Verdade e elocução

Erich Auerbach investiu alguns anos de sua vida no estudo do sermo humilis. A esse tom de discurso – pois é mais que estilo mas menos que gênero – atribui a fundação intelectual da cultura européia, coisa que espanta por fazer-nos ver que a “cultura ocidental” assenta-se sobre uma fé, uma perspectiva, uma compreensão segundo a qual as verdades mais altas devem ser universalmente compreensíveis, porque expressas em estilo “realista” (o mais baixo da poética clássica – oposto ao sublime, ao idealizado), com simplicidade e paciente submissão a um mistério mais insondável que todos os demais. A sagração do sermo humilis deu-se com Santo Agostinho, tal como exemplifica fartamente Auerbach em Sacrae scripturae sermo humilis. Uma passagem:

O sermo humilis, que permanece humilde mesmo quando é figurado, sempre esteve intimamente ligado às origens e à doutrina do cristianismo, mas foi apenas o grande espírito de Santo Agostinho, onde se cruzavam e por vezes se chocavam o mundo antigo e a fé cristã, que tomou consciência do fato. Talvez não seja exagerado dizer que foi ele que deu à Europa o sermo humilis, dessa maneira fundando, nesse domínio como em outros, a cultura medieval, lançando as bases desse realismo trágico, dessa mistura de estilos que, a bem dizer, só viria a se desenvolver muitos séculos mais tarde. O realismo popular na arte e na literatura floresce a partir do século XII, e é só então que se reencontra, experimentada a fundo e por vezes maravilhosamente formulada, a grande antítese cristã do sublime e do humilde. Mas alguns dos frutos mais belos do espírito humano só amadurecem lentamente.

Há incontáveis páginas de Agostinho sobre “a grande antítese cristã do sublime e do humilde”, e Auerbach, claro, antologia algumas no ensaio supracitado. No entanto, gostaria de lhes apontar uma breve passagem das Confissões (I,30) que não apenas ilustra de maneira muito pessoal a tensão entre uma alta verdade e sua humilde elocução, como ainda permite especular que só a desconfiança quanto ao estilo corrente da época engendra condições de dizermos algo verdadeiramente:

Minha educação era dada de tal modo que temia mais cometer uma impropriedade de linguagem do que acautelar-me da inveja que eu sentiria daqueles que a evitavam, se eu a cometesse.

Temer um vício de estilo mais que o pecado da inveja (e inveja ainda em razão de bem baixa vaidade) é, aí, obstáculo intransponível à elocução de algo que diga respeito a sua experiência real, ao amoldamento do discurso ao que  em realidade se passou em seu espírito. Se mais tarde Agostinho perceberia a vaidade, a futilidade, a impermanência ridícula daquele anseio de fazer-se bem posto em um meio que prima mais pela elevação impostada da expressão do que pela elevação verdadeira do espírito, foi porque só no “estilo humilde” encontrou lugar de onde opor sua voz à algaravia do mundo. Agostinho descobriu que o cristianismo requeria a consciência muito clara de que uma verdade sublime poderia e deveria ser expressa humildemente – mas mais importante é ter ele tornado-nos claro que tal humildade é também uma conquista da própria voz.

Até a Ars Poetica de Horácio conhecíamos este segundo ponto, porém não o primeiro e, ainda menos, a conjunção de ambos. Mesmo Sócrates, já no início de sua defesa perante seus acusadores, nos pede que não esperemos dele, um homem já entrado em idade, um “discurso preparado”, pois não era hábito seu freqüentar tribunas ou locais que tais, onde se falasse “belamente”. Pede-nos, então, que, enquanto juízes, atinemos apenas para o juízo de seu discurso. Que muitas vezes o filósofo venha a utilizar-se de ironias só mostra que seu desprezo pelo estilo correntemente apreciado, socialmente válido, devia-se à certeza de que a verdade, para ser comunicada, necessita que o locutor fale com sua própria voz, embora essa não necessite ser inteiramente “nova”, “original”. É portanto coisa injustificada que ao longo da História tantos homens tenham se preocupado em nos dizer “a verdade”, quando não conseguiam sequer falar, enfim, como alguém – como aquele alguém.

