pela elevação verdadeira do espírito, foi porque só no “estilo humilde” encontrou lugar de onde opor sua voz à algaravia do mundo. Agostinho descobriu que o cristianismo requeria a consciência muito clara de que uma verdade sublime poderia e deveria ser expressa humildemente – mas mais importante é ter ele tornado-nos claro que tal humildade é também uma conquista da própria voz.

Até a Ars Poetica de Horácio conhecíamos este segundo ponto, porém não o primeiro e, ainda menos, a conjunção de ambos. Mesmo Sócrates, já no início de sua defesa perante seus acusadores, nos pede que não esperemos dele, um homem já entrado em idade, um “discurso preparado”, pois não era hábito seu freqüentar tribunas ou locais que tais, onde se falasse “belamente”. Pede-nos, então, que, enquanto juízes, atinemos apenas para o juízo de seu discurso. Que muitas vezes o filósofo venha a utilizar-se de ironias só mostra que seu desprezo pelo estilo correntemente apreciado, socialmente válido, devia-se à certeza de que a verdade, para ser comunicada, necessita que o locutor fale com sua própria voz, embora essa não necessite ser inteiramente “nova”, “original”. É portanto coisa injustificada que ao longo da História tantos homens tenham se preocupado em nos dizer “a verdade”, quando não conseguiam sequer falar, enfim, como alguém – como aquele alguém.

O mecânico e o sublime no universo do sr. Burnett

Ao historiador Jomar Moraes, com gratidão

Lago Burnett (1929-1995), se mais lembrado um dia for, o será ainda como cronista. Eu mesmo, em matéria em sua homenagem que fiz publicar ano passado, só citei sua produção em versos ligeiramente, preferindo correr parágrafos a respeito do homem de jornal (imenso, hilário). Ignorância minha. Pois se ao maranhense – para lá do notável jornalista que fez escola (no papel de mestre) no Jornal do Brasil das décadas de 60 e 70 – fosse dirigida a paciente atenção que seus livros de poesia lhe fazem merecer, não faltariam sonetos seus em antologias do gênero em língua portuguesa. Poucos entre nós no século XX tiveram tão pleno, sutil, desafiador domínio da forma em quatorze versos.

Publicou Estrela do Céu Perdido (1949), O Ballet das Palavras (1951), Os Elementos do Mito (1953), 50 poemas de Lago Burnett (1959) e O Amor e seus Derivados (1984), além de outros títulos em prosa. Uma vaga afinidade estilística, aliada à conveniência cronológica, fez com que o nome de Lago Burnett fosse arrolado entre os demais da “geração 45”.

Mas o que quero fazer não é meramente lhes “apresentar” o sr. Burnett. Quero é tratar de um aspecto de sua poesia que considero dos mais interessantes, instigante mais ainda se contraposto à escassez de “ouriços” (os homens de uma idéia só de que fala Isaiah Berlin), de “flores de obsessão” entre nossos poetas, não obstante – é óbvio – sejam grandes. Explico-me: digam que Drummond e Bandeira foram poetas de primeira linha, ao que irei aquiescer, mas não sem antes observar que, bom, nada me vem de imediato à cabeça como aquilo que “informa” suas produções quando nelas penso. Explico-me ainda: é que não acredito que artista de verdade, artista mesmo, possa sê-lo sem que ceda a idéias fixas.

Os gênios, invariavelmente, são filhos espúrios de idéias fixas. Eles as aceitam, as levam para passear, põem-nas a dormir, mas ao fim do dia vão à mesa escrever só porque nunca as docilizam inteiramente. Borges jamais conseguiu solucionar a incógnita de por que era ele Borges e não você ou eu – e, ainda, por que o é em um dado tempo (e não noutro), ocupando um certo espaço (e não outro), tendo tal proporção (e não outra). E, porque nunca compreendeu nada disso, escreveu sua obra. François Villon tinha a “paixão pelas ruínas”, como gosta de escrever Marco Lucchesi – e se o topos latino do ubi sunt? (“onde estão?”) a Villon fosse mero expediente retórico, e não real surpresa frente à irrevogabilidade do tempo (surpresa que a ele, um assassino, um proscrito, deveria ser especialmente dolorosa), não teria escrito a “Ballade des Dames du Temps Jadis”.