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O mecânico e o sublime no universo do sr. Burnett

Ao historiador Jomar Moraes, com gratidão

Lago Burnett (1929-1995), se mais lembrado um dia for, o será ainda como cronista. Eu mesmo, em matéria em sua homenagem que fiz publicar ano passado, só citei sua produção em versos ligeiramente, preferindo correr parágrafos a respeito do homem de jornal (imenso, hilário). Ignorância minha. Pois se ao maranhense – para lá do notável jornalista que fez escola (no papel de mestre) no Jornal do Brasil das décadas de 60 e 70 – fosse dirigida a paciente atenção que seus livros de poesia lhe fazem merecer, não faltariam sonetos seus em antologias do gênero em língua portuguesa. Poucos entre nós no século XX tiveram tão pleno, sutil, desafiador domínio da forma em quatorze versos.

Publicou Estrela do Céu Perdido (1949), O Ballet das Palavras (1951), Os Elementos do Mito (1953), 50 poemas de Lago Burnett (1959) e O Amor e seus Derivados (1984), além de outros títulos em prosa. Uma vaga afinidade estilística, aliada à conveniência cronológica, fez com que o nome de Lago Burnett fosse arrolado entre os demais da “geração 45”.

Mas o que quero fazer não é meramente lhes “apresentar” o sr. Burnett. Quero é tratar de um aspecto de sua poesia que considero dos mais interessantes, instigante mais ainda se contraposto à escassez de “ouriços” (os homens de uma idéia só de que fala Isaiah Berlin), de “flores de obsessão” entre nossos poetas, não obstante – é óbvio – sejam grandes. Explico-me: digam que Drummond e Bandeira foram poetas de primeira linha, ao que irei aquiescer, mas não sem antes observar que, bom, nada me vem de imediato à cabeça como aquilo que “informa” suas produções quando nelas penso. Explico-me ainda: é que não acredito que artista de verdade, artista mesmo, possa sê-lo sem que ceda a idéias fixas.

Os gênios, invariavelmente, são filhos espúrios de idéias fixas. Eles as aceitam, as levam para passear, põem-nas a dormir, mas ao fim do dia vão à mesa escrever só porque nunca as docilizam inteiramente. Borges jamais conseguiu solucionar a incógnita de por que era ele Borges e não você ou eu – e, ainda, por que o é em um dado tempo (e não noutro), ocupando um certo espaço (e não outro), tendo tal proporção (e não outra). E, porque nunca compreendeu nada disso, escreveu sua obra. François Villon tinha a “paixão pelas ruínas”, como gosta de escrever Marco Lucchesi – e se o topos latino do ubi sunt? (“onde estão?”) a Villon fosse mero expediente retórico, e não real surpresa frente à irrevogabilidade do tempo (surpresa que a ele, um assassino, um proscrito, deveria ser especialmente dolorosa), não teria escrito a “Ballade des Dames du Temps Jadis”.

Enfim, quero tratar de uma “idéia fixa” que norteou muitos dos poemas de Lago Burnett. Ei-la: todas as coisas possuem uma forma perceptível, e a experiência, senão sempre, ao menos amiúde o comprova; no entanto, o movimento existe, as coisas se deslocam, envelhecem, embora permaneçam sendo o que são; ora, mas o que, aí, nos permite discernir tão claramente que aquela coisa, já não sendo inteiramente a mesma, ainda o seja no essencial? Percebam que a questão tem extenso tratamento filosófico no Ocidente, mas Burnett não dá bola para tal coisa. Porque seu interesse no assunto não é, a princípio, de raiz gnosiológica, e menos ainda ontológica: tudo é, puerilmente, uma questão de visão, de perspectiva, embora às vezes salte para além disso. E daí que ora ele se comporte como um idealista solipsista, para quem só há mundo em sua mente, e daí que ora ele se comporte como um realista antisubjetivista, para quem o mundo só possui estrutura fora de sua mente. Etc., etc.

Para colher os escritos mais representativos dessa obsessão, tomo o volume O Amor e seus Derivados por ele conter poemas de todos os livros anteriores do autor, além de alguns inéditos, traçando um arco de 30 anos de vagarosa, bissexta produção poética. “Os objetos”, de 1952, é boa introdução ao tema: Continuar a ler

Entrevista com Érico Nogueira

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Publicado em O Imparcial, 31 de março de 2009.

O fugaz enquanto fugaz

Estréia de Érico Nogueira, O livro de Scardanelli romanceia a idéia de que ao poeta é inevitável a hesitação entre a naturalidade do sentimento e a artificialidade da expressão

Por Ronald Robson

Não tivéssemos o Drummond de Claro Enigma (1951) e as duas obras magnas de Bruno Tolentino, O Mundo Como Idéia (2002) e A Imitação do Amanhecer (2006), e nos seria bem maior o espanto que causa O livro de Scardanelli (2008), volume de estréia do jovem poeta paulista Érico Nogueira. Raríssimas vezes se fez no Brasil poesia com tal envergadura formal a partir de aspirações – em um debate de idéias típico de “poetas-críticos” – que desmentem a imaturidade que geralmente se pode imputar a um escritor de 30 anos.

Para tomar uma referência amplamente conhecida, Fernando Pessoa (o próprio, o ortônimo) talvez tenha sido o poeta lusófono que mais se impôs o exercício da poesia como uma constante tensão entre “interioridade” e “exterioridade”, entre o dizer genuíno de um “eu” e a observação – exterior, severa – das técnicas de que ele se utilizará para tanto. E, se em um Pessoa tal tensão é sombra costumeira mas secundária, em Érico Nogueira ela se fez tema, aspiração e impasse desejável. Já no primeiro poema do livro vemos Érico a dar precisa e bela expressão a esse jogo de duplicidades que energiza a alma de Scardanelli, a voz que fala no livro: “A hora lúcida de cara dupla”.

Divide-se a obra em três partes. “Livro de Horas” é a primeira delas, uma seqüência de 23 poemas, todos eles sendo “traduções” heterodoxas realizadas por Érico dos poemas que o poeta alemão Friedrich Hoelderlin (1770-1843), na velhice e já louco, escreveu sob o pseudônimo de Scardanelli. Disse tradução, mas aqui a palavra conota apenas uma espécie de deliberado plágio formal: pois o que Érico fez foi preencher com conteúdo completamente outro a estrutura métrica e rítmica dos poemas originais – e nada mais.

São poemas muito suaves, como que pensados à voz baixa, a advertirem sobre a fatalidade irreversível do tempo – coisa, aliás, bem expressa em “O Selo”: “Se tal é a morte, é tal também a vida: / quem vai ditoso, mas se esvai na lida, / é como se em lida só passasse: / a vida amarra, a morte é desenlace”. São poemas de versos geralmente decassílabos, distribuídos com ou sem rima no mais das vezes em quadras paragrafadas ou não, simplicidade essa que mais uma vez nos faz lembrar daqueles versos de Bilac: “Porque a Beleza, gêmea da Verdade, / Arte pura, inimiga do artifício, / É a força e a graça na simplicidade”.

A segunda seção do livro, “Cancioneiro Inglês ou de Sandra Gama”, é uma tentativa de romancear, ao longo de 24 sonetos ingleses, todos os dilemas de um Bildungsroman (“romance de formação”), uma autobiografia interior do embate de Érico Nogueira com seu mote da “sinceridade despersonalizada”. Tais sonetos possuem uma progressão curiosa, a dar a impressão de que, tateando, aos poucos, Scardanelli rompe um ceticismo da expressão, alcança alguma graça ao despreocupar-se com o modo pelo qual diz o que quer dizer, e novamente recua à divisa inicial, dizendo “Cansei-me da empolada elocução / e de chorar quem eu não conheci”, o que leva a pensar que não há, para o poeta, solução quanto a isto. Merece destaque o soneto de número 16, no qual encontra perfeita expressão a desgraça de Scardanelli a amar uma imaginária e fingida Sandra Gama: “apenas, entre alguém e seu retrato, / para meu dano, preteri alguém”.

Já a última seção do livro, “Caderno de Exercícios”, é a mais vária no que concerne a formas poéticas, nela se encontrando até poderosos experimentos sintáticos como os dos versos de “Quatro estudos neoclássicos”: “Se amanhece, e / desenha-se a / montanha. / Se súbito um / estalo e / beijo e / sol. / Planou, / pousou no / lago a / folha. / A faísca luziu. // (Agora sombra.)” Além dos temas das seções anteriores – a fugacidade do tempo, da beleza, e a difícil busca do artificialismo sincero –, Érico Nogueira ainda incorpora, nesta última seção, um nada irrelevante imagismo – não apenas contemplativo, mas reflexivo –, tanto no poema supracitado, bem como em “Dois hálitos” e em “Selene e a omoplata”.