Enfim, quero tratar de uma “idéia fixa” que norteou muitos dos poemas de Lago Burnett. Ei-la: todas as coisas possuem uma forma perceptível, e a experiência, senão sempre, ao menos amiúde o comprova; no entanto, o movimento existe, as coisas se deslocam, envelhecem, embora permaneçam sendo o que são; ora, mas o que, aí, nos permite discernir tão claramente que aquela coisa, já não sendo inteiramente a mesma, ainda o seja no essencial? Percebam que a questão tem extenso tratamento filosófico no Ocidente, mas Burnett não dá bola para tal coisa. Porque seu interesse no assunto não é, a princípio, de raiz gnosiológica, e menos ainda ontológica: tudo é, puerilmente, uma questão de visão, de perspectiva, embora às vezes salte para além disso. E daí que ora ele se comporte como um idealista solipsista, para quem só há mundo em sua mente, e daí que ora ele se comporte como um realista antisubjetivista, para quem o mundo só possui estrutura fora de sua mente. Etc., etc.

Para colher os escritos mais representativos dessa obsessão, tomo o volume O Amor e seus Derivados por ele conter poemas de todos os livros anteriores do autor, além de alguns inéditos, traçando um arco de 30 anos de vagarosa, bissexta produção poética. “Os objetos”, de 1952, é boa introdução ao tema: Continuar a ler

Entrevista com Érico Nogueira

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Publicado em O Imparcial, 31 de março de 2009.

O fugaz enquanto fugaz

Estréia de Érico Nogueira, O livro de Scardanelli romanceia a idéia de que ao poeta é inevitável a hesitação entre a naturalidade do sentimento e a artificialidade da expressão

Por Ronald Robson

Não tivéssemos o Drummond de Claro Enigma (1951) e as duas obras magnas de Bruno Tolentino, O Mundo Como Idéia (2002) e A Imitação do Amanhecer (2006), e nos seria bem maior o espanto que causa O livro de Scardanelli (2008), volume de estréia do jovem poeta paulista Érico Nogueira. Raríssimas vezes se fez no Brasil poesia com tal envergadura formal a partir de aspirações – em um debate de idéias típico de “poetas-críticos” – que desmentem a imaturidade que geralmente se pode imputar a um escritor de 30 anos.

Para tomar uma referência amplamente conhecida, Fernando Pessoa (o próprio, o ortônimo) talvez tenha sido o poeta lusófono que mais se impôs o exercício da poesia como uma constante tensão entre “interioridade” e “exterioridade”, entre o dizer genuíno de um “eu” e a observação – exterior, severa – das técnicas de que ele se utilizará para tanto. E, se em um Pessoa tal tensão é sombra costumeira mas secundária, em Érico Nogueira ela se fez tema, aspiração e impasse desejável. Já no primeiro poema do livro vemos Érico a dar precisa e bela expressão a esse jogo de duplicidades que energiza a alma de Scardanelli, a voz que fala no livro: “A hora lúcida de cara dupla”.

Divide-se a obra em três partes. “Livro de Horas” é a primeira delas, uma seqüência de 23 poemas, todos eles sendo “traduções” heterodoxas realizadas por Érico dos poemas que o poeta alemão Friedrich Hoelderlin (1770-1843), na velhice e já louco, escreveu sob o pseudônimo de Scardanelli. Disse tradução, mas aqui a palavra conota apenas uma espécie de deliberado plágio formal: pois o que Érico fez foi preencher com conteúdo completamente outro a estrutura métrica e rítmica dos poemas originais – e nada mais.

São poemas muito suaves, como que pensados à voz baixa, a advertirem sobre a fatalidade irreversível do tempo – coisa, aliás, bem expressa em “O Selo”: “Se tal é a morte, é tal também a vida: / quem vai ditoso, mas se esvai na lida, / é como se em lida só passasse: / a vida amarra, a morte é desenlace”. São poemas de versos geralmente decassílabos, distribuídos com ou sem rima no mais das vezes em quadras paragrafadas ou não, simplicidade essa que mais uma vez nos faz lembrar daqueles versos de Bilac: “Porque a Beleza, gêmea da Verdade, / Arte pura, inimiga do artifício, / É a força e a graça na simplicidade”.