Resta, agora, apenas anotar que “O livro de Scardanelli” carrega, ao fim, um ótimo ensaio do poeta, tradutor e crítico literário Carlos Felipe Moisés sobre a poética de Érico Nogueira. E, sobre este último, devo dizer que o único demérito de sua estréia literária é aquele já observado por Ângelo Monteiro na orelha do volume: a “ênfase na paródia e na ironia”. No entanto, não é isso exatamente um defeito: talvez fosse um terreno a ser inevitavelmente cruzado para que se cumprisse o trajeto que Érico se impôs – a essa altura da história da literatura, fazer poesia que imploda o realismo personalista…

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ENTREVISTA

Há um intenso desassossego em seu livro, o qual parece se dar por conta dos dois pólos entre os quais o autor transita: o desejo de verdadeiramente dizer algo que lhe é próprio, e a ciência de que, para fazê-lo, ele não pode apenas pôr a nu seus sentimentos, já que isso seria falsificar a poesia com uma impossível “naturalidade”. Como este embate, este “tema”, se tornou claro para você?

É difícil dizer. Desde que, aos quinze, dezesseis anos, eu “descobri” minha vocação de poeta, amar a poesia era, para mim, amar a técnica da poesia, amar o desafio de, ao mesmo tempo, dizer o que me desse na telha e obedecer à severa disciplina da forma. Comecei com Bilac e Guilherme de Almeida, e logo encontrei João Cabral, cuja opção pelo caminho “mais difícil”, como diz em certo poema, sempre me fascinou. A poesia, para mim, sempre foi essa coisa “oblíqua e dissimulada”, coisa que só aceita o pessoal, por incrível que pareça, por meio da despersonalização. Daí o meu amor incondicional aos clássicos greco-latinos, cuja poesia, tão cheia de prescrições, convenções e regras de toda a sorte, não deixa, por isso, de ser muito particular. Continuar a ler

As duas vias

“Jesus lhes disse: ‘Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra'” (Jo 4, 34). Fernando Pessoa, em “Passos da cruz – XIII”, escreveu: “Não sei se existe o Rei que me mandou. / Minha missão será eu a esquecer, / Meu orgulho o deserto em que em mim estou…” Resta-nos aceitar que as duas vias só são válidas na medida em que possamos percorrer o caminho do meio.

Sejamos perfeitamente óbvios (4)

É natural ter dúvidas sobre se a profissão pela qual se optou é a que melhor se adequa a nossa vocação, ou ao menos a que a sufoca mais delicadamente, ou ao menos a que ainda nos permita lembrar que um dia acreditáramos possuir semelhante coisa. É natural temer que inexista Deus, temor sem o qual o próprio Deus tornar-se-ia injustificado. É natural caminhar pelas ruas da sua cidade natal, após cruzar umas duas décadas embriagado dum sentimento que só depois você perceberia lhe ser aplicável o nome de “ostracismo”, e sentir que você dera voltas e voltas e voltas, e só o que mudou foram as luzes dos postes – antes comodamente amarelas, hoje assepticamente brancas – e a saúde de seu pulmão: porque exilar-se só tem sentido se for para retornar ao mesmíssimo e imutável ponto de partida. É natural tomar-se por falsamente convencido de que tudo o que você fizera não passou de um temível mosaico de derramamentos de tempo pela janela, quando, em fato, você está verdadeiramente disso convencido e, pior, correto de maneira inexorável. É natural questionar-se, por vezes, de que vale possuir uma certeza que não nos tome em seus braços e nos ponha para dormir.

Instinto quixotesco

Que eu conheça, a visão mais bem acabada – e de uma hilaridade cruel – do que é nosso instinto quixotesco em estado puro, e em cegueira estonteante, é a metade bondosa do visconde partido ao meio de Italo Calvino. É aquele arremedo de cavaleiro nobre, altivo e de gentileza infinita, que justamente por querer tornar o mundo um lugar sem dores o torna mais doloroso ainda. É coisa semelhante a querer dedicar sua vida inteira a se desfazer de todas as infelicidades sem perceber que, importante mesmo, é não deixar que as desditas anulem os momentos de ventura – e com o senão evidente de que aquelas jamais terão término. Eu, tal como muitos (pelo menos espero), tenho de diariamente dar uma surra de realismo neste meu Dom Quixote que não cessa, quase a rasgar meu peito, de brandir sua espada contra todas as imbecilidades e vilezas que o cercam. É claro: é bom que primeiro ele combata as minhas próprias. E, só então, tente consertar algum detalhe do cenário maior em que se insere.

Senão, vejamos: o mundo está aí, e aí, até não se sabe quando, ficará. Já eu e você, muito em breve, não estaremos mais aqui. Se muito, sobreviveremos na memória dos outros, sobrevida essa na qual Jorge Luis Borges, um ateu, via uma espécie de eternidade. Portanto o máximo que chegaremos a fazer – isso, aliás, se nesse intuito empenharmos todas as nossas forças – é ato similar ao de quem atravessa os escombros do que um dia fora a casa de um desconhecido, e, por estranho ímpeto de bondade, em vez de tentar pôr tudo em ordem e reerguer o lar inteiro, encaminha-se a um canto, ergue o indicador – e o desliza levemente contra a lateral de um quadro chamuscado sobre uma parede que ainda resiste. E então pôde um desconhecido deixar em ordem pelo menos a posição de um objeto naquele espaço que outrora fora um lar para outro desconhecido. Isso é o máximo que nossa bondade nos permitirá fazer neste mundo.

E, para fazê-lo, temos de conter nossos instintos quixotescos. Porque o problema não é só o querer pôr fim a todos os reais e imaginários vícios do mundo. O problema verdadeiramente espinhoso é não perceber que o bem, a cada ação nossa, não toma a forma pura do Bem. Agir de acordo com uma moral conseqüente e equilibrada exige perceber que o bem também deve ser moderado de acordo com as circunstâncias em que estamos inseridos. Senão, obviamente, não se estará fazendo o bem de forma consciente – e fazê-lo inconscientemente é um risco, conquanto assim poderemos também agir de má forma sem que o percebamos (Ética a Nicômaco).

Se, por exemplo, a cada porcaria que lesse na imprensa brasileira eu resolvesse escrever um post mostrando por que aquilo está errado, no prazo máximo de cinco dias eu estaria completamente pinel, babando minha bondade histérica sobre o teclado. Agir corretamente exige, enfim, a contrapartida de agüentarmos determinados graus de maldade e sandice. Fora que, aliás, combater o mal apenas por combatê-lo não equivale de forma alguma à realização do bem com vistas eminentemente positivas. Dou um exemplo: supondo que o cristianismo estivesse errado e nos fosse um dever moral sermos anticristãos, se passássemos dia e noite a falar mal do cristianismo, tal como desde sempre passam os militantes ateístas, jamais estaríamos livres da religião de Cristo. Ao contrário, permaneceríamos sob sua sombra, continuaríamos a vê-la de dentro. A mesmíssima coisa ocorreria se eu me dedicasse a refutar premissa por premissa toda e qualquer baboseira política com que me defrontasse: eu estaria vivendo à sombra de um outonal e gigantesco pé de baboseiras.

Enfim, resolvi escrever este post apenas para me poupar de fazer um comentário sobre uma matéria especialmente idiota que li – e assim, evidentemente, atrasar um pouquinho a dissipação de meu espírito. E quem me estendeu a mão, mais uma vez (mais uma vez mesmo), foi nosso querido e nunca suficientemente citado Gilbert Keith Chesterton:

It was the anti-clerical and agnostic world that was always prophesying the advent of universal peace; it is that world that was, or should have been, abashed and confounded by the advent of universal war. As for the general view that the Church was discredited by the War – they might as well say that the Ark was descredited by the Flood. When the world goes wrong, it proves rather that the Church is right. The Church is justified, not because her children do not sin, but because they do. But that marks their mood about the whole religious tradition: they are in a state of reaction against it. It is well with the boy when he lives on his father’s land; and well with him when he is far enough from it to look back on it and see it as a whole. But these people have got into an intermediate state, have fallen into an valley from which they can see neither the heights beyond them nor the heights behind. They cannot get out of the penumbra of Christian controversy. They cannot be Christians and they cannot leave off being Anti-Christians. Their whole atmosphere is the atmosphere of a reaction: sulks, perversity, petty criticism. They still live in the shadow of the faith and have lost the light of the faith.