A segunda seção do livro, “Cancioneiro Inglês ou de Sandra Gama”, é uma tentativa de romancear, ao longo de 24 sonetos ingleses, todos os dilemas de um Bildungsroman (“romance de formação”), uma autobiografia interior do embate de Érico Nogueira com seu mote da “sinceridade despersonalizada”. Tais sonetos possuem uma progressão curiosa, a dar a impressão de que, tateando, aos poucos, Scardanelli rompe um ceticismo da expressão, alcança alguma graça ao despreocupar-se com o modo pelo qual diz o que quer dizer, e novamente recua à divisa inicial, dizendo “Cansei-me da empolada elocução / e de chorar quem eu não conheci”, o que leva a pensar que não há, para o poeta, solução quanto a isto. Merece destaque o soneto de número 16, no qual encontra perfeita expressão a desgraça de Scardanelli a amar uma imaginária e fingida Sandra Gama: “apenas, entre alguém e seu retrato, / para meu dano, preteri alguém”.

Já a última seção do livro, “Caderno de Exercícios”, é a mais vária no que concerne a formas poéticas, nela se encontrando até poderosos experimentos sintáticos como os dos versos de “Quatro estudos neoclássicos”: “Se amanhece, e / desenha-se a / montanha. / Se súbito um / estalo e / beijo e / sol. / Planou, / pousou no / lago a / folha. / A faísca luziu. // (Agora sombra.)” Além dos temas das seções anteriores – a fugacidade do tempo, da beleza, e a difícil busca do artificialismo sincero –, Érico Nogueira ainda incorpora, nesta última seção, um nada irrelevante imagismo – não apenas contemplativo, mas reflexivo –, tanto no poema supracitado, bem como em “Dois hálitos” e em “Selene e a omoplata”.

Resta, agora, apenas anotar que “O livro de Scardanelli” carrega, ao fim, um ótimo ensaio do poeta, tradutor e crítico literário Carlos Felipe Moisés sobre a poética de Érico Nogueira. E, sobre este último, devo dizer que o único demérito de sua estréia literária é aquele já observado por Ângelo Monteiro na orelha do volume: a “ênfase na paródia e na ironia”. No entanto, não é isso exatamente um defeito: talvez fosse um terreno a ser inevitavelmente cruzado para que se cumprisse o trajeto que Érico se impôs – a essa altura da história da literatura, fazer poesia que imploda o realismo personalista…

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ENTREVISTA

Há um intenso desassossego em seu livro, o qual parece se dar por conta dos dois pólos entre os quais o autor transita: o desejo de verdadeiramente dizer algo que lhe é próprio, e a ciência de que, para fazê-lo, ele não pode apenas pôr a nu seus sentimentos, já que isso seria falsificar a poesia com uma impossível “naturalidade”. Como este embate, este “tema”, se tornou claro para você?

É difícil dizer. Desde que, aos quinze, dezesseis anos, eu “descobri” minha vocação de poeta, amar a poesia era, para mim, amar a técnica da poesia, amar o desafio de, ao mesmo tempo, dizer o que me desse na telha e obedecer à severa disciplina da forma. Comecei com Bilac e Guilherme de Almeida, e logo encontrei João Cabral, cuja opção pelo caminho “mais difícil”, como diz em certo poema, sempre me fascinou. A poesia, para mim, sempre foi essa coisa “oblíqua e dissimulada”, coisa que só aceita o pessoal, por incrível que pareça, por meio da despersonalização. Daí o meu amor incondicional aos clássicos greco-latinos, cuja poesia, tão cheia de prescrições, convenções e regras de toda a sorte, não deixa, por isso, de ser muito particular. Continuar a ler

Instinto quixotesco

Que eu conheça, a visão mais bem acabada – e de uma hilaridade cruel – do que é nosso instinto quixotesco em estado puro, e em cegueira estonteante, é a metade bondosa do visconde partido ao meio de Italo Calvino. É aquele arremedo de cavaleiro nobre, altivo e de gentileza infinita, que justamente por querer tornar o mundo um lugar sem dores o torna mais doloroso ainda. É coisa semelhante a querer dedicar sua vida inteira a se desfazer de todas as infelicidades sem perceber que, importante mesmo, é não deixar que as desditas anulem os momentos de ventura – e com o senão evidente de que aquelas jamais terão término. Eu, tal como muitos (pelo menos espero), tenho de diariamente dar uma surra de realismo neste meu Dom Quixote que não cessa, quase a rasgar meu peito, de brandir sua espada contra todas as imbecilidades e vilezas que o cercam. É claro: é bom que primeiro ele combata as minhas próprias. E, só então, tente consertar algum detalhe do cenário maior em que se insere.