In The Everlasting Man.

Sobre o medo de ser flagrado lendo Olavo de Carvalho

Se há uma coisa especialmente idiota a acometer muitos dos leitores, ex-leitores, alunos ou ex-alunos de Olavo de Carvalho, é isto: desprezá-lo apenas para posar de diferente. Isso possui um segundo motivo, até compreensível, que comento logo à frente. Mas, de imediato, a causa de tal rejeição parte da sensação de que toda e qualquer pessoa jovem minimamente inteligente a existir hoje, no Brasil, não passa um dia sequer sem ler Olavo de Carvalho. E, ora, você não quer ser só inteligente: você quer ser o mais inteligente. Até aí, não há o que condenar. Obstrução canalha a essa aspiração, todavia, é este meio escolhido para realizá-la: já que todo mundo está lendo Olavo, eu preciso rapidamente digerir tudo o que ele ensinou, começar a ler uns autores nunca citados por ele, e – cereja do bolo – dizer que “Olavo já deu sua contribuição à cultura brasileira, já passou, agora eu e meus amigos é que vamos fazer e acontecer”. É batata: entro em blogs de conservadores e liberais e percebo uma espécie de pacto de silêncio em torno a Olavo após terem chupado seu olho até mais não poder e, sobretudo, até mais não compreender. Isso é de um receio pueril: medo de se tornar caricato, de ter impresso em sua testa a marca dos “novos iguais”. Medo, por exemplo, de criar um perfil no Orkut e entrar em cascata naquelas comunidades correlatas tão ao gosto new conservative brasileiro: Olavo de Carvalho, Mário Ferreira dos Santos, Gustavo Corção, Bruno Tolentino, Otto Maria Carpeaux, José Osvaldo de Meira Penna, José Guilherme Merquior, Ortega y Gasset, Eric Voegelin, René Girard…

Esse modo de querer fazer-se visto é parte de algo que só vejo ser abordado, e parcialmente, por Pedro Sette Câmara. Mais de uma vez, já disse ele que a disputa entre conservadores e comunistas no Brasil é, mais que uma disputa honesta, um duelo de imagens: e o fato de o time dos conservadores – como alguém já disse – não lotar nem uma kombi é mais um fator a tornar nossos direitistas uns seres histrionicamente empenhados em empinar o nariz e se considerarem infinitamente acima dessa coisa que chamamos, com humildade e aquiescência ao que Deus nos consagrou, “consciência humana”. Aliás, naquela aula estranhíssima – de tão equivocada – do Massimo Borghesi que está na Dicta & Contradicta nº 2, há, todavia, uma síntese brilhante do que resultou do desbunde da geração 68 e da french theory (como chamam os americanos) que a acompanhou: o revolucionário pariu o burguês em estado puro. Pois bem. De forma similar, porém invertida, o Brasil passa – talvez eu esteja delirando, vendo coisas, mas vejamos – por um troço mais bisonho ainda: o novo direitista brasileiro age de forma mais à esquerda que as nossas mais jurássicas esquerdas. Nossos direitistas se idiotizaram antes mesmo de ter nascido por aqui alguma direita. Ou dito de outra forma: o direitista brasileiro mal viu a luz e já se pariu à imagem e semelhança do revolucionário em estado puro.

Há algumas características, principalmente na linha mais highbrow, que fazem com que jovens intelectuais conciliem a defenestração de Olavo a uma mentalidade de gueto iluminado cuja postura, diante dos problemas da ordem do dia, é em tudo igual à presunção de tipo gnóstico que ampara a estrutura cognitiva do revolucionário. Há várias, mas, para não tornar este post mais extenso do que já está, citarei uma apenas: a anglofilia. Algo como querer ser um inglesinho chique só para zombar desse pessoal breguérrimo que lê o brega do Olavo – algo como querer levar a sério o personagem que Alexandre Soares Silva criou para si. Porque, de fato, Olavo de Carvalho não é chique e nem se esforça para ser. E ora: além de ter de ser educado por alguém que todos os meus “pares” estão lendo, ainda terei de agüentar a breguice desse meu professor? Enfim: também já é cool ser um conservador elegante e chique. O que penso disso? Nada. Nem ligo. Eu mesmo sou só um subdesenvolvido falando mal do subdesenvolvimento, como me descreveria Nelson Rodrigues.

E aqui chegamos ao segundo motivo, mais plausível e referido no início deste post, para a renegação de Olavo de Carvalho: muita gente em débito com ele agora dá uma de gostoso porque uns 70% de seus leitores são uns seres nauseabundamente chatos. Mais uma vez, direita e esquerda batem as ancas: politizaram todos os seus interesses. É, por sinal, uma gama de leitores que não vai além dos artigos de jornal do Olavo e que se interessa infinitamente mais por política que por cultura. É uma gente que não dá muita bola à astrocaracteriologia, à teoria dos quatro discursos, à metafísica cuja ontologia toma as posições de sujeito e objeto como abstrações e não dados da realidade, à paralaxe cognitiva, à descrição dos mecanismos cognitivos próprios à mentalidade revolucionária, à dinâmica do Império no mundo ocidental – e demais contribuições originais do Olavo (sem falar nos empreendimentos editoriais). Só querem saber de PT, Obama, FARC e vocês sabem todo o resto. De minha parte, acho bastante nobre a postura de quem se encarrega disso: porque eu simplesmente não tenho saco. Minha paciência é dedicada a temas e estudos que não me permitem me inteirar tanto quanto eu gostaria a respeito desses assuntos “da ordem do dia”. Mas sempre acompanho. Só não faço deles os meus segundos, terceiros ou sequer quartos interesses – pois são os últimos. E, retornando ao que eu queria dizer – não é possível julgar um autor pelos seus maus leitores. Mas é isso que se tem feito com Olavo.

Em resumo, eis o fato que tanto incomoda a muitos: a centralidade de Olavo de Carvalho no que se salvar da atual cultura brasileira. Sua obra transformou os debates intelectuais minimamente honestos do Brasil em um jogo de cartas marcadas. Uma hora, um irá brandir seu Voegelin na cara do adversário. Noutro momento, o segundo surpreenderá com uma citação de Rosenstock-Huessy. Quando o debate se aproximar do ápice, um dos contendores dirá que o outro está tomando o verossímil por provável, em uma alusão à teoria dos quatro discursos. E assim por diante.

Mas, afinal, o que fazer quanto a isso? Eu, como sempre (dizem meus inimigos), tenho uma solução: não fazer nada, apenas continuar estudando. Naturalmente, os meus e os seus estudos deverão se encaminhar para onde nossas alma, seriedade e dedicação indicarem. Pois, a propósito, qual o problema em passar dois, três, cinco ou dez anos digerindo um autor? Que mal haveria, sei lá, em ler Mário Ferreira dos Santos durante a vida toda? Isso é de uma canalhice que me deixa crispado de ódio – a canalhice de “colecionar” autores “diferentes” a fim de tornar mais evidente a sua pinta de “intelectual”, como se leituras rápidas e dispersas produzissem algo mais que cansaço mental.

*

Outro dia, em tom de pilhéria, um amigo me disse que Olavo de Carvalho salvou minha vida intelectual – ou mesmo minha vida. Que, se um dia eu não tivesse aberto O Jardim das Aflições, continuaria lendo Hakim Bay e Guy Debord e me lambuzando no ódio de minha impotência. Eu apenas disse que sim, é verdade, e com uma gratidão sincera. Pois é por essas e outras que não tenho vergonha de ser leitor de Olavo de Carvalho. Não quero ser diferente às suas custas.

*

(Alguém poderá perguntar se não tenho nenhuma objeção a fazer a nada do que Olavo escreveu. É claro que tenho, assim como a qualquer outro autor. Mas não darei isso a público por um motivo evidente: não passo de um moleque de 20 anos. Se com o tempo, estudo e reflexão tais objeções continuarem a me parecer procedentes, cessarei de compartilhá-las em conversas privadas e divulgá-las-ei, pelo menos, em blog. Isso, claro, se alguém além de meus amigos se interessar pelo que tenho a dizer.)