Senão, vejamos: o mundo está aí, e aí, até não se sabe quando, ficará. Já eu e você, muito em breve, não estaremos mais aqui. Se muito, sobreviveremos na memória dos outros, sobrevida essa na qual Jorge Luis Borges, um ateu, via uma espécie de eternidade. Portanto o máximo que chegaremos a fazer – isso, aliás, se nesse intuito empenharmos todas as nossas forças – é ato similar ao de quem atravessa os escombros do que um dia fora a casa de um desconhecido, e, por estranho ímpeto de bondade, em vez de tentar pôr tudo em ordem e reerguer o lar inteiro, encaminha-se a um canto, ergue o indicador – e o desliza levemente contra a lateral de um quadro chamuscado sobre uma parede que ainda resiste. E então pôde um desconhecido deixar em ordem pelo menos a posição de um objeto naquele espaço que outrora fora um lar para outro desconhecido. Isso é o máximo que nossa bondade nos permitirá fazer neste mundo.

E, para fazê-lo, temos de conter nossos instintos quixotescos. Porque o problema não é só o querer pôr fim a todos os reais e imaginários vícios do mundo. O problema verdadeiramente espinhoso é não perceber que o bem, a cada ação nossa, não toma a forma pura do Bem. Agir de acordo com uma moral conseqüente e equilibrada exige perceber que o bem também deve ser moderado de acordo com as circunstâncias em que estamos inseridos. Senão, obviamente, não se estará fazendo o bem de forma consciente – e fazê-lo inconscientemente é um risco, conquanto assim poderemos também agir de má forma sem que o percebamos (Ética a Nicômaco).

Se, por exemplo, a cada porcaria que lesse na imprensa brasileira eu resolvesse escrever um post mostrando por que aquilo está errado, no prazo máximo de cinco dias eu estaria completamente pinel, babando minha bondade histérica sobre o teclado. Agir corretamente exige, enfim, a contrapartida de agüentarmos determinados graus de maldade e sandice. Fora que, aliás, combater o mal apenas por combatê-lo não equivale de forma alguma à realização do bem com vistas eminentemente positivas. Dou um exemplo: supondo que o cristianismo estivesse errado e nos fosse um dever moral sermos anticristãos, se passássemos dia e noite a falar mal do cristianismo, tal como desde sempre passam os militantes ateístas, jamais estaríamos livres da religião de Cristo. Ao contrário, permaneceríamos sob sua sombra, continuaríamos a vê-la de dentro. A mesmíssima coisa ocorreria se eu me dedicasse a refutar premissa por premissa toda e qualquer baboseira política com que me defrontasse: eu estaria vivendo à sombra de um outonal e gigantesco pé de baboseiras.

Enfim, resolvi escrever este post apenas para me poupar de fazer um comentário sobre uma matéria especialmente idiota que li – e assim, evidentemente, atrasar um pouquinho a dissipação de meu espírito. E quem me estendeu a mão, mais uma vez (mais uma vez mesmo), foi nosso querido e nunca suficientemente citado Gilbert Keith Chesterton:

It was the anti-clerical and agnostic world that was always prophesying the advent of universal peace; it is that world that was, or should have been, abashed and confounded by the advent of universal war. As for the general view that the Church was discredited by the War – they might as well say that the Ark was descredited by the Flood. When the world goes wrong, it proves rather that the Church is right. The Church is justified, not because her children do not sin, but because they do. But that marks their mood about the whole religious tradition: they are in a state of reaction against it. It is well with the boy when he lives on his father’s land; and well with him when he is far enough from it to look back on it and see it as a whole. But these people have got into an intermediate state, have fallen into an valley from which they can see neither the heights beyond them nor the heights behind. They cannot get out of the penumbra of Christian controversy. They cannot be Christians and they cannot leave off being Anti-Christians. Their whole atmosphere is the atmosphere of a reaction: sulks, perversity, petty criticism. They still live in the shadow of the faith and have lost the light of the faith.

In The Everlasting Man